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Como um evento tenta restabelecer pontes no debate político

Virada reúne jovens para discutir tema em sete cidades. Contexto dos protestos de junho de 2013 influenciou sua criação

     

    Em meio ao contexto de forte polarização que paira sobre o Brasil, movimentos da sociedade civil estão tentando buscar alguns pontos de convergência, a fim de estabelecer uma agenda mínima no debate político.

    Durante dois dias, grupos que apoiam pautas opostas dividirão o mesmo espaço na chamada Virada Política, uma iniciativa que vem desde 2014, mas que ganha novos ares com o recrudescimento da crise.

    Movimentos como o Vem Pra Rua, que organizou protestos pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016 e defende políticas ligadas a um espectro político mais ligado à direita, vão dividir espaço com integrantes de outras iniciativas como a Bancada Ativista e #MeRepresenta, associadas mais à esquerda.

    O que há na edição de 2017

    A Virada Política está marcada para os dias 11 e 12 de novembro em São Paulo. Além da capital paulista, o evento ocorrerá, com programação específica, em outras seis cidades: Santos, Recife, Rio de Janeiro, São José dos Campos, Salvador e Brasília.

    Na edição de São Paulo serão cerca de 70 atividades, com 60 instituições, entre mesas de discussão, aulas e oficinas.

    Os temas tratados são variados, indo desde o atual cenário de polarização no Brasil, ativismo digital, desigualdade, papel da internet na política e participação da sociedade até o debate sobre política de drogas.

    A ideia da Virada Política, segundo seus organizadores, é promover debate com respeito à pluralidade de ideias. Para isso, o grupo tenta afastar a agressividade do discurso político e incorporar o diálogo como forma de discutir inovações que melhorem a administração pública.

    Por ter um olhar direcionado para a atuação da sociedade na política, alguns temas que marcaram o debate público e o Congresso desde 2014 não serão abordados, tais como financiamento de campanhas eleitorais, privatizações, atuação de atores no Legislativo e Judiciário.

    A participação na Virada Política é gratuita. As atividades de sábado (11) acontecerão na Câmara Municipal de São Paulo e, no domingo (12), no bairro de Pinheiros.

    Organização e objetivos

    O coletivo Virada Política, que organiza o evento de mesmo nome uma vez por ano, é uma iniciativa da sociedade civil, sem vinculação formal com nenhum partido. O movimento surgiu como uma forma de estimular a participação da sociedade na política.

    “A política é importante demais para ser deixada nas mãos de políticos”

    Organizadores da Virada Política, em vídeo de divulgação do evento

    Nas palavras dos organizadores da Virada, o objetivo é incidir na política de fora para dentro do sistema. Uma das bandeiras levantadas, repetida constantemente em seus materiais, é a valorização do diálogo, o que o torna um “oásis” no “árido deserto” que os ambientes de debate político se tornaram.

    A despeito de opiniões serem divergentes, o movimento prega o respeito às diferenças e aposta nas reuniões anuais como método de construção de ideias.

    “Queremos encontrar uma via de escape construtiva, e não destrutiva da política. Estamos vendo um ponto tal de impasse que ou se quebra tudo, ou se constrói junto, e é nessa última via que acreditamos”

    Pedro Kelson

    Organizador do evento Virada Política, em entrevista em 2015

    Outro membro do grupo, Rafael Maretti, acredita que um dos papeis da Virada Política é estimular ações da sociedade sobre a política. Para isso, é importante mostrar que há grupos interessados nesse campo, e o evento é o encontro desses movimentos.

    Financiamento e popularidade

    A Virada Política não possui fontes fixas de financiamento. Para bancar o evento, os organizadores fazem uma vaquinha virtual, por meio da qual os doadores recebem brindes.

    A popularidade do grupo se reflete no aumento das doações. Em 2015, ano da primeira vaquinha virtual, o grupo arrecadou R$ 10 mil para financiar o evento. Já em 2017 o grupo conseguiu R$ 27 mil para financiar a infraestrutura. Todas as doações são de pessoas físicas.

    O aumento das doações é apenas um dos indicadores de que o evento está se tornando cada vez mais popular. O número de participantes passou de 300 pessoas na primeira edição, em 2014, para 3.000 em 2016.

    Espaço político na crise

    A Virada Política nasceu em meio à onda de movimentos da sociedade civil que encontrou espaço para debater e atuar na política nacional.

    Com a baixa popularidade e alta desconfiança sobre partidos e políticos tradicionais, movimentos que se apresentam como defensores de ideias novas ganharam a simpatia da população, sobretudo de jovens.

    Parte dos grupos que surgiram desde o início da crise política manteve a linha apartidária e alega não ter pretensões eleitorais.

    O objetivo desses movimentos é, por meio da organização e vocalização de demandas da sociedade, influenciar adoção de políticas que aumentem a transparência e a representatividade, por exemplo.

    Grupos que podem lançar candidatos

    Outros grupos da sociedade civil, como o MBL, Vem Pra Rua e Agora! trabalham com a possibilidade de lançarem candidatos nas eleições de 2018.

    Em setembro, uma nova iniciativa de investimento em candidaturas novas foi lançada, o Renova Br, que vai pagar bolsas e dar suporte a quem queira se tornar político, a partir de um processo seletivo.

    Apoiada por empresários, a iniciativa do Renova Br, que participará na Virada Política, já foi acusada por partidos políticos de burlar as regras de financiamento eleitoral.

    Como a legislação brasileira não aceita candidaturas independentes, seus membros precisam se filiar a algum partido político até abril de 2018, caso realmente queiram concorrer a algum cargo público.

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