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Quem é Peter Thiel e qual é sua briga contra um site de notícias dos EUA

Empresário fundador do PayPal e investidor do Facebook agora demonstra interesse em comprar o Gawker, site que foi à falência com sua ajuda em 2016

     

    O bilionário americano Peter Thiel, empresário conhecido por seus investimentos certeiros – como o que fez ao fundar o PayPal em 1998 ou no Facebook em seu início, em 2004 –, voltou a ser notícia em razão de uma atualização da controversa disputa judicial com o site Gawker.com, que fechou as portas em agosto de 2016.

    Na quarta-feira (22), um documento emitido pela Justiça americana paralisou o processo de pedido de falência do site, atendendo a um apelo dos advogados de Thiel. Isso porque o empresário foi propositalmente excluído dentre os possíveis compradores.

    O que torna a história curiosa é o fato de o próprio Thiel ser o responsável pelo processo que levou o site à falência. Como indica o Buzzfeed, que publicou o fato novo da disputa, se Thiel comprar o Gawker, cujo arquivo de notícias ainda está todo on-line, o empresário “terá o direito de fazer [com as publicações] o que ele quiser, inclusive deletá-las”.  

    Histórico da briga

    Famoso por suas coberturas polêmicas, não raramente envolvendo a vida pessoal de celebridades americanas, o Gawker formava, ao lado de outros sites populares como Gizmodo, Jezebel, io9, Lifehacker, Deadspin e Kotaku, o conglomerado Gawker Media.

    Em 2014, o profissional de luta-livre Terry Bollea (conhecido como Hulk Hogan) teve um vídeo íntimo seu vazado pelo site. O lutador deu início a uma briga judicial que se arrastou por dois anos. Em 2016, a Justiça decidiu contra o Gawker e exigiu o pagamento de US$ 140 milhões em danos a Bollea. Sem ter como pagar, a empresa fechou e vendeu suas marcas mais famosas para a Univision, exceto o Gawker.com.

    No mesmo ano, a revista Forbes revelou que Peter Thiel esteve secretamente financiando a batalha judicial de Bollea contra o Gawker. Em 2007, Thiel havia sido alvo da Gawker, que publicara uma nota sobre o investidor intitulada “Peter Thiel é totalmente gay, gente".

    “É menos sobre vingança e mais sobre uma dissuasão específica”, disse ao jornal The New York Times, na época. “Eu vi o Gawker assumindo um modo incrivelmente danoso de ganhar atenção fazendo bullying contra outras pessoas, mesmo sem conexão com interesse público (...) Achei que valia a pena revidar.”

    “Peter Thiel acabou se saindo com o que de outra forma seria visto como um ato de vingança mesquinho (...) Tendo passado anos em um esquema secreto para punir a empresa-mãe do Gawker e seus redatores (...), Thiel agora se lança como um defensor bilionário da privacidade, ajudando outros cujas vidas íntimas foram expostas pela imprensa. É um posicionamento engenhoso contra um site que promoveu os efeitos salutares da fofoca e uma organização que praticou transparência radical.”

    Nick Denton

    Presidente do Gawker, na última publicação do site

    O caso é explorado no documentário “Nobody Speak” (Ninguém fala), lançado em julho com produção da Netflix e direção de Brian Knappenberger (“O Menino da Internet: A História de Aaron Swartz” e “We Are Legion: The Story of the Hacktivists”). O longa explora os efeitos da mão pesada dos novos bilionários do Vale do Silício sobre a liberdade de expressão no país.

    PayPal, Facebook e Trump

    Peter Thiel nasceu em Frankfurt, na Alemanha, em 1967. Mudou-se com a família ainda jovem para os Estados Unidos, onde se tornou um jogador de xadrez conhecido. No país, trilhou um caminho acadêmico em filosofia e depois direito. Em 1999, criou o serviço de transferência de dinheiro PayPal com outros três colegas. No ano seguinte, a empresa se uniu a uma companhia de online banking fundada pelo empresário Elon Musk. Em 2002, a empresa abriu seu capital na bolsa e foi, na sequência, comprada pelo eBay por US$ 1,5 bilhão.

    Com a conta bancária cheia, Thiel criou empresas de investimento, como a Clarium Capital, Valar Ventures e a Founders Fund. Com esta, já investiu em quase 300 empresas, incluindo Airbnb, Lyft, Oculus, Niantic (produtora do jogo Pokémon GO) e a argentina OLX.

