O que se sabe sobre o objeto que passou por nosso Sistema Solar

Formato alongado do corpo celeste é diferente do que a astronomia está acostumada a observar em cometas e asteroides

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Duas equipes de astrônomos detectaram, em 19 de outubro de 2017, a passagem de um objeto por nosso Sistema Solar com características bastante peculiares.

Batizado de ‘Oumuamua (1I/2017 U1), palavra havaiana que significa mensageiro ou escoteiro, o asteroide tem "pelo menos" 400 metros de comprimento, de acordo com a Nasa, mas há estimativas que falam em 800 metros. O cálculo do diâmetro também varia: relatório do astrônomo David Jewitt, um dos primeiros a avistar o asteroide, descreve uma medida de 110 metros. O formato alongado é pouco comum para os corpos celestes.

Em 14 de outubro, ele passou pelo ponto mais próximo da Terra, o equivalente a 60 vezes a distância entre nosso planeta e a Lua. Depois, seguiu rumo à constelação Pégaso.

O objeto foi visto por um time da Universidade do Havaí, liderado pela astrônoma Karen Meech, e por outro da UCLA (Universidade da Califórnia Los Angeles), encabeçado por Jewitt.

A descoberta deixou a comunidade astrônoma bastante empolgada, por uma série de motivos.

Ele veio de fora do nosso Sistema Solar

O asteroide é considerado “interestelar” por vir de fora de nosso Sistema Solar, que tem como centro o Sol. Os cientistas conseguem saber disso por conta da órbita descrita pelo asteroide, impossível de ser realizada dentro de nossos limites. Sua velocidade é rápida demais para que seja fisgado pela gravidade do Sol. Apesar da rapidez, leva cerca de uma década para o corpo celeste cruzar o Sistema Solar.

Seu movimento é diferente do que a astronomia conhece

 

Se visualizarmos as órbitas dos planetas em torno do Sol em uma perspectiva “horizontal”, o visitante veio “de cima”, ou seja, desenhou uma trajetória perpendicular em relação aos giros do nosso planeta e dos outros presentes no Sistema Solar. A velocidade do objeto é de 25,5 quilômetros por segundo, incomum quando comparada ao que se costuma observar em relação a cometas ou asteroides que transitam no sistema. “É a órbita mais extrema que já vi”, explicou Davide Farnocchia, especialista em trajetória no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), da NASA. “Ele se movimenta com extrema velocidade e em tal trajetória que podemos dizer com confiança que este objeto [estava] indo para fora do Sistema Solar e não deve voltar.”

Já sua composição é mais familiar

Os cientistas acreditam que ‘Oumuamua tem uma composição parecida com os corpos celestes mais conhecidos, como asteroides e cometas, sugerida pela cor vermelho-escura. Para os especialistas, ele seria uma rocha com metais diversos e sem muita água ou gelo. A coloração avermelhada seria o resultado do bombardeamento incessante de raios cósmicos. A constituição do corpo celeste sugere que “ingredientes” que constituem planetas como o nosso podem também ocorrer fora do Sistema Solar.

Ele apresenta moléculas orgânicas

O objeto é bastante escuro, absorvendo cerca de 96% da luz que incide sobre ele. A cor vermelha também aponta para a existência de moléculas orgânicas, baseadas em carbono. Este tipo de molécula é formadora das moléculas biológicas que possibilitam o surgimento da vida. A ciência em geral defende que a vida na Terra se originou com a chegada de moléculas orgânicas que chegaram no planeta, graças a colisões de cometas e asteróides. Ou seja, ‘Oumuamua aponta para esta possibilidade.

A visão de um objeto assim é inédita

Calcula-se que cerca de três objetos celestes entram em nosso Sistema Solar e três saem, a cada dia (cerca de mil por ano em cada direção). Mas eles nunca tinham sido avistados antes. “Esperamos por este dia há décadas”, declarou um pesquisador do JPL da NASA em pronunciamento à imprensa. “Faz tempo que se teoriza sobre a existência de tais objetos — asteroides ou cometas se movimentando entre as estrelas e ocasionalmente passando por nós —, mas esta é a primeira detecção. Até agora, tudo indica que este é provavelmente um objeto interestelar, mas mais dados ajudariam a confirmar isso.”

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto mencionou algumas vezes o termo "galáxia", no lugar de "Sistema Solar". Havia também menção apenas a uma estimativa de comprimento e diâmetro, quando há mais de uma publicada. O texto foi corrigido às 21h26 de 21 de novembro de 2017 e às 12h53 de 22 de novembro de 2017.

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