O que são as zonas mortas oceânicas. E como elas surgem

Ação humana, sobretudo pela agropecuária, reduz a quantidade de oxigênio nos mares e cria regiões ao redor do mundo de vida marinha inviabilizada

     

    O mar do Golfo do México, que banha o sudeste dos EUA e toda a costa leste mexicana, apresentou em 2017 a maior zona morta oceânica de sua história, em um processo que vem aumentando anualmente. O anúncio foi feito no início de agosto pela Administração Oceânica e Atmosférica Nacional americana (NOAA, na sigla em inglês).

    22.730 km²

    é a área da zona morta no Golfo do México, pouco maior que o estado de Sergipe

    Zonas mortas aquáticas são áreas onde a ausência de oxigênio inviabiliza a possibilidade de vida embaixo d’água, e pode acontecer em rios, lagos e mares. As maiores delas estão localizadas em oceanos, e juntas somam uma área superior à do Reino Unido.

    As zonas mortas são o reflexo do que é considerado um dos três maiores problemas ambientais do mundo — o excesso do uso de nitrogênio e fósforo como fertilizante agrícola —, ao lado de questões como a perda da biodiversidade e o aquecimento global.

    530

    é o número de zonas mortas em oceanos ao redor do mundo, estimado em 2011 pelo World Resources Institute. O índice dobra a cada década desde 1960.

    O fenômeno no Golfo do México acontece sempre nos verões do Hemisfério Norte (inverno no Brasil). A zona morta nos mares da América do Norte é uma das duas maiores do mundo; a outra está no mar Báltico, no norte da Europa e ao sul da Suécia e Finlândia.

    As características das zonas mortas

    Regiões hipóxicas são aquelas onde a prevalência de oxigênio é tão baixa que inviabiliza qualquer forma de vida que dependa do elemento. Nesses casos, as espécies aquáticas que habitam zonas infligidas pelo fenômeno precisam migrar para evitar a morte.

    Essas zonas mortas podem aparecer por motivos naturais ou gerados pela ação humana. Grande parte das regiões hipóxicas nos oceanos entram no segundo caso, e surgem devido ao processo de eutrofização, ou seja, a poluição aquática por nutrientes, como nitrogênio e fósforo, que compõem os fertilizantes

    A abundância desses elementos permite o desenvolvimento descontrolado de algas chamadas fitoplânctons. Depois da explosão dessa forma de vida, as algas morrem e afundam para o solo marítimo. As bactérias que decompõem seu material orgânico consomem o oxigênio da água, fazendo com que o recurso se esgote no ambiente.

    Antes de matar as formas de vida marinha, a alteração na presença de nutrientes nas águas afeta diretamente, também, os ciclos de reprodução das espécies que lá vivem, diminuindo a capacidade de recomposição das espécies.

    A ação humana e as zonas mortas

    A invasão de nutrientes em águas marinhas acontece principalmente pelos rios. Zonas agrárias utilizam largas quantidades de nitrogênio e fósforo para fertilizar a terra. Esses elementos acabam chegando aos  cursos fluviais especialmente em épocas chuvosas como o verão.

    Assim como a água que evapora se condensa na atmosfera e volta para a superfície terrestre em forma de chuva, o nitrogênio e o fósforo também têm seus ciclos naturais.

    A demanda por fertilizantes — e tanto o nitrogênio como o fósforo são elementos essenciais para o crescimento das plantas — fez com que a atividade humana, ao longo do tempo, passasse a converter mais nitrogênio atmosférico em formas de uso agrícola do que todos os outros processos naturais de conversão.

    Esse desequilíbrio se transforma em excesso dos elementos nos rios. Quando chegam no mar, permitem a disseminação das algas que depois morrem e formam as zonas mortas.

    Outras formas de poluição atmosférica também contribuem para a diminuição da concentração de oxigênio na água. Por isso, a prevalência de zonas mortas é mais alta em regiões do mundo ocupadas mais densamente, como mostra este mapa da Nasa de 2008.

    Especialistas têm dificuldades em estimar as zonas mortas na costa brasileira por falta de dados disponíveis. Algumas das áreas mais afetadas podem ser a da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e a região de Cubatão, em São Paulo — ambas densamente ocupadas.

    Análises também apontam para a amplificação do problema das zonas mortas até o fim do século 21 com o aumento do aquecimento global.

    Como reverter a morte dos oceanos

    As zonas mortas oceânicas atingem também regiões dependentes da pesca. Se por um lado o desenvolvimento industrial de nitrogênio para abastecer plantações fez com que a humanidade se afastasse do perigo da escassez de alimentos, seu descontrole pode ser um dos principais fatores para a morte da biodiversidade marinha — outra importante fonte de renda e comida.

    Mas elas são reversíveis. A principal forma de evitar a expansão dessas zonas mortas é a criação de sistemas de saneamento e estratégias mais complexas para manter o nitrogênio na terra e evitar seu escoamento para os rios.

    Atualmente, medidas do tipo estão sendo implementadas na baía de Chesapeake (norte dos EUA) e na região do mar Negro (sudeste europeu) — o último, um dos primeiros casos de zona morta marinha causada pela atividade humana registrados na história.

    Para resolver o problema de forma definitiva, seria necessário alterar drasticamente a lógica de produção agrícola. De acordo com um estudo do Centro de Resiliência de Estocolmo, publicado pela revista Nature ainda em setembro de 2009, o ideal seria que o mundo reduzisse em dois terços o fluxo de nitrogênio usado em plantações — de cerca de 100 milhões para 35 milhões de toneladas.

     

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