A guerra da Bósnia. E o papel do homem que se matou ao ouvir sua sentença

General Slobodan Praljak ingeriu veneno diante do juiz em protesto contra manutenção de sua pena em tribunal internacional

     

    Slobodan Praljak era diretor de cinema e teatro na antiga Iugoslávia. Entrou para o exército assim que o país começou a se dissolver, após o fim da União Soviética e da Guerra Fria. A partir daí passou a combater na guerra civil que tomou conta da região dos Balcãs em 1992.

     

    Enquanto os conflitos se desenrolavam, Praljak ascendeu na carreira militar rapidamente, se tornando general do exército de uma das etnias em conflito.

    Com o fim da guerra civil, foi acusado de crimes de guerra e condenado, em 2013, a 20 anos de prisão pelo Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia, ligado às Nações Unidas. Ele já estava na prisão havia nove anos.

    O general recorreu da decisão. Na quarta-feira (29), ele e outros cinco indiciados no mesmo caso tiveram seus recursos negados. Praljak teve sua pena mantida em 20 anos, sem possibilidade de novas apelações.

    Em um gesto com ares teatrais — costume que trouxe do passado artístico e pelo qual ficou conhecido na Croácia após o fim da guerra, em 1995 — afirmou:

    “Juízes, Slobodan Praljak não é um criminoso de guerra! Eu rejeito, com desprezo, seu veredito”

    Slobodan Praljak

    General croata na Guerra da Bósnia

    Ao terminar a frase, bebeu um líquido. “É veneno que eu bebi”, afirmou em seguida. Tudo aconteceu na frente dos juízes e das câmeras que transmitiam seu julgamento, ao vivo. O ex-general foi prontamente levado a um hospital, onde teve a morte confirmada no mesmo dia.

     

     

    A autópsia ainda vai determinar qual substância Praljak ingeriu para se matar. As autoridades holandesas também abriram uma investigação para descobrir como o homem de 72 anos conseguiu entrar no tribunal com o recipiente que carregava o veneno.

    O que foi o conflito entre croatas e bósnios

     

    Com o colapso da Iugoslávia em 1992, os territórios que integravam o país se dividiram, entre os quais Bósnia, Croácia e Sérvia. Os sérvios (de maioria católica ortodoxa) que ocupavam parte do território bósnio entraram em guerra, com o apoio do governo da Sérvia, contra a etnia bósnia (de maioria muçulmana). Eles pretendiam anexar seus territórios à Sérvia e criar um país homogêneo etnicamente.

    Inicialmente, os croatas (em maioria católicos romanos) que ocupavam territórios no sul da Bósnia se juntaram aos bósnios na luta contra os sérvios. Slobodan Praljak comandava o exército de croatas nessas trincheiras.

    Durante uma reunião em maio de 1992, contudo, os líderes dos sérvios e croatas se uniram para eliminar os bósnios da região e dividir o território em disputa. O exército croata passou, então, a atacar os ex-aliados bósnios muçulmanos.

    “Não é segredo que os croatas ao sul da Bósnia ficariam mais felizes se fizessem parte da Croácia”

    Slobodan Praljak

    General croata ao documentário “A Morte da Iugoslávia”, da BBC, de 1995

    “Naquela reunião os sérvios inclusive mapearam a fronteira entre nós [sérvios e croatas] no sul [da Bósnia]”

    Mate Boban

    Líder dos croatas na Bósnia, também ao documentário da BBC

    Esse segundo conflito é chamado de “guerra dentro da guerra”. Os croatas do sul da Bósnia passaram a ter apoio do governo da Croácia na tentativa de eliminar os muçulmanos, enquanto os sérvios não os atacavam. Criaram, também, campos de concentração para abrigar os milhares de bósnios que se tornaram prisioneiros durante o conflito.

    “Nós tínhamos que colocar os prisioneiros em algum lugar, então montamos acampamentos. Eu disse ao nosso ministro da Defesa: 'seja cuidadoso, não faça nada que nos envergonhe'”

    Slobodan Praljak

    Ao documentário da BBC

    O jornalista britânico Ed Vulliamy esteve em um desses campos de prisioneiros bósnios em 1993. Segundo ele, Praljak concedeu o direito a três jornalistas de entrarem em um campo de Dretelj, vilarejo próximo à cidade de Mostar, onde as forças comandadas pelo general atuaram de forma mais ativa. Segundo Vulliamy, os “homens bósnios muçulmanos estavam maltratados, famintos e morrendo” no local.

    Os conflitos continuaram até março de 1994. Sob pressão do Conselho de Segurança da ONU e dos EUA, croatas e bósnios assinaram o acordo de cessar-fogo, criando 10 cantões autônomos na área em disputa.

    Os sérvios continuaram sua guerra até novembro de 1995, que depois foi caracterizada como limpeza étnica e levou seus comandantes também ao Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia.

    O que Praljak fez para ser condenado

     

    Slobodan Praljak era o general do HVO (Conselho de Defesa Croata), ou seja, as forças armadas dos croatas do sul da Bósnia. Ele, portanto, tinha poder de comando das tropas no conflito.

    Segundo o Tribunal Penal Internacional para a antiga Iugoslávia, Praljak participou ativamente de alguns crimes e foi conivente com outros que seus comandados executaram. Entre eles:

    • Foi informado da remoção e detenção da população muçulmana da cidade bósnia de Prozor entre julho e agosto de 1993;
    • Sabia de crimes — incluindo execuções — na cidade de Mostar, da destruição de prédios na região oeste da cidade — incluindo mesquitas e a ponte velha — e do ataque a membros de organizações internacionais;
    • Facilitou o assassinato de muçulmanos que não faziam parte de forças armadas — civis, que devem ser poupados em conflitos armados pelas leis internacionais.

    Por desrespeitar as Convenções de Genebra — leis internacionais que estabelecem os limites da guerra — e praticar crimes contra a humanidade, Praljak foi indiciado em 2003 e se entregou em 2004. Desde então permaneceu preso aguardando julgamento.

    Em 2013 foi condenado aos 20 anos de prisão, decisão contra a qual recorreu e perdeu na quarta-feira (29), se matando logo em seguida.

    O que é esta Corte

    O Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia é um tipo de tribunal chamado ad hoc. Isso significa que ele é criado para julgar crimes circunscritos a um conflito em particular e, depois de concluído o trabalho, é dissolvido.

    Ele foi criado em 1993, pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas e se dedica exclusivamente aos crimes cometidos na Ex-Iugoslávia.

    161

    pessoas foram indiciadas no TPI para a ex-Iugoslávia

    O julgamento do recurso dos seis condenados no caso do qual Praljak fazia parte era um dos últimos atos da corte. Na semana anterior, em 22 de novembro, o chefe do exército sérvio no mesmo conflito da Bósnia, Ratko Mladić, havia sido condenado à prisão perpétua. A Corte será dissolvida no fim de 2017.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto confundia o Tribunal Penal Internacional para a Ex-Iugoslávia com o Tribunal Penal Internacional. A informação foi corrigida no dia 9 de fevereiro de 2018.

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