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Quem é a esgrimista que inspirou a primeira Barbie com véu islâmico

Ibtihaj Muhammad foi a primeira americana a disputar uma Olimpíada usando hijab

     

    Quando criança, ela costumava usar lenços de papel para fazer hijabs para suas bonecas. Agora, a esgrimista americana Ibtihaj Muhammad serviu de inspiração para a primeira Barbie a usar o véu islâmico. “Estou orgulhosa em saber que garotas agora podem brincar com uma Barbie que escolheu usar hijab. É um sonho de criança que virou realidade”, afirmou em seu perfil no Twitter.

    A boneca faz parte da coleção ‘Sheroes’, que retrata mulheres reais e inspiradoras. Não é a primeira vez que a empresa investe em diversidade: no ano passado, já havia lançado bonecas com tons de pele, estilos de corpos, cabelos e cor dos olhos diferentes.

    Muhammad, de 31 anos, foi a primeira atleta americana a disputar uma Olimpíada usando o hijab. Nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, ela ganhou uma medalha de bronze por equipes na categoria sabre. Muhammad nasceu em Maplewood, no estado americano de Nova Jersey, e é atleta desde os 13 anos. Muçulmana, escolheu a esgrima, em parte, por ser um esporte em que poderia estar toda vestida. No Rio, ela usou o véu por baixo do uniforme – nas imagens divulgadas pela Mattel, a nova Barbie usa o véu e segura a máscara de esgrima nas mãos. A boneca também traz o sabre e o tênis usados por Muhammad.

    Atualmente, a atleta está em 36º lugar no ranking mundial da Federação Internacional de Esgrima, na categoria sabre. O sabre é um tipo de arma um pouco mais flexível que o florete, a categoria de esgrima que faz mais sucesso no Brasil. Quando competiu no Rio, sua primeira Olimpíada, Muhammad estava em 8º e não era muito conhecida. Ela estreou na disputa individual com vitória sobre a ucraniana Olena Kravatska por 15 a 13, mas foi eliminada nas oitavas-de-final pela francesa Cécilia Berder por 15 a 12.

    Mesmo perdendo, foi aguardada por dezenas de jornalistas na saída da disputa. “Como você pode não ver que os muçulmanos são como qualquer outro grupo? Somos conservadores e somos liberais. Há mulheres que cobrem (a cabeça) e mulheres que não o fazem. Há muçulmanos afro-americanos, há muçulmanos brancos, há muçulmanos árabes. Há tantos tipos diferentes de muçulmanos. Essas são as coisas que eu quero que as pessoas se conscientizem”, disse a jornalistas.  Depois disso, conquistou a medalha de bronze por equipes.

    “Meu papel é mostrar também todos esses equívocos que as pessoas cometem sobre quem é a mulher muçulmana, como pensar que alguém está me forçando a usar este hijab, que eu sou oprimida, que não tenho uma voz. Quem me conhece sabe que sou muito verbal e muito confortável para me expressar”

    Ibtihaj Muhammad

    Esgrimista

    Durante os Jogos, Muhammad transmitiu uma mensagem de tolerância não apenas ao islamismo. Negra e mulher, ela disse diversas vezes que as pessoas precisam ver que uma muçulmana podia ser atleta, que uma negra podia lutar esgrima e que uma mulher não precisa ficar presa em casa. “Espero que, por meio da minha experiência nos Jogos, ganhando uma medalha, eu possa desfazer estereótipos sobre muçulmanos, negros e até mulheres”, afirmou, segundo o jornal britânico The Guardian.

    Quando se classificou para a Olimpíada do Rio, a atleta foi citada nominalmente pelo então presidente americano Barack Obama em sua primeira visita a uma mesquita nos EUA. Pouco depois, em entrevista à revista Time, ela criticou o então candidato à Presidência Donald Trump, que durante a campanha já havia feito diversos comentários controversos a respeito do islamismo. “Quando incitam discurso de ódio e esse tipo de retórica, as pessoas não pensam sobre as repercussões disso e em como isso afeta muçulmanos. Especialmente as mulheres muçulmanas, que vestem sua religião todos os dias”, afirmou. Atletas americanos não costumam falar de política, já que pequenas controvérsias podem irritar torcedores e patrocinadores.

    Em nota, a vice-presidente de marketing global da Barbie, Sejal Shah Miller, afirmou que a boneca busca refletir uma preocupação da empresa com representatividade. “Ibtihaj é uma inspiração para inúmeras meninas que nunca se viram representadas e, honrando sua história, esperamos que essa boneca lhes diga que elas podem ser e fazer qualquer coisa.”

    Diversidade

    Há alguns anos, a Barbie tem sido alvo de críticas por reproduzir um padrão de beleza inalcançável. A boneca, loira e magra, é o maior sucesso da Mattel e um dos brinquedos mais vendidos no mundo. Porém, suas vendas vêm caindo. Sua maior concorrente é a boneca Elsa, do desenho animado Frozen, filme que tenta empoderar mulheres mostrando o amor de duas irmãs.

    No ano passado, a empresa anunciou o lançamento de uma linha das bonecas com sete tons de pele, quatro tipos de corpos, 22 cores de olhos e 24 estilos de cabelo distintos. Mesmo assim, a Barbie mais “gordinha” seria mais magra do que a média das mulheres britânicas com idades entre 16 e 24 anos, de acordo com estimativa da rede BBC. Antes, a Mattel já havia lançado uma Barbie Empreendedora e a linha Fashionista, com bonecas loiras, morenas, negras e asiáticas. O Ken também passou por mudanças: ao boneco de topete loiro e olhos azuis se somaram 15 versões, com tons de pele e cabelo diferentes.

    A nova linha ‘Sheroes’ (um neologismo em inglês que mistura o pronome she, ela, com heroes, heróis) também já homenageou a atleta de ginástica artística Gabby Douglas, primeira negra a ganhar uma medalha de ouro no individual geral em uma Olimpíada, e a bailarina Misty Copeland, primeira bailarina negra do American Ballet Theatre, entre outras. Segundo a Mattel, para ser considerada para virar Barbie, uma mulher precisa ter rompido barreiras, inspirado garotas e ter brincado com as bonecas na infância. Ainda não há previsão para a venda da Barbie com hijab no Brasil.

     

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