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O desaparecimento das abelhas e as medidas tomadas para reverter o quadro

Reino Unido passa a apoiar decisão da União Europeia em banir pesticidas que podem prejudicar saúde de insetos polinizadores

 

Na quinta-feira, o jornal The Guardian publicou entrevista com o secretário de meio-ambiente do Reino Unido, Michael Gove, confirmando que os britânicos apoiarão uma iniciativa da União Europeia de banir totalmente os pesticidas que também prejudicam insetos — entre eles, os neonicotinóides. A medida vinha sendo cogitada há alguns anos e, em 2013, a União Europeia já havia aprovado um banimento de dois anos a esse tipo de pesticida — a Comissão Europeia, na época, não chegou a um consenso sobre o banimento completo.

Uma das principais espécies polinizadoras da natureza, as abelhas vivem um declínio populacional que preocupa autoridades e comunidade científica em todo o mundo, que se mobiliza para identificar os fatores envolvidos no desaparecimento dessas populações. Europa e EUA são as regiões mais afetadas.

A medição é baseada na quantidade de colmeias que sobrevivem à passagem dos anos. Os apicultores americanos convivem com uma perda superior a 30% do total de colmeias desde 2010, com uma única exceção em 2011. Entre 2012 e 2013, mais de 45% das colônias de Apis mellifera foram perdidas nos EUA.

3,5 milhões

é a queda no número de colmeias produtoras de mel nos EUA entre 1950 e 2007, segundo a ONU: mais da metade do total

Na Europa, a situação não é mais confortável. Na Alemanha, por exemplo, 75% de todos os insetos — não só polinizadores — já desapareceram. Uma vez que eles se espalham por áreas extensas, as causas que afetam um país possivelmente são as mesmas que afetam todo o continente.

Um estudo publicado na revista americana Science mostrou que 75% de todo o mel produzido no mundo está contaminado com pesticidas. A conclusão é que as abelhas estão se infectando com os coquetéis químicos usados para matar pestes em plantações, mas que também são prejudiciais para sua saúde, e que as fazem perder seu senso de direção, um fenômeno conhecido como "distúrbio do colapso das colônias".

Ainda segundo o estudo, 57% de todas as amostras de mel da América do Sul apresentaram algum nível de concentração de neonicotinóides — inseticidas mais usados no mundo em plantações e que estão no centro do debate das políticas de proteção às abelhas na Europa.

do mercado mundial de inseticidas é dominado por neonicotinóides e fipronil

Para o coordenador do estudo, professor Edward Mitchell, da Universidade de Neuchâtel, na Suíça, os resultados foram surpreendentes, “uma vez que nossa cobertura incluiu várias áreas remotas, incluindo ilhas oceânicas”, disse ao Guardian.

71%

das culturas agrícolas que respondem por 90% da alimentação mundial dependem da polinização das abelhas, segundo as Nações Unidas

A contaminação e morte de abelhas, portanto, não representa apenas o declínio na produção mundial de mel, mas também a incapacidade de algumas das principais fontes agrícolas de alimento se reproduzirem — tomate, café, maçã e laranja são alguns exemplos.

A ausência de polinizadores é também um problema econômico. No Reino Unido, agricultores que plantam maçãs do tipo Gala gastam cerca de R$ 24,5 milhões anualmente para fazer o trabalho que deixou de ser feito por insetos polinizadores.

O que está sendo feito para preservar as abelhas

 

O que sempre travou uma decisão política mais enfática contra os neonicotinóides é a ausência de um estudo definitivo que comprove uma relação direta entre o pesticida e a morte das abelhas e outros insetos. Mas, nesse caso, a constatação de que a Alemanha perdeu três quartos de todos os seus insetos levou os britânicos a mudarem de posição.

A ideia, agora, é proibir como forma de prevenção. “A questão importante é se o uso de neonicotinóides resulta em efeitos nocivos a populações de abelhas e de outros polinizadores como um todo. As evidências disponíveis justificam a tomada de novas medidas para restringir o uso” desse tipo de pesticida, disse ao Guardian o professor britânico Ian Boyd, conselheiro do governo local.

“Ninguém que investiga o problema está sugerindo que os neonicotinóides são a única causa do declínio das abelhas. Apicultores e entomologistas dizem que a causa [...] é provavelmente uma combinação de fatores”

Elizabeth Grossman

Jornalista, em publicação da Yale School of Forestry & Environmental Studies

Como proteger plantações sem o pesticida

 

Nos últimos 50 anos, a população mundial mais do que dobrou, enquanto a terra utilizada para a produção de alimentos cresceu 10%. Essa falta de espaço é um incentivo ao desenvolvimento de pesquisas e tecnologias que maximizem a produtividade da terra.

Os pesticidas são um desses fatores tidos como essenciais para a garantia da segurança alimentar mundial. Mas, nos últimos anos, a comunidade científica e a classe política mundial passaram a reavaliar a importância desses químicos, dado o seu impacto na saúde humana e no meio ambiente.

Em um documento de janeiro, Hilal Elver, relator especial das Nações Unidas para o direito à comida, ressaltou a necessidade de se repensar o uso indiscriminado de pesticidas nas plantações.

Ele reconhece que esses produtos ajudaram na ampliação da produção agrícola, “mas isso tem um preço para a saúde humana e o meio ambiente. Igualmente, o crescimento na produção de alimentos não obteve sucesso em eliminar a fome no mundo. O endosso a pesticidas nocivos é uma solução de curto prazo, que mina os direitos à comida adequada e à saúde para as gerações atuais e futuras”, escreveu Elver.

O relator também ressaltou que o uso desses pesticidas é “desnecessário em alguns casos” e que a agroecologia é uma saída possível para manter a produção alimentar em níveis satisfatórios, ao “substituir químicos pela biologia”.

Da mesma forma, a organização SOS-Bees, ligada ao Greenpeace, ressalta a “urgência em parar a agricultura industrial químico-intensiva e dar rumo à agricultura ecológica”.

“A asserção promovida pela indústria agroquímica de que pesticidas são necessários para atingir a segurança alimentar não é só imprecisa, mas também perigosamente enganosa”

Hilal Elver

Relator especial das Nações Unidas

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