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Como funciona a rede social que quer organizar o debate na internet

Kialo permite que usuários postem argumentos pró e contra em uma discussão

     

    Comer carne é errado? Países ricos têm a obrigação moral de aceitar refugiados? Deus existe? Discutir essas questões pode ser complicado na internet, com uma infinidade de argumentos se perdendo em listas de comentários, a presença de trolls tumultuando a discussão e as famosas “bolhas”, que fazem com que você interaja com pessoas que pensam parecido em plataformas como Facebook e Twitter. Para quem gostaria de usar as redes sociais para debates mais profundos sobre questões importantes, a rede social Kialo promete ser uma boa alternativa.

    O Kialo permite que um usuário crie novas discussões ou participe de discussões postadas por outras pessoas. Para cada tese postada, há um pequeno resumo apresentando o debate. Em seguida, os participantes sugerem argumentos prós e contras. Cada um desses argumentos também pode ser debatido em uma nova rodada de discussões. O debate aparece em formato semelhante a uma árvore genealógica, o que ajuda a visualizar os argumentos de forma mais compreensível. Os usuários podem avaliar os argumentos – os mais bem avaliados aparecem no topo da página de comentários. Para evitar a presença de trolls, é possível convidar pessoas específicas para participar de uma discussão. Mas, se o usuário quer que o debate fique público, aberto à participação de todos, ele pode fazer essa opção.

    Discussões racionais

    O Kialo se apresenta como uma plataforma de debate baseada na razão. O objetivo da rede, segundo seu site, é fazer as pessoas participarem de discussões profundas, entender pontos de vista distintos e ajudar a tomar decisões de forma colaborativa. Seu fundador, Errikos Pitsos, afirmou em palestra na universidade Harvard que a plataforma “basicamente elimina as emoções e eleva a razão, de uma forma estruturada”. 

     

    “Nossa missão é tornar o mundo um pouco mais pensativo, empoderando a razão”

    Errikos Pitsos

    CEO do Kialo

    Ao entrar na rede, é possível ver os debates por popularidade. Cerca de 1.800 argumentos, por exemplo, já foram postados na discussão sobre a proposta de implementar uma renda básica universal, um pagamento mensal a todos os moradores de um país, independentemente de sua renda ou condição no mercado de trabalho. O argumento favorável mais elogiado é o que sustenta que a renda básica seria mais eficiente que programas sociais tradicionais. Clicando neste argumento, é possível explorar sub-argumentos que o sustentam: a renda básica, por exemplo, reduziria o estigma associado a benefícios convencionais, e envolveria menos burocracia e custos administrativos. Já os que argumentam contra a renda básica afirmam que ela geraria mais inflação.

    Na discussão sobre a carne, o argumento de que uma dieta carnívora prejudica o meio ambiente é contrastado, por exemplo, com alegações sobre o prazer proporcionado pela ingestão de proteína. O debate sobre a existência de Deus contrasta supostas evidências morais e históricas com outras que provariam sua inexistência, como a presença do mal. Sobre refugiados, alguns usuários da rede acreditam que recebê-los traria benefícios para países desenvolvidos em longo prazo, enquanto outros dizem que isso encorajaria pessoas a se arriscar em jornadas perigosas na tentativa de chegar a esses países.

    A rede foi recebida com ânimo por alguns pesquisadores devido a seu potencial de uso em sala de aula e em pesquisa acadêmica. Em um artigo, pesquisadores das universidades americanas de Illinois, Princeton e Harvard afirmam que a rede tem potencial para esclarecer o caminho que uma pessoa faz até chegar a uma conclusão, em vez de saber apenas qual foi aquela conclusão, ou ainda o quanto uma pessoa conhece os argumentos contrários aos seus em determinado debate. No artigo, os autores descrevem a rede como um novo laboratório para pesquisa e ensino. “Quando o objetivo [de uma plataforma] é o conteúdo e a qualidade da deliberação, em oposição a chamar atenção, conseguir pageviews ou reforçar ideias pré-concebidas, suspeitamos que as discussões sejam muito mais profundas e significativas”, afirmam.

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