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A extração ilegal de cacau na África. E os acordos para combatê-la

Maiores produtores do mundo, Gana e Costa do Marfim prometem acabar com o cultivo em áreas de preservação

     

    No contexto da Convenção sobre Mudança do Clima das Nações Unidas de 2017, a COP 23, realizada entre 6 e 17 de novembro em Bonn, na Alemanha, dois dos maiores produtores mundiais de cacau, Costa do Marfim e Gana, comprometeram-se a estabelecer controle rigoroso sobre a produção nos próximos anos para combater o desmatamento.

    Juntos, os dois países são atualmente responsáveis por mais de dois terços do comércio mundial de amêndoa de cacau.

    O objetivo é eliminar a produção irregular em áreas de preservação, como parques nacionais e florestas. As ações anunciadas para promover o cultivo sustentável do cacau devem partir tanto do Estado quanto de empresas produtoras de chocolate, entre elas as maiores do mercado, como Nestlé e Hershey’s.

    Quais são exatamente as medidas

    Nos planos de ação aprovados por Gana e Costa do Marfim, governos e empresas signatárias se comprometem a cumprir pelo menos oito pontos fundamentais (comuns aos dois países). Abaixo, o Nexo destaca três deles:

    • proibição e prevenção de atividades no setor produtor de cacau que causem ou contribuam para desmatar ou degradar ainda mais as florestas
    • respeito aos direitos dos agricultores que vivem do cacau, identificando e mitigando os impactos sociais e econômicos que podem sofrer
    • promoção efetiva de restauração e preservação a longo prazo de parques nacionais, reservas florestais e santuários para animais selvagens

    Com relação ao monitoramento do progresso, ambos os países anunciam o desenvolvimento de um sistema via satélite para supervisionar o uso da terra e de rastreamento do cacau, entre outras medidas, que devem entrar em vigor até 31 de dezembro de 2018, no caso de Gana, e até 31 de setembro do mesmo ano, no caso da Costa do Marfim.

    O conjunto de práticas anunciado pelos países produtores de cacau é um comprometimento inédito nesse setor. 

    O cultivo do cacau

    O cacaueiro é uma planta tropical – exige clima quente e úmido. De seu fruto extraem-se sementes que, depois de sofrerem fermentação, se transformam em amêndoas ou favas: grãos a partir dos quais o cacau em pó e a manteiga de cacau são produzidos.

    Embora o clima e umidade de uma floresta tropical possam ser considerados “adequados” para o cultivo de cacau, a derrubada de árvores para o plantio é, a médio e longo prazos, insustentável. A sombra de árvores mais altas é necessária para proteger a plantação, sobretudo na estação de seca.

    A devastação nas florestas tropicais

    Uma reportagem publicada em setembro pelo jornal The Guardian chamou atenção para o desmatamento galopante das florestas tropicais do oeste africano, estimulado pela indústria do chocolate.

    De acordo com o Guardian, 70% do cacau no mundo vem da região, de um cinturão que se estende de Serra Leoa a Camarões, e que abarca os dois principais produtores já citados.

    Árvores de florestas e parques nacionais vêm sendo rotineiramente derrubadas para o plantio. Comerciantes locais de cacau vendem as favas ilegais, cultivadas em zonas de preservação, para indústrias como Mars, Nestlé e Mondelez, segundo a investigação do Guardian.

    O chocolate produzido por elas mistura favas ilegais e favas produzidas regularmente, o que significa que “chocolates Ferrero Rocher e barras Milka podem estar manchadas” com o cacau que contribui para a devastação, infere o jornal inglês.

    A Costa do Marfim é o país africano que vem perdendo suas florestas em ritmo mais acelerado. Desde a década de 1960, o país perdeu mais de 80% de sua mata tropical. Conta hoje com pouco mais de 3 milhões de hectares de floresta, menos de 4% do território.

    Além do desmatamento, o trabalho infantil e semi-escravo também é um problema nas lavouras de cacau desses países.

    Possíveis impactos

    sobre os agricultores

    Alguns dos agricultores que vivem do cultivo em áreas protegidas de Gana e Costa do Marfim também habitam essas regiões há décadas. São trabalhadores de baixa renda, que sofrerão impactos sociais e econômicos com a proibição. Somente cerca de 3% do valor de uma barra de chocolate é repassado ao agricultor de cacau.

    Esses trabalhadores deverão ser reassentados e inseridos em novas atividades produtivas que permitam sua sobrevivência. 

    O plano de ação dos dois países prevê apoio a esses agricultores para diversificar suas atividades, desenvolvendo sistemas agroflorestais, integração sustentável entre cultivo agrícola e florestas. O objetivo é, ao mesmo tempo, melhorar a renda das populações dependentes do cultivo de cacau e proteger as florestas.

    sobre o preço

    Caso as medidas adotadas façam a produção de cacau cair, o que é possível, o preço internacional do chocolate tende a subir.

    Cacau no Brasil

    O Brasil já foi o maior produtor de cacau do mundo. Ainda no período colonial, no século 18, as sementes, nativas da região amazônica, foram introduzidas no sul da Bahia. Em meados do século 19, a produção passou a abastecer indústrias de chocolate americanas e europeias. O país ocupou a liderança no cultivo do fruto até a década de 1920.

    Na década de 1990, a desvalorização da tonelada de cacau no mercado internacional e a “vassoura de bruxa”, doença causada por um fungo que devastou as plantações baianas, fizeram a produção cacaueira do Brasil entrar em crise. A oferta africana, e a crescente exploração do recurso em outras partes da floresta amazônica fora do país, desbancou de vez os produtores nacionais.

    Em 2017, a safra temporã de cacau da Bahia, entre maio a setembro, registrou a segunda pior produção da história, devido a um período de seca que afeta as safras da região desde 2015.

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