Foto: Matthew Becker/WFTDA - Divulgação

Esporte surgiu nos Estados Unidos na década de 1930
 

Em uma pista oval, dois times se enfrentam: cinco mulheres de cada lado vestem patins, cotoveleira, joelheira, protetor bucal e capacete. O objetivo é fazer com que uma das jogadoras ultrapasse as integrantes do time adversário e pontue. Esse é o roller derby, esporte que surgiu nos Estados Unidos na década de 1930, e que atrai cada vez mais praticantes no Brasil.

Em seus primórdios, o esporte era bem diferente da versão que existe hoje, ou até do hóquei em patins, que usa um disco. Naquele período, funcionava como uma corrida sobre patins. Em 1935, o roller derby adquiriu o formato que tem hoje: transformou-se em um esporte de contato.

A maior parte das ligas que existem no Brasil e no mundo são femininas e aceitam todas as mulheres que se identificam com o gênero feminino, sendo elas binárias ou não. “O roller derby não é só voltado para mulheres, ele foi criado por mulheres”, disse a jogadora da seleção brasileira Julia Bonsai, de 36 anos, em entrevista ao Nexo.

Por ser mais comum entre as mulheres, as ligas masculinas são chamadas de Men’s Roller Derby.

Diferentemente de outros esportes, que têm um biótipo corporal pré-estabelecido, no roller derby o que vale é saber tirar vantagem do próprio corpo no jogo, segundo Julia. “Você consegue ver mulheres baixas e altas, gordas e magras jogando”, diz.

No jogo, duas posições coexistem: as jammers (que funcionam como atacantes) e as blockers (bloqueadoras). A jammer tem uma marcação especial no capacete: duas estrelas. As outras quatro meninas são bloqueadoras e responsáveis por travar a jammer do outro time e não deixá-la passar.

O roller derby é um esporte que demanda muita estratégia. As bloqueadoras de cada time devem trabalhar juntas para não permitir a passagem da jammer do time adversário, ao mesmo tempo em que devem conseguir encontrar espaço para que a jammer de sua equipe ultrapasse as outras jogadoras. O objetivo é fazer com que a jammer ultrapasse o maior número possível de jogadoras do time adversário. Cada vez que a jammer passa uma adversária, ganha um ponto.

As partidas duram 30 minutos e são chamadas de “bouts”. Elas também são divididas em tempos de dois minutos, com intervalo de 30 segundos de descanso.

Katherine Pavloski, 29 anos, é árbitra e uma das técnicas da seleção brasileira desde 2016, e joga o esporte desde 2014. Ela explica que o roller derby é um esporte que não tolera atitudes anti-desportivas, como xingamentos e agressões.

Outra regra importante é que todas as jogadoras devem usar o equipamento de proteção. “O jogo é basicamente de contato, onde as jogadoras só podem empurrar umas às outras com a parte legal do corpo.”

Foto: Julia Andrade

Ladies of Helltown, fundada em 2009, é a primeira liga brasileira
 

Na capital de São Paulo, há duas equipes consolidadas: Ladies of Helltown e Gray City Rebels. Ladies of Helltown, a primeira liga brasileira, foi criada por Juliana Bruzzi, produtora de cinema e conhecida entre as jogadoras por Beki Band-Aid. Jéssica Marques, 29 anos, é uma das organizadoras da Ladies of Helltown e explica que a liga começou com poucas meninas treinando, em 2009. Hoje, o número já passa de 70.

A liga funciona como um time e também é organizada sem patrocínio. “Nós fazemos eventos, rifas, festas e dependemos da mensalidade das jogadoras para conseguir organizar os campeonatos e sobreviver”, disse, em entrevista ao Nexo.

A idade das jogadoras varia. Jéssica Marques conta que as mulheres que jogam na liga têm entre 18 e 40 anos. A maioria das jogadoras se organiza e conhece o esporte pelo Facebook.

A curitibana Roxane Veloso, de 30 anos, mora em Boston, nos EUA, e joga há três anos na posição de bloqueadora no time Boston Massacre. Ela conta que o roller derby pode ser mais perigoso para praticantes novatos: “Quebrei o nariz da primeira vez em que joguei, mas a maioria das pessoas se machuca só quando está começando e ainda não tem tanto controle do corpo”.

Roxane, que já jogou pela seleção brasileira em 2014, conta que a dificuldade em conseguir patrocínio está relacionada à confusão das pessoas em entender um esporte que é conduzido totalmente por mulheres. “As pessoas têm dificuldade em levar a sério um esporte que tem mulheres jogando, dão menos valor e acham que é um esporte de mentirinha.”

Ela também diz que o esporte não responde às expectativas de quem assiste e por isso pode causar estranhamento:

“Sempre falam para nós mulheres sermos delicadas e educadas. Esse esporte foi a melhor coisa que me mostraram. Eu me sinto forte e empoderada jogando”

Roxane Veloso

Bloqueadora do Boston Massacre, em entrevista ao Nexo

Foto: Sean Hale/Facebook/ Reprodução

Seleção brasileira de Roller Derby durante a Copa do mundo de 2014
 

A seleção brasileira de roller derby

Julia Bonsai começou a se interessar pelo roller derby ao assistir o filme “Garota Fantástica”, de 2009. “O filme mostra a modalidade de forma muito fantasiosa, mas virou uma referência para as pessoas do meio.”

Como mora em São Paulo, Julia buscou alguma liga para jogar na região. Treinou por quatro anos com as Ladies of Helltown até que, em 2017, passou a jogar na outra liga paulistana, as Gray City Rebels. Há dois anos e meio também integra a seleção brasileira.

Além dos três treinos por semana com duração de duas horas cada, Julia trabalha como professora de inglês. Sem apoio externo ou patrocínio, muitas das jogadoras se desdobram para conseguir conciliar o treino com a profissão. “Não gosto de falar que não é profissional, porque a grande maioria das meninas trata o esporte como prioridade”, disse ao Nexo.

A seleção brasileira se encontra uma vez por mês para treinar no Parque Ibirapuera, em São Paulo. São jogadoras distribuídas por São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Paraná. Atualmente a seleção brasileira produz uma campanha para conseguir verba para ir até a Copa de Roller Derby, que acontecerá na Inglaterra em 2018.