Quais os fatos reais que inspiraram The Handmaid���s Tale

Segundo autora, todos os episódios que estão na obra já aconteceram na história

     

    A série “The Handmaid’s Tale” e o livro homônimo que a inspirou (“O Conto da Aia”, em português) se passam em um futuro distópico. Os Estados Unidos sofreram um golpe e se transformaram em uma teocracia cristã, a República de Gilead. Com taxas de natalidade em queda, mulheres férteis são usadas para procriação e devem ceder seus filhos a famílias poderosas.

    A série foi lançada nos EUA pelo serviço de streaming Hulu, na época em que o presidente Donald Trump - e suas posições conservadoras em relação às mulheres - chegou ao poder, levando muitos a interpretar a obra como uma previsão sobre o futuro dos EUA.

    “Com a eleição americana, medos e ansiedades proliferam. Liberdades civis básicas são vistas como ameaçadas, assim como os direitos que mulheres conquistaram nas últimas décadas e séculos”

    Margaret Atwood

    Escritora

    Mas a autora do livro, a canadense Margaret Atwood, afirma que ele não se refere apenas ao futuro. Segundo ela, tudo que está na obra já ocorreu alguma vez na história, seja em um Estado totalitário, regime militar ou ordem religiosa.

    “Uma das minhas regras é que eu não colocaria no livro nada que já não houvesse acontecido, no que James Joyce chamou de o ‘pesadelo’ da história, nem nenhuma tecnologia que não estivesse disponível. Nenhum dispositivo imaginário, nenhuma lei imaginária, nenhuma atrocidade imaginária. Dizem que Deus está nos detalhes. O diabo também está”, escreveu ela na introdução da nova edição do livro, lançado originalmente em 1985.

    Em abril de 2018, estreou a segunda temporada da série no Hulu. A primeira temporada estreou no Brasil em março de 2018, no canal Paramount Channel. Em fevereiro de 2019, a Globo transmitiu o primeiro episódio da série, e disponibilizou os demais em sua plataforma de streaming.

    Os fatos que inspiraram O Conto da Aia:

    As roupas

    Em "The Handmaid’s Tale", as roupas marcam a diferença entre as aias e as mulheres dos comandantes. As últimas usam o azul da pureza, da Virgem Maria, enquanto as aias, mulheres férteis que são usadas para reprodução, usam um traje vermelho, do parto e de Maria Madalena.

    “Muitos regimes totalitários usaram vestimenta, tanto proibida quando obrigatória, para identificar e controlar pessoas”, escreve Atwood, citando como exemplo as estrelas amarelas que judeus foram obrigados a usar na Alemanha nazista e o roxo romano, cor que simbolizava as classes imperiais em Roma. 

    Fertilidade

    No livro, a justificativa para a infertilidade da população é um ambiente tóxico: “O ar se encheu demais de químicos, raios, radiação, a água se contaminou com moléculas tóxicas, tudo isso leva anos para limpar, e enquanto isso elas entram no nosso corpo”, diz a personagem que narra a história, Offred. As chances de ter um filho saudável, no livro, são de 1 em 4.

    A autora afirma que, atualmente, estudos na China, país que sofre com problemas ambientais, mostram uma queda de fertilidade nos homens. 

    Controle de mulheres e bebês

    Na introdução da nova edição do livro, Atwood escreve que “o controle da mulher e de bebês tem sido uma característica de todo regime repressivo no planeta”.

    Atwood cita especificamente dois episódios da história que lembram o caso dos bebês de Gilead, que eram afastados das mães biológicas, as aias, após o nascimento. Um deles é o Lebensborn, programa nazista de “aperfeiçoamento” da raça ariana endossado pelo chefe da SS e braço-direito de Hitler, Heinrich Himmler. Um dos objetivos do programa, segundo a revista alemã Der Spiegel, era evitar abortos, que estavam em alta na época, criando famílias “valiosas racial e geneticamente e com muitas crianças”.

    O segundo caso é o do sequestro de bebês de militantes da esquerda durante a ditadura argentina (1973-1986). Mais de 500 bebês nascidos em prisões foram sequestrados e adotados por apoiadores do regime. O objetivo era tanto afirmar a força do regime quanto reorganizar a sociedade, entregando filhos de “subversivos” a famílias que os criariam de forma favorável ao regime. Até hoje, o grupo Avós da Praça de Maio procuram essas crianças, cujos pais foram mortos. Cerca de 120 delas já foram encontradas.

    Proibição de ler

    Na trama, as mulheres de Gilead são proibidas de ler. Há cenas que mostram queima de livros. Isso já ocorreu em diversos momentos da história, entre eles no período da Inquisição espanhola, em que obras consideradas hereges foram destruídas. 

    Atwood também lembra a proibição de escravos americanos de aprender a ler e escrever. Segundo historiadores, acreditava-se que a educação era uma ferramenta de poder e que, se os escravos pudessem ler, eles poderiam se rebelar.

    Disputa entre grupos

    Na obra, uma religião dominante está eliminando as outras, e não apenas os não religiosos. Os católicos e batistas estão sendo mortos pela seita que domina Gilead, enquanto os quakers foram para a clandestinidade e ajudam mulheres a fugir para o Canadá.

    Segundo Atwood, grupos que a princípio compartilhavam valores semelhantes já se mataram em disputas de poder, como os mencheviques e os bolcheviques durante a Revolução Russa de 1917. Em relação aos quakers, ela cita a existência de grupos religiosos que, atualmente, lideram movimentos de proteção a grupos vulneráveis, inclusive mulheres.

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