Europa renova licença do glifosato. Qual o lugar desse agrotóxico no Brasil

Impulsionado por lavouras transgênicas, herbicida é o mais vendido no mundo e está sendo reavaliado também no Brasil

 

Lançado no mercado na década de 1970 pela multinacional de biotecnologia Monsanto, o glifosato é atualmente o agrotóxico mais vendido no mundo, inclusive no Brasil. A empresa o disponibiliza com o nome de “Roundup”. Trata-se de um herbicida utilizado para matar plantas indesejáveis, eliminando dessa forma concorrentes a culturas como soja, milho e algodão.

Desde junho de 2016, agricultores do mundo inteiro vêm acompanhando um debate na União Europeia sobre se o bloco renovaria ou não a permissão para venda do glifosato em seu território, o que poderia repercutir em outras economias. Opositores afirmam que o produto aumenta o risco de câncer. E defensores, que se trata de um herbicida com baixa toxicidade quando comparado a outros produtos do tipo. Ambos os lados se amparam a pesquisas e pareceres de agências regulatórias.

No dia 27 de novembro, faltando menos de três semanas para o fim da licença em curso, o Comitê de Apelação da Comissão Europeia decidiu renová-la por cinco anos. A vitória representou, no entanto, também um recuo frente à proposta original da Comissão Europeia sobre Segurança Alimentar, que pedia uma licença com validade de quinze anos.

Em sua conta no Twitter, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que, apesar da decisão, a França pretende banir o glifosato em até três anos em seu território. No Brasil, o popular agrotóxico está sendo reavaliado pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) desde 2008.

Em nota de agosto, a entidade afirma que vem acompanhando o debate europeu e que uma nova decisão brasileira sobre a periculosidade do agrotóxico deve ocorrer até 2019. Veja quais foram os principais pontos do debate que se deu na Europa e qual o lugar do glifosato no Brasil.

Contra o glifosato

Câncer

Em março de 2015, uma força-tarefa de cientistas convocada pela Iarc (Agência Internacional de Pesquisa em Câncer) da Organização das Nações Unidas publicou um relatório em que afirmava que, apesar de não haver evidências claras de uma relação entre o glifosato e o câncer em humanos, há pesquisas que indicam essa relação em ratos e camundongos. E trabalhos apontando que o DNA de células humanas sofre danos ao ser exposto ao glifosato.

Por isso, o produto foi classificado como “provavelmente carcinogênico a humanos”. Esta classificação corresponde ao segundo grau de periculosidade em uma escala de um a cinco utilizada pela agência -acima dela está apenas “definitivamente carcinogênico a humanos”.

Manipulação

Em março de 2017, uma corte federal dos Estados Unidos divulgou uma série de documentos, entre eles e-mails trocados por funcionários da Monsanto, indicando como a companhia havia contratado sigilosamente cientistas para que assinassem trabalhos usados para defender a ideia de que o glifosato é um produto seguro. Em um e-mail, o executivo da empresa William Heydens diz: “nós manteríamos os custos baixos se escrevêssemos e eles apenas editassem e assinassem seus nomes”.

Petição

Uma petição apresentada em julho de 2017 assinada por 1,3 milhão de cidadãos da União Europeia pede a proibição do agrotóxico no bloco e afirma que “nós sabemos o que o uso constante de glifosato vai significar para nós, o povo da Europa: pessoas doentes, animais mortos, grama queimada, folhas marrons e perda de biodiversidade”.

A favor do glifosato

Novo parecer da ONU

Em maio de 2016, cerca de um ano após a manifestação contrária ao glifosato feita pela Iarc, duas outras agências ligadas à ONU, a OMS (Organização Mundial de Saúde) e a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) publicaram um outro parecer com base em pesquisas disponíveis. O documento afirmou que o produto “tem pouca probabilidade de causar um risco carcinogênico a humanos devido à exposição por meio da dieta [ou seja, ingestão de alimentos]”. Duas agências da União Europeia, a Autoridade sobre Segurança Alimentar e a Agência Química Europeia, têm posicionamentos similares.

Toxicidade moderada

Um argumento central a favor do glifosato é que, em um contexto no qual o uso de agrotóxicos na produção de alimentos ocorre de forma generalizada, o produto tem a vantagem de ser classificado como de toxicidade moderada e é relativamente seguro, quando comparado às alternativas.

 

E o Brasil?

Um dos motivos centrais pelos quais o glifosato se estabeleceu como o agrotóxico mais vendido no mundo é o fato de que, desde a década de 1990, a Monsanto vem lançando no mercado uma série de plantas transgênicas cuja principal característica é serem resistentes ao herbicida Roundup, feito à base de glifosato e vendido pela mesma companhia.

O primeiro transgênico aprovado para comercialização no Brasil foi uma variedade de soja produzida pela Monsanto com o nome comercial de Roundup Ready, em 1998. A planta foi manipulada geneticamente para sobreviver ao Roundup, ao contrário das plantas que a rodeiam. Hoje, mais de 96% da soja, mais de 88% do milho e mais de 78% do algodão brasileiros são transgênicos, em grande parte resistentes ao glifosato.

A patente da Monsanto sobre este agrotóxico expirou nos anos 2000, mas a empresa segue como a grande fornecedora mundial do produto. Assim como ocorre na União Europeia, o debate sobre a segurança da substância também é de grande relevância para o Brasil, onde o glifosato domina, com folga, a lista de agrotóxicos mais utilizados.

 

Segundo dados do governo citados no livro “Geografia de Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, lançado em novembro de 2017 pela professora da Universidade de São Paulo Larissa Mies Bombardi, foram vendidas 195 mil toneladas de agrotóxicos à base de glifosato em 2014, mais da metade do volume total de agrotóxicos no país. Em segundo lugar vem a substância 2,4 D, com 36,5 mil toneladas. Entre 2009 e 2014 houve um aumento de 64% na venda de glifosato no Brasil.

O risco oferecido pelo glifosato está sendo reavaliado pela Anvisa desde 2008. Em nota divulgada em agosto de 2017, a entidade afirmou que um parecer técnico de 2013 da Fundação Oswaldo Cruz e outros três pareceres técnicos da própria Anvisa de 2017 apontaram que as evidências de que o produto causa câncer são insuficientes para justificar sua proibição.

A despeito disso, Bombardi apresenta em seu livro dados indicando que o Brasil é muito mais permissivo do que a União Europeia no que diz respeito à tolerância de traços do produto na água e nos alimentos. O Brasil tolera 10 miligramas de glifosato por quilo de soja, 200 vezes mais do que o limite do bloco europeu. E 500 microgramas (um grama dividido por um milhão) de glifosato por litro de água potável, uma proporção 5.000 vezes maior do que a da União Europeia.

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