Como o Twitter reproduz desigualdades de gênero e raça do mundo offline

Pesquisa mostra que homens brancos são mais influentes em rede social

     

    As redes sociais são, muitas vezes, consideradas um espaço democrático que dá voz a diversos usuários. Uma pesquisa recém-divulgada mostra, porém, que elas reproduzem desigualdades de gênero e raça presentes no mundo offline.

    Pesquisadores da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e da Universidade de Patras, na Grécia, demonstraram que, nos Estados Unidos, homens brancos são mais seguidos e mais influentes no Twitter do que mulheres, principalmente as negras e asiáticas. O artigo “White, Man, an Highly Followed: Gender and Race Inequalities in Twitter” (“Branco, homem e muito seguido: desigualdades de gênero e raça no Twitter”, em tradução livre), dos pesquisadores Johnnatan Messias, Fabricio Benevenuto (ambos da UFMG) e Pantelis Vikatos (da Universidade de Patras), foi apresentado na conferência Web Intelligence 2017, em agosto, na Alemanha.

    O estudo analisa dois indicadores de influência no Twitter: quantidade de seguidores e presença em listas da rede. No Twitter, os usuários podem criar listas e incluir pessoas que falam sobre tópicos que interessam a eles. Muitos criam listas com pessoas que consideram especialistas nestes assuntos e, por isso, estar em uma lista significa ter influência.

    Os resultados mostram que, apesar de haver mais mulheres que homens na amostra (53% mulheres e 47% homens), homens estão sobre-representados entre o 1% de usuários mais seguidos. Neste grupo dos top 1, 57% são homens e 42% são mulheres. O mesmo desequilíbrio aparece para o resto dos usuários da amostra, e se repete com os top 1 dos usuários incluídos em listas. Ao analisar a etnia do usuário, os pesquisadores chegaram a conclusões semelhantes. Entre os mais seguidos e incluídos em lista, mais de 70% eram brancos.

    O estudo também analisou como desigualdades de gênero e raça se somam. Eles descobriram que, entre os usuários mais seguidos, 42% são homens brancos, apesar de eles representarem 32% da amostra. As usuárias menos influentes e mais sub-representados são mulheres negras e asiáticas.

    O estudo também faz uma análise de interações entre usuários de diferentes grupos demográficos. Enquanto mulheres tendem a ter, em sua lista de pessoas seguidas, 50% de homens e 50% de mulheres, homens seguem mais homens (56%). A desigualdade é maior quando se trata de raça: brancos tendem a seguir 79% de brancos, enquanto negros seguem 39% de negros.

    “Identificar desigualdades e assimetrias demográficas no mundo on-line é crucial para o desenvolvimento de mecanismos que possam promover igualdade e diversidade nesses sistemas”

    Trecho do artigo

    Como o estudo foi feito

    O estudo usou um mecanismo de reconhecimento facial para analisar as fotos de perfil dos usuários e identificar seu gênero (homem ou mulher) e etnia (branco, negro ou asiático). Outros trabalhos feitos anteriormente usavam o nome do usuário mas, segundo os pesquisadores, essa estratégia pode ser falha, porque muitos não utilizam seus nomes reais. Segundo o estudo, o programa usado para fazer a identificação facial, Face++, tem uma precisão de aproximadamente 95% ao dizer o gênero de um usuário, e de 86% para raça.

    Os pesquisadores escolheram 6 milhões de usuários, todos americanos, de forma aleatória. Após eliminar usuários sem fotos, aqueles em que o rosto não era visível nas fotos e em situações semelhantes, acabaram com uma amostra de mil usuários de cada grupo demográfico analisado (homens e mulheres brancos, negros e asiáticos). Eles também analisaram a raça e gênero dos seguidores/pessoas seguidas por estes usuários.

    Outros estudos já haviam identificado assimetrias em outras redes sociais e aplicativos. Pesquisadores mostraram diferenças na forma como mulheres são retratadas na Wikipedia, que negros têm mais dificuldades em alugar apartamentos no AirBnb, e que alguns motoristas do Uber discriminam os passageiros devido a sua etnia.ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto apresentava uma inversão de termos, no trecho sobre a proporção entre mulheres e homens. A frase dizia que havia mais homens que mulheres na amostra. Na verdade, há mais mullheres que homens, como mostramos no trecho seguinte. As porcentagens estão corretas. A informação foi corrigida às 11h42 de 17 de novembro de 2017. 

     

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