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O site que difunde a cultura oral e a tradição de povos indígenas

Projeto ‘Histórias da Tradição’ reúne em site fotos, textos, depoimentos e desenhos dos Mehinaku, Karajá e Xavante

 

Preservar a cultura dos povos indígenas e aproximá-la dos habitantes das cidades, por meio da beleza das narrativas tradicionais. É este o objetivo declarado do projeto “Histórias da Tradição”, que teve início em 2013.

Por meio dele, o acervo de histórias contadas nas aldeias dos povos Karajá, Xavante e Mehinaku passou a integrar três livros, um para cada povo. Elas estão, também, reunidas em um site,  que conta, além disso, com fotos, desenhos, textos, depoimentos, vídeos e áudios das histórias, no idioma nativo e em português.

O livro mais recente, “Kuwamutü que criou o mundo e outras histórias do povo Mehinaku”, lançado no dia 28 de novembro, registra a cultura oral da comunidade do Alto Xingu. É também ilustrado pelo povo indígena. Foi produzido com o apoio do edital Rumos, do Itaú Cultural.

Como navegar o site

O endereço on-line do “Histórias da Tradição” contém uma aba que explica a história e a razão de ser do projeto, três abas dedicadas aos povos indígenas cujas narrativas foram registradas até o momento, e uma outra seção, cujo título é “ouvir histórias”.

Angela Pappiani, organizadora dos livros e uma das coordenadoras à frente do projeto, recomenda que se comece a descobrir o material do site pela audição das histórias. 

No ar desde 2014, ele só passou a contar com o áudio em português das narrativas em 2017. Algumas, como as do Mehinaku, nunca tinham sido traduzidas para a língua portuguesa.

Pappiani chama atenção para a trilha que aparece no fundo das histórias: é original e consiste na música do povo retratado e em sons ambientes gravados nas aldeias.

Na aba dedicada a cada povo, é possível ler um pouco a respeito de sua origem e cultura, além de acessar fotos, vídeos e narrativas contadas nas línguas nativas.

 

 

O processo

De acordo com o site do projeto, o trabalho com cada uma das aldeias parceiras durou em média um ano. Foram feitas viagens de campo, o registro e processamento do material, que foi levado para o site e para os livros.

Em entrevista ao Nexo, Pappiani disse que o registro é uma demanda que partiu das próprias comunidades indígenas, com as quais ela trabalha há décadas. Isso porque, com a morte dos mais velhos, a cultura oral dos povos vai se perdendo.

Conforme o acesso das comunidades à internet se amplie, a ideia é que o site seja um instrumento de preservação da tradição usado pela própria comunidade, com suas histórias protegidas e registradas não só em português, mas, principalmente, nas línguas nativas.

Sobre os povos e suas mitologias

 

“Cada povo é um universo completamente diferente. Cada um vive em um ecossistema diverso, e eles têm uma ligação profunda com o lugar onde vivem”, disse Angela Pappiani. Essa conexão acaba por se refletir nas histórias contadas. 

Mehinaku

Os Mehinaku contam terem sido criados na região do Alto Xingu, onde ainda vivem. Suas narrativas tratam desse local, da criação do mundo e do povo. Kamü e Kexü são dois personagens sagrados, fundadores da mitologia Mehinaku. Muitos dos locais percorridos por eles nas histórias não fazem mais parte das terras indígenas.

“Tem lugar que já virou barragem e hidrelétrica. Pra eles, isso é uma violência absurda, são lugares sagrados. É como colocar uma hidrelétrica em Jerusalém”, disse a coordenadora do projeto.

O contato dos Mehinaku com o povo não-indígena se intensificou em meados de 1940, quando foram quase totalmente extintos. Sobreviveram formando alianças e casamentos com outros povos da região onde foi criado, em 1961, o Parque Indígena do Xingu, protegendo cerca de 18 diferentes etnias.

Até o início dos anos 2000, os Mehinaku estavam reunidos na aldeia Uyaipiuku. Hoje, ocupam 6 aldeias nessa mesma região, com uma população total de cerca de 380 pessoas.

Karajá

Vivem na Ilha do Bananal, no Tocantins, próximo ao rio Araguaia. As narrativas dos Karajá têm o rio como base: o próprio mito de origem do povo conta que eles saíram do fundo do rio para habitar a superfície. Os seres fantásticos, os heróis das histórias também estão ligados ao rio. É um povo da água.

A partir de meados do século 20, o território Karajá começou a ser cercado por fazendas, vilas, cidades e empreendimentos econômicos que começaram a afetar seu modo de vida.

Hoje são cerca de 3.000 pessoas, vivendo em diversas aldeias nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Goiás. A maior população está às margens do Rio Araguaia, na Ilha do Bananal, a maior ilha fluvial do mundo, na divisa dos estados de Tocantins e Mato Grosso.

Xavante

Habitam as proximidades da Serra do Roncador, no Mato Grosso, em uma região de Cerrado. São guerreiros e caçadores e sua mitologia está ligada a essa terra, às frutas e animais do Cerrado.

Atualmente a população xavante ultrapassa 20 mil pessoas em 8 terras indígenas, demarcadas do nordeste ao sudeste do Mato Grosso.

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