    Com seu próprio capital, tornou-se o primeiro investidor fora do núcleo de fundadores a colocar dinheiro no Facebook. Em 2004, três meses após a rede social ser lançada, Thiel entrou com US$ 500 mil, ganhando assento no conselho da diretoria da empresa, posição que ainda mantém.

    Desde 2012, Thiel passou a vender, de tempos em tempos, sua participação no Facebook. Na última semana, por exemplo, ele vendeu ¾ das suas ações restantes por US$ 29 milhões. Com as negociações, o empresário já faturou mais de US$ 1,5 bilhão. De acordo com o ranking dos mais ricos da Forbes, Thiel, hoje com 50 anos, tem uma riqueza avaliada em US$ 2,6 bilhões.

    Politicamente, Thiel é alinhado ao Partido Republicano americano. Durante a campanha das eleições presidenciais nos EUA em 2016, tornou-se conhecido seu apoio à candidatura de Donald Trump, inclusive financeiro (da ordem de US$ 1,25 milhão). "Todo mundo diz que Trump vai mudar muito todas as coisas (...) Talvez Trump vá mudar muito pouco as coisas. Isso parece um risco muito mais plausível para mim”, disse Thiel ao The New York Times, em janeiro, dias antes de Trump assumir o cargo na Casa Branca.

    O que pensa Peter Thiel

    Gawker vs Hulk Hogan

    “Eu consigo me defender sozinho. A maioria das pessoas que eles [do Gawker] atacam não são pessoas da minha categoria. Eles normalmente atacam pessoas menos proeminentes, menos ricas, que simplesmente não podem se defender (...) Até o Terry Bollea, que é milionário, famoso e bem sucedido, não tinha todo o recurso para fazer isso por conta.”

    Maio de 2016

    “Eu me recuso a acreditar que jornalismo é sinônimo de violações massivas de privacidade (...) Eu tenho uma visão bem mais elevada de jornalistas que isso. É precisamente porque eu respeito jornalistas que eu não acredito que eu os esteja ameaçando ao contra-atacar o Gawker.”

    Maio de 2016

    Donald Trump

    “Há algumas ressonâncias entre [Hulk] Hogan batendo no Gawker e Trump batendo no ‘establishment’ neste país. As pessoas achavam que toda a coisa do Trump era falsa, que ele não iria a lugar nenhum, que era a coisa mais ridícula imaginável, e de alguma forma ele ganhou, como Hogan.”

    Janeiro de 2017

    “Mesmo que alguns aspectos de Trump sejam retrô e pareçam voltar ao passado, penso que muitas pessoas querem voltar para um passado que era futurista – “Jetsons”, “Star Trek”. Eles são datados, mas são futuristas.”

    Janeiro de 2017

    “[Trump mostrou] uma compreensão fenomenal das pessoas. Ele é muito carismático, mas é porque ele sabe exatamente o que dizer às diferentes pessoas para deixá-las à vontade.”

    Janeiro de 2017

    “Acho que Trump é muito bom sobre direitos gays (...) Eu não acho que ele vá reverter qualquer coisa. Eu obviamente estaria preocupado se eu pensasse diferente disso.”

    Janeiro de 2017

    Corrupção

    “Tem um ponto em que a ausência de corrupção pode ser uma coisa ruim. Pode significar que as coisas estejam muito chatas. (...) Eu não estou desconsiderando questões éticas aqui, mas eu me preocupo que ‘conflito de interesse’ seja muito usado como forma de ataque, na nossa política. Acho que, em muitos casos, onde há conflito de interesses, há alguém que entende algo muito melhor do que [outra] sem conflito de interesse. Se não tem conflito de interesse, geralmente é porque você apenas não está interessado.”

    Janeiro de 2017

    Inovação

    “Acho que poderíamos estar fazendo bem melhor. Temos [no Founders Fund] um slogan: ‘Eles nos prometeram carros voadores e tudo o que temos são 140 caracteres’. Eu sou pró Vale do Silício; ainda é onde a inovação surge. Mas precisamos fazer mais para levar a civilização para o nível seguinte.”

    Setembro de 2014

    “Houve muito menos inovação no mundo dos átomos [do que no dos bits] – coisas como energia, transporte, biotecnologia, eletrônicos domésticos. Como seres humanos, somos biológicos e incorporados neste mundo material. Eu acho que, para realmente melhorar os padrões de vida, precisamos fazer progresso no nível dos átomos, não apenas no dos bits.”

    Setembro de 2014

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