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O que pensa Judith Butler. E quem protesta contra sua vinda ao Brasil

Vinda da filósofa ao país para seminário no Sesc sobre democracia mobilizou grupos conservadores contra ‘ideologia de gênero’

     

    De passagem por São Paulo na primeira semana de novembro, a filósofa americana Judith Butler participa, entre os dias 7 e 9, do seminário "Os Fins da Democracia" no Sesc Pompeia, em São Paulo.

    Na terça-feira (7), dois grupos manifestaram, em frente ao Sesc, apoio e contrariedade à presença da filósofa no país. Segundo a Folha de S. Paulo, o grupo pró-Butler era maior do que o que protestava contra, e ambos somavam menos de cem pessoas. Já nas semanas que antecederam sua vinda, uma petição foi criada pedindo o cancelamento da palestra, e alcançou mais de 360 mil assinaturas.

     

    Sem autoria declarada, o texto do abaixo-assinado a qualifica como “idealizadora e uma das principais promotoras da ideologia de gênero” e faz referência a “exemplos graves da aplicação da ideologia de gênero em nossas escolas”, razão pela qual defende o combate da disseminação de suas ideias. Em frente ao Sesc, um manifestante gritava “queimem a bruxa”.

    Membros do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira foram aos semáforos com uma gaita de fole e levantaram placas com os dizeres "Buzine em favor do casamento como Deus o fez", segundo o Buzzfeed News. A entidade  defende os valores católicos tradicionais e é ligada à Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade (TFP), fundada no Brasil em 1960.

    Na segunda (6), Butler falou também na Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo. Lá, o tema foi a convivência democrática, abordando a relação entre Israel e Palestina, tema de seu livro “Caminhos Divergentes: Judaicidade e Crítica do Sionismo”, lançado no Brasil em 2017.

    Quem é Judith Butler

    A figura de Butler é mais associada ao campo de estudo da identidade de gênero e à teoria queer. Seu livro “Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade”, de 1990, é um dos títulos mais importantes da teoria feminista contemporânea. Para Butler, a identidade de gênero é um tipo de performance, culturalmente construída, múltipla e passível de mudanças: não é binária (dividida nas categorias homem e mulher) ou linear. 

    Como sugere a razão de sua visita ao Brasil, porém, sua contribuição não se restringe a essa temática: é também autora de trabalhos sobre filosofia política e ética. No livro “Quadros de Guerra”, de 2009, trata da desumanização do “inimigo” no contexto da política externa americana, indagando sobre quais vidas são reconhecidas e passíveis de luto e quais são consideradas descartáveis.

    A petição que pede o cancelamento da visita da filósofa ao país diz que “por meio daquilo que chama de performance”, Butler “propõe que as pessoas vivenciem todo tipo de experiência sexual”.

    Para Paula Drumond, professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio e especialista em estudos de gênero, há um mal entendido ao tratar desse conceito. “Na verdade, o conceito dela é ‘performatividade’ e, por meio dele, que ela na verdade empresta da teoria sobre atos de fala do filósofo John Austin, tenta trazer a questão do gênero como sendo reproduzida pela linguagem, no sentido de que ele é performado pelas nossas práticas, por discursos, e estamos sempre reproduzindo esses papéis de gênero”, disse ao Nexo

    “O problema é que essa petição usa  esse conceito para tentar dizer que ela está estimulando as pessoas a vivenciarem - eles falam isso abertamente - todos os tipos de experiência sexual, o que definitivamente não é o caso”, disse Drumond. No prefácio do livro “Bodies that Matter” (Corpos que importam), a autora esclarece que o sujeito não consegue escolher o gênero nem pode ser mudado, nesse aspecto, pela educação ou pela vontade própria.

    “Em linhas gerais, acho que ela quer chamar atenção, na teoria de gênero mas também quando fala sobre os quadros de guerra, sobre os corpos que importam, aqueles que são visíveis dentro de certas narrativas e normatividades. O pensamento dela tenta chamar atenção para uma inclusão, uma visibilidade maior daqueles que estão à margem, que não se enquadram a certas normas”, disse a pesquisadora.

    Antecedentes da reação

    A filósofa esteve no Brasil pela primeira vez em 2015, para uma série de compromissos acadêmicos, entre eles o evento “Desfazendo gênero”. Na ocasião, “um pequeno grupo de pessoas protestou contra a vinda de Butler ao Brasil e, por tabela, contra a inclusão da palavra ‘gênero’ no Plano Municipal de Educação de São Paulo”, antes da realização de sua palestra no Sesc Vila Mariana, segundo relatou o G1.

    De acordo com o site Opera Mundi, eram apenas cinco os manifestantes, que também se declararam membros do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira.

