O que é o ‘efeito Weinstein’, que virou verbete da Wikipédia

Acusações de assédio sexual em Hollywood geraram onda de denúncias; há reflexos na política, gastronomia e ginástica artística

     

    O “efeito Weinstein” virou verbete da Wikipédia. O nome faz referência ao produtor americano Harvey Weinstein, acusado de assédio sexual por mais de 50 mulheres . A enciclopédia on-line define o efeito como um “fenômeno em que alegações de abuso e assédio sexual contra celebridade são tornadas públicas e geram respostas de empresas e instituições”.

    O verbete foi criado em 11 de novembro de 2017 e está disponível em inglês, espanhol e russo. Relata como o caso Weinstein e a subsequente campanha #metoo (#eutambém) “encorajaram indivíduos a compartilhar suas histórias de mau comportamento sexual, criando uma cascata de alegações em múltiplas indústrias que acabaram fazendo com que homens nos EUA e pelo mundo deixassem posições de poder”. Além de Weinstein, o verbete menciona o ator americano Kevin Spacey e o comediante Louis C.K., entre outros.

    Com base em entrevistas dadas por jornalistas americanos à rede NPR, o artigo se refere ao caso Weinstein como um ponto de inflexão na forma como a sociedade trata assédios sexuais. O Nexo reuniu alguns dos principais reflexos da onda de denúncias provocadas pelo caso Weinstein fora da área de cultura.

    Política

    Um dos maiores exemplos do “efeito Weinstein” na política se deu do outro lado do Atlântico, no Reino Unido. O ministro da Defesa britânico, Michael Fallon, deixou o cargo que ocupava há três anos, após ser acusado por uma jornalista de ter se portado de maneira indevida em um encontro ocorrido há 15 anos. Segundo Julia Hartley-Brewer, ele colocou a mão em seus joelhos diversas vezes.

    “A cultura mudou nos últimos anos. Algo que seria aceitável há 10, 15 anos claramente não é mais hoje em dia. O Parlamento agora precisa olhar para si mesmo, e a primeira-ministra deixou claro que esta conduta precisa melhorar”, disse o conservador a jornalistas. A primeira-ministra britânica, Theresa May, ordenou que uma investigação fosse aberta para apurar outras alegações de assédio no Parlamento.

    Nos EUA, o senador democrata Al Franken e o candidato ao Senado pelo partido Republicano Roy Moore foram acusados de assédio. O presidente americano, Donald Trump, defendeu a candidatura de Moore, afirmando que ele nega as acusações. O próprio Trump já foi acusado de assédio por 16 mulheres. Ele alega que as denúncias são “fake news”. O ex-presidente George W.H. Bush, hoje com 93 anos, também foi acusado de tocar mulheres que tiraram fotos com ele. Isso teria ocorrido após ele deixar a presidência. Um porta-voz do ex-presidente pediu desculpas pelo ocorrido, mas lembrou que ele usa cadeira de rodas e isso pode fazer com que, sem intenção, toque partes impróprias de mulheres.

    Ginástica artística

    As denúncias contra Larry Nassar, médico da equipe de ginástica artística dos Estados Unidos, começaram a ser investigadas há algum tempo, mas ganharam força após o caso Weinstein e a campanha #metoo (#eutambém). Logo depois da Olimpíada do Rio, a ginasta Aly Raisman denunciou o médico no contexto de uma investigação do FBI. Após o caso Weinstein, McKayla Maroney, que também estava na equipe vencedora no Rio, se uniu a ela nas acusações. “As pessoas deveriam saber que isso não acontece só em Hollywood. Acontece em toda parte. Onde houver uma posição de poder, parece que há potencial para abuso”, afirmou. A última a denunciar o médico foi Gabby Douglas, primeira ginasta negra a vencer a competição individual de ginástica, em Londres.

    Larry Nassar já foi acusado de abusos no contexto de tratamento médico por 125 mulheres. Ele se declarou culpado em 22 casos de “conduta sexual criminosa”. Entre as vítimas estavam outras ginastas americanas, algumas com menos de 13 anos. As vítimas o acusam de penetração vaginal e anal com os dedos. Nassar já estava preso por confessar que acumulava pornografia infantil. Ele cumprirá pena de pelo menos 25 anos de prisão. 

    Gastronomia

    Após o escândalo Weinstein, uma investigação do jornal Times-Picayune, de Nova Orleans, revelou diversos abusos em restaurantes do chef John Besh, que já escreveu livros e apresentou programas de TV. Mais de 20 mulheres relataram que sofreram assédio sexual trabalhando para o grupo BRG, do qual ele era co-proprietário. Alguns abusos teriam sido cometidos por ele próprio. Besh se afastou após as denúncias.

    “É o início do fim de uma cultura institucionalizada de ogros na indústria de restaurantes”, tuitou o chef Anthony Bourdain, indicando que o problema não se resume aos restaurantes de Besh. Segundo o jornal The Washington Post, a indústria de restaurantes e turismo foi a que mais teve denúncias de assédio sexual em 2015 nos EUA. Foram 12% do total analisado, segundo levantamento feito pelo National Women’s Law Center, com dados da Equal Employment Opportunity Commission. Um estudo feito em 2014 pelo Restaurant Opportunities Center United descobriu que metade das mulheres empregadas nesta indústria já sofreram aproximações sexuais indesejadas, seja pela gerência, por colegas ou clientes.

    O assédio na indústria reflete, segundo especialistas, a baixa valorização das mulheres no meio. Grande parte delas depende de gorjetas, o que torna difícil reagir ao assédio de clientes. O assédio também é reflexo de a alta gastronomia ser um mundo predominantemente masculino. Ela surgiu na França com base em um sistema militar, no final do século 19. Dessa forma, as mulheres acabaram relegadas à cozinha doméstica, enquanto o mundo dos restaurantes é dominado por homens, de acordo com Deborah Harris, autora de “Taking the Heat: Women Chefs and Gender Inequality in the Professional Kitchen” (sem tradução no Brasil).

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