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Quem ganha com a decisão de Huck de desistir da disputa presidencial

Apresentador da TV Globo afirma que não vai se candidatar ao Palácio do Planalto em 2018. Dois cientistas políticos analisam os impactos desse movimento

     

    O apresentador de TV Luciano Huck anunciou, em artigo publicado na segunda-feira (27) pelo jornal Folha de S.Paulo, que não será candidato à Presidência da República em 2018.

    O anúncio foi feito após meses de especulação sobre sua filiação a partidos políticos, como PPS e DEM. Agora, Huck diz que se juntará a movimentos cívicos para debater um “projeto de país para o Brasil”.

    O nome de Huck começou a ser aventado em meio à crise que atinge políticos tradicionais, envolvidos em escândalos da Lava Jato e outras operações contra a corrupção em andamento no país.

    Apresentador de um programa popular na TV Globo e associado à imagem de solidariedade, Huck era visto como um “elemento novo” no quadro de desgaste dos atuais representantes.

    O apresentador alegou, no artigo, que a opinião de seus familiares foi determinante para que decidisse não se candidatar. A pressão da TV Globo, que romperia o contrato de Huck se ele fosse de fato para a política, também é apontada como um fator de peso.

    Mesmo sem nunca ter assumido que era pré-candidato à Presidência, Huck apareceu nas pesquisas. Obteve 8% de intenção de voto em um levantamento do Ibope realizada em outubro de 2017.

    Com o anúncio da desistência, Huck deixa aberto um espaço de centro-direita que vêm sendo disputado por partidos como DEM, PSD e PSDB.

    A aposta em um ‘outsider’

    O apresentador era cotado para assumir uma candidatura que unificasse propostas de centro-direita, com a vantagem de ser de fora da política e não estar submetido ao desgaste de credibilidade de candidatos tradicionais.

    O prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), tentou ocupar esse espaço para se lançar à Presidência da República. Empresário e apresentador de TV, Doria frisou ao longo de 2016, na campanha que o elegeu prefeito, que era gestor, não político. Assim, chegou a ser cotado para ocupar o espaço do outsider – quando a pessoa não é associada à política tradicional.

    Após projetos da prefeitura serem mal recebidos, como a distribuição de farinata a famílias pobres, e surgirem questionamentos quanto ao número de viagens feitas pelo prefeito, a popularidade de Doria caiu. Hoje, as chances de ele disputar a eleição presidencial são baixas.

    Qual o quadro atual

    O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lidera as pesquisas de intenção de voto, seguido do deputado Jair Bolsonaro (PSC).

    Lula tem problemas com a Justiça e, se for condenado em segunda instância na Lava Jato, pode ser barrado pela Lei da Ficha Limpa, mudando completamente o quadro eleitoral.

    São prováveis candidatos a ex-senadora Marina Silva (Rede) e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), além de outros nomes com desempenho mais baixo atualmente.

    Podem entrar na disputa o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (PSD), como defensor do governo de Michel Temer, e o ex-ministro do Supremo Joaquim Barbosa, como um possível outsider - ele ainda não está filiado a nenhum partido.

    Ao mesmo tempo em que lideram as intenções de votos, Lula, à esquerda, e Bolsonaro, extremista de direita, também lideram os índices de rejeição eleitoral.

    Pesquisa realizada pelo instituto Datafolha em setembro de 2017 indica que 42% dos eleitores não votariam em Lula de jeito nenhum.

    Bolsonaro, por sua vez, vê a rejeição a seu nome crescer rapidamente. Em abril de 2017, 23% dos eleitores não votariam no deputado de jeito nenhum. Em outubro, a rejeição subiu para 33%.

    O efeito da desistência de Huck

    Para entender o efeito da decisão tomada por Huck na configuração do quadro que se desenha para 2018, o Nexo conversou com dois cientistas políticos. São eles:

    Quem se beneficia com a desistência de Huck de concorrer à Presidência da República?

    Nara Pavão  O principal efeito do Luciano Huck sair da disputa, mesmo sem nunca ter entrado, é o fato de que ele seria um candidato outsider [pessoa que nunca participou da política]. A gente precisa entender que havia muita incerteza, sobre o partido que ele iria concorrer, e essa incerteza faz com que a desistência do Huck não altere tanto a conjuntura, porque ele não se colocou oficialmente como um candidato.

