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A carta contra o machismo e o assédio na indústria musical sueca

Mais de 2 mil profissionais assinaram o documento; país é exportador de sucessos internacionais e referência em igualdade de gênero

     

    “Eu tinha 14 anos quando comecei um grupo de pop/rock com outras três meninas. Quando tínhamos 16, 17, tocamos no que eu lembro ter sido um festival bem grandinho. Prestes a subir no palco, vimos como tinham escrito sobre nós no programa, que não tínhamos visto antes: ‘Elas não são apenas lindas, sabem tocar também. Então segurem seus pintos, garotos”.

    O relato acima é um entre muitos que fazem parte de uma carta contra o machismo e o assédio na indústria musical sueca, lançada em novembro de 2017. Há outros depoimentos bem mais pesados no documento, com ingredientes como estupro e pedofilia. Todos são anônimos.

    Inicialmente, a carta continha 1.993 assinaturas de artistas, produtoras, empresárias, agenciadoras, executivas, entre outras profissões do ramo musical. Em pouco tempo, o número subiu para 2.192.

    A carta lembra que a precariedade e fragilidade de muitas situações de trabalho e contratação deixam mulheres em uma posição vulnerável

    Entre os nomes presentes no abaixo-assinado estão os de cantoras e compositoras como Robyn, Tove Lo, Seinabo Sey, Caroline Hjelt e Aino Jawo, que formam a dupla Icona Pop, que teve sucesso internacional em 2013 com “I love it”.

    De acordo com o mais recente relatório de desigualdade de gênero do Fórum Econômico Mundial, publicado em 2015, a Suécia é o quarto país mais igualitário do mundo.

    Artistas musicais suecos são presença regular em paradas de sucesso internacionais desde a década de 1970, com o grupo ABBA. Entre os nomes que tiveram hits globais estão Ace of Base, Roxette, Cardigans, Avicii e Peter, Bjorn & John. Os produtores e compositores suecos Denniz Pop e Max Martin já assinaram faixas de sucesso para artistas norte-americanos como Britney Spears, Taylor Swift, Katy Perry e Avril Lavigne.

    O que diz a carta

    O texto começa falando dos avanços na igualdade de gênero em uma indústria antes dominada por homens. Lembra que hoje existem mulheres exercendo cargos executivos em gravadoras e sendo reconhecidas em premiações. “Mas, nos bastidores”, afirma a carta, “artistas, musicistas, compositoras, estudantes, funcionárias de gravadoras, estagiárias e outras testemunham ataques, assédio sexual e jargão sexista”.

    O documento aponta o dedo para homens que reproduzem e mantêm a “cultura do silêncio”, “os mesmos homens que sentam em programas de televisão, usando camisetas com aforismos feministas escritos nelas, ou que estabelecem cotas para quantas artistas mulheres deveriam ser agendadas para tocar nos grandes festivais”.

    A mensagem lembra que a precariedade e fragilidade de muitas situações de trabalho e contratação deixam mulheres em uma posição vulnerável, em que se queixar pode custar um emprego ou uma carreira. Prega “tolerância zero” contra violência e exploração sexual.

    Executivos das filiais suecas das três principais gravadoras internacionais, Sony, Universal e Warner, expressaram apoio à carta. “É um lado extremamente sombrio da indústria musical que agora, felizmente, ganha o destaque que deveria”, escreveu no Facebook o diretor-geral da Sony sueca, Mark Dennis.

    A carta vem se somar às manifestações e denúncias contra machismo e assédio institucionalizados em diversas áreas das artes e da cultura. As iniciativas ganharam impulso depois que vieram à tona acusações contra o poderoso executivo do cinema Harvey Weinstein. Em outubro, profissionais do mundo das artes de vários países publicaram uma carta contra o assédio em seu ramo.

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