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Como a luta da Vila Autódromo virou peça do Museu Histórico Nacional

Pedaços de alvenaria e relógio de medição de energia integram acervo; exposição irá retratar violação ao direito de moradia em nome da modernidade

     

    Em 2016, a comunidade da Vila Autódromo virou símbolo de resistência quando as famílias que viviam no local foram retiradas da área nos preparativos para os Jogos Olímpicos do Rio. A comunidade, que existia desde os anos 1960, tinha cerca de 600 famílias e ficava perto do Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, área nobre da cidade. As casas foram demolidas para dar lugar às obras de infraestrutura da Vila Olímpica. Apenas 20 famílias ficaram na comunidade, em casas reconstruídas.

    Agora, a luta dos moradores e o que restou da própria comunidade integram o acervo do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. O museu, um dos mais importantes do país, planeja uma exposição no primeiro semestre de 2018. O objetivo é mostrar o processo de remoção representando a violação ao direito à moradia em nome de um suposto progresso, de acordo com Aline Montenegro Magalhães, pesquisadora do museu, em entrevista ao Nexo.

    Os objetos foram recolhidos pelos próprios moradores da comunidade, que se reuniram para montar o Museu das Remoções, na própria Vila Autódromo. Parte das peças foi cedida ao Museu Histórico Nacional, para compartilhar a memória da resistência.

    Fazem parte do acervo, por exemplo, um pedaço de alvenaria da casa do Francisco, porteiro que se orgulhava de ter construído a própria casa; o basculante da casa de Maria da Penha Macena, líder comunitária que esteve à frente da luta contra a remoção; e a conta e o relógio de luz da casa da dona Denise, escolhidos, segundo o relatório do projeto, por ser antigo e “definir um tempo”, ser um registro “da época em que foi feita a remoção”. Outra peça encontrada pelos moradores é a mesa de jogos que ficava no meio da pracinha da comunidade. Esta deve ser levada ao museu quando for superado um problema técnico: a peça é de concreto e, por ser muito pesada, ainda não pôde ser transportada. 

     

     

     

    As peças da Vila Autódromo farão complemento aos vestígios do Morro do Castelo, primeiro núcleo urbano do Rio, derrubado em 1921, nos preparativos para a exposição comemorativa do centenário da independência. O prefeito do Rio à época, Carlos Sampaio, alegava que o local, onde havia casarões e cortiços, representava um risco à saúde pública. As sobras da remoção do morro foram usadas para aterrar a área do Aterro do Flamengo. “A Vila Autódromo foi removida por causa das Olimpíadas, e o Morro do Castelo, para esta exposição. Sempre há uma vitrine, uma tentativa de expor a cidade, que viola direitos dos cidadãos”, afirma Aline ao Nexo.  

    Do Morro do Castelo, serão expostos azulejos do convento jesuíta que ficava no local, parte da fachada da igreja e vestígios do forte que ficava no local.

    A história da Vila Autódromo

    As desapropriações na Vila Autódromo para a Olimpíada tiveram início em 2014. O local, porém, já sofria com ameaças desde a década de 1990. Alegavam-se razões ambientais e paisagísticas e, em 2007, os Jogos Panamericanos, sediados no Rio, somaram-se à lista de motivos para remover a comunidade.

    No caso mais recente, em 2014, urbanistas se envolveram na luta ao lado dos moradores e propuseram um plano urbanístico que foi elogiado internacionalmente e não envolvia a retirada dos moradores, nem impedia a construção do Parque Olímpico. A gestão do ex-prefeito peemedebista Eduardo Paes (2009-2016), porém, optou por outro plano, mais caro, que exigia a retirada da comunidade. À época, moradores e urbanistas denunciaram uma possível motivação higienista na retirada da comunidade, o que a prefeitura negou.

    Parte dos moradores desalojados alegou que sofreu pressão da prefeitura, que dizia que, se não aceitassem acordo, perderiam as casas mesmo assim e não receberiam indenizações. Há ainda discrepância em relação ao valor das indenizações: dados obtidos pela Agência Pública mostram que valores variam entre R$ 18,2 mil e R$ 3,4 milhões. Além disso, moradores afirmam que foram reassentados em áreas periféricas e distantes de onde moravam.

    Entre 2009 e 2013, mais de 65 mil pessoas foram desalojadas de suas casas pela Prefeitura do Rio de Janeiro, como resultado de obras de infraestrutura urbana ou por morarem em zonas de risco. De acordo com a prefeitura, essas pessoas foram reassentadas e indenizadas.

     

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