    Agora, o Huck ia se colocar como um outsider, um papel que a população almeja enxergar atualmente diante da crise de credibilidade que atinge os políticos tradicionais.

    Eu fiz uma pesquisa recente que os entrevistados respondiam quem seria mais qualificado para conduzir o Brasil atualmente. A opção mais escolhida, entre 50% e 60%, foi "alguém de fora da política que combata os políticos tradicionais". Isso mostra que há uma forte rejeição aos políticos tradicionais e a população não quer que nomes novos se associem a eles.

    O Huck foi sondado por vários partidos, inclusive pelo PSDB, com quem ele já tem ligação de bastante tempo. O medo do Huck para se filiar ao PSDB era ser associado a uma imagem ruim, porque possivelmente as pessoas que votariam no Luciano Huck não votariam no PSDB. Então eu imagino que ele avaliava a entrada no PSDB, por exemplo, como algo perigoso para a popularidade dele.

    Para os políticos tradicionais, o Huck sair da concorrência é bom, porque eles não terão que enfrentar um candidato que tem a característica de "ser de fora da política" que o eleitorado deseja.

    José Álvaro Moisés  Em primeiro lugar, quem se beneficia é o Brasil. Não faz sentido ter candidatura de outsider que não é suficientemente envolvido com a prática política e preparado para uma função como a Presidência da República. Então, acho que o Luciano Huck tomou uma decisão sensata e correta.

    Em segundo lugar, mais importante do que essa decisão, é o fato de ele anunciar que vai continuar trabalhando com movimentos que atuam no terreno da renovação política, que querem trazer pessoas novas para a política e, ao mesmo tempo, que querem definir substantivamente projetos para o país.

    Agora, alguns candidatos que estão se colocando como possíveis articuladores do centro político, que estão longe dos dois extremos populistas de esquerda [Lula] e de direita [Bolsonaro], vão ter mais condições de propor um debate aberto sobre que temas e projetos que são importantes para que esse centro se consolide.

    Um nome que pode se beneficiar com essa decisão é o do governador Geraldo Alckmin. Uma vez que Doria não esteja mais na disputa pela vaga de candidato pelo PSDB e que não haja mais um outsider ocupando o centro, candidatos que tenham mais experiência devem ter mais chance.

    Embora Alckmin esteja sendo investigado pelo Ministério Público, por ora ele está respondendo adequadamente ao processo. Nomes com mais experiência, preparo, qualificação e experiência para ocupar a posição de centro devem se beneficiar com a desistência do Luciano Huck.

    A declaração de Huck pode ser tomada como definitiva? Ou as possibilidades políticas deixam abertas as portas para que ele volte atrás?

    Nara Pavão Essa seria uma jogada arriscada. Se Huck se distancia da candidatura agora e anuncia que vai assumir ela mais adiante, vai pular toda uma etapa de possível desgaste da imagem dele. O lance seria saber o que aumentaria mais, a popularidade ou a rejeição a ele.

    Huck já é conhecido e tem uma reputação forte, mas ele não é associado à política ainda, então a possibilidade de anunciar uma candidatura mais adiante seria uma jogada que, apesar de arriscada, poderia dar certo.

    Essa possibilidade existe, mas o que eu considero mais interessante na carta do Huck é que em momento algum ele diz que não quer se candidatar. A carta segue o tom de "eu quero, sou a pessoa certa, mas pessoas próximas a mim não querem que eu participe [da eleição]".

    José Álvaro Moisés  Na minha leitura, ele dificilmente vai mudar de decisão. Posso estar equivocado, mas não creio nisso. O artigo dele é muito incisivo.

    O Huck afirma que avaliou bastante com a família, que chegou à conclusão de que seria melhor não se candidatar e deu um passo a mais: declarou que vai continuar trabalhando com os movimentos da sociedade civil, como o Agora!, movimentos que estão lutando pela renovação política.

    Se alguém diz isso e depois volta atrás, acabou. Desse ponto de vista, eu acredito que o texto que ele escreveu não vai ter volta.

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