    Ao som de uma gaita de foles, carregaram cartazes denunciando a “ideologia de gênero” e a “ideologia homossexual” nas escolas “e a “destruição da família”.

    A ofensiva de grupos políticos e religiosos contra o gênero no Brasil surgiu com maior força entre 2014 e 2015. Em 2014, discutia-se o Plano Nacional de Educação, que determina diretrizes, metas e estratégias para a política educacional do país nos dez anos seguintes. Um trecho do plano, retirado do texto final, dava ênfase à “promoção da igualdade racial, regional, de gênero e de orientação sexual".

    As bancadas conservadoras se mobilizaram para suprimir as menções ao gênero e à orientação sexual dos planos nacionais, estaduais e municipais de educação. Nessa época, por volta de 2015, o movimento Escola Sem Partido também ganhou notoriedade e incorporou o discurso anti-gênero como uma de suas bandeiras.

    A movimentação de grupos políticos, religiosos e de pais incomodados com a discussão sobre o tema nas escolas continua a reverberar em 2017.

    É preciso esclarecer sob quais pressupostos o termo “ideologia de gênero” está baseado. Primeiro, supõe que “ideologia” é um instrumento de doutrinação, um discurso operante para a conversão de pessoas e, por isso, é algo “perigoso” e “ruim”. Em segundo lugar, essa expressão desqualifica gênero como um conceito e desconsidera seu caráter analítico e científico. O raciocínio que se espera é: se gênero é ideologia, as pessoas deveriam ficar longe dele.

    Bernardo Fonseca Machado

    Em ensaio de julho de 2016 para o Nexo

    Quem protesta

    A campanha anti-gênero tem vínculo de origem com a igreja católica, mas conta hoje com a adesão de muitos outros atores religiosos, como evangélicos, muçulmanos e, no Brasil, espíritas, explica a professora visitante do departamento de estudos de gênero da London School of Economics, Sonia Corrêa.

    Em um artigo para a Folha de S. Paulo publicado no domingo (5), Corrêa chama atenção para o fato de que isso não significa que todas as pessoas religiosas comunguem dessa visão, ou que ela seja exclusivamente religiosa: “esse mesmo discurso também tem sido propagado por forças seculares neoliberais, conservadoras, ‘científicas’ e até mesmo por gente do campo de esquerda”, escreveu.

    O site em que foi criada a petição pelo cancelamento da palestra de Judith Butler no Sesc Pompeia em 2017, chamado CitizenGO, tem entre campanhas passadas uma que reivindica a “reparação do dano causado pelo banco Santander”, patrocinador da exposição Queermuseu, encerrada pelo banco em setembro após protestos que associavam obras de arte à pedofilia.

    O CitizenGO é uma fundação espanhola que afirma partir de uma visão cristã. Entre os preceitos reconhecidos pela fundação estão o “direito à vida e à sua preservação, da concepção até a morte natural” e o “direito ao matrimônio, entendido como a união entre um homem e uma mulher”. O site de mobilização com foco em pautas conservadoras está presente em dezenas de países.

    Movimento amplo

    Sonia Corrêa recupera a origem, situada na década de 1990, da produção e disseminação de argumentos contra o conceito de gênero, descrito nesse contexto “como instrumento de uma conspiração feminista internacional”.

    A ideia de doutrinação ou ideologia de gênero, segundo ela, remonta aos debates nas Nações Unidas da década. A Conferência do Cairo sobre População e Desenvolvimento (1994) havia adotado o conceito pela primeira vez em um documento intergovernamental. O termo passou então a ser atacado pela direita católica norte-americana. Na América Latina, esse tipo de campanha se intensificou a partir de 2013.

    “Eu vejo como um movimento de reação a pequenos ganhos que foram feitos nos últimos anos na pauta sobre gênero e sexualidade: um reconhecimento das uniões homoafetivas, para além do Brasil; mobilização na Suécia para que se utilizassem pronomes neutros; um movimento inicial nos EUA para inserção de homossexuais e transexuais nas forças armadas”, diz Paula Drumond. Parte da sociedade tenta, segundo ela, interromper esse processo, baseando-se em um discurso moral de ameaça à família.

    No Peru, México e Equador, a hashtag recente “Con mis hijos no te metas” (Não se meta com meus filhos) surgiu com pauta semelhante a dos grupos conservadores brasileiros: as mudanças nos currículos escolares para incluir discussões sobre sexualidade e gênero. No Chile, o discurso da ideologia de gênero foi utilizado para falar contra o aborto. 

    “Butler promove um comportamento de tolerância e inclusão para que todos possam viver suas vidas de forma digna e reconhecida. É um debate que infelizmente está sendo tratado de forma limitada e distorcida”, diz Paula Drumond.

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