O livro que criou o termo ‘meritocracia’ é uma distopia

Publicada em 1958, obra satírica foi escrita por um personagem importante do Partido Trabalhista britânico

     

    É comum se defrontar com o termo “meritocracia” em discussões políticas e econômicas. Na acepção mais comum, designa um modelo em que se progride social e economicamente com base em qualidades pessoais. De acordo com essa visão, a meritocracia premia o esforço individual, que se sobreporia a fatores externos.

    Para seus críticos, o conceito é falho pois ignora o contexto social e cultural das pessoas, que podem se traduzir em vantagens ou desvantagens. Segundo essa visão, ao ignorar o histórico das pessoas, a meritocracia serve apenas para reforçar desigualdades existentes.

    O termo tem origem no livro “The rise of the meritocracy” (“A ascensão da meritocracia”, em tradução livre), publicado em 1958 pelo sociólogo e político britânico Michael Young. Satírica, a obra descreve uma sociedade distópica do futuro em que se consolida uma elite baseada em resultados de testes de QI padronizados. Como apenas aqueles com acesso a boas escolas conseguem ir bem nos testes, a “meritocracia” da história apenas perpetua o desequilíbrio social.

    A intenção de Young era criticar o sistema educacional britânico de sua época, baseado em um modelo similar de testes de inteligência, que todas as crianças do país deveriam fazer em certas fases da vida escolar. A aprovação ou não nesses testes, em vigor no país até o fim da década de 1980, costumava ser determinante para o futuro profissional dos estudantes.

    O esforço como métrica

    O termo ganhou sentido positivo nas décadas seguintes ao ser adotado por uma variedade de escritores de autoajuda, pensadores, empresários e políticos. Nos Estados Unidos, o conceito foi incorporado à sólida mitologia do “self-made man”, do personagem de origem humilde que venceu sozinho na vida, associado às histórias do escritor Horatio Alger, do século 19.

    No Reino Unido, o termo foi adotado com entusiasmo pelo primeiro-ministro Tony Blair, que ocupou o cargo entre 1997 e 2007. Em um discurso de 2001, Blair fez alusão ao conceito, pregando que “as pessoas deveriam ascender de acordo com o mérito e não nascença”.

    Foto: Reprodução
    meritocracy
    Livro que lançou o termo foi publicado originalmente em 1958
     

    Em artigo para o jornal britânico The Guardian no mesmo ano, Young criticou o político pelo uso inadequado da palavra. “É altamente improvável que o primeiro-ministro tenha lido o livro, mas ele abraçou a palavra sem se dar conta dos perigos do que está defendendo”. Figura importante do Partido Trabalhista britânico (o mesmo de Blair), nas décadas de 1940 e 50, o autor foi um dos responsáveis por nortear políticas trabalhistas em áreas como educação, saúde e habitação.

    No Brasil, o senador Aécio Neves se valeu do termo em diversas ocasiões, como por exemplo em declarações sobre o funcionalismo público. Em 2015, publicou no Twitter que “sou favorável à meritocracia, a qualificação da ocupação dos cargos públicos em todas as esferas da administração”.

    Quais as principais críticas à ideia de meritocracia

    “Sem resolver a desigualdade de oportunidades, ficar falando em meritocracia é piada. Como discutir o mérito de quem chegou em primeiro lugar em uma corrida onde as pessoas saíram em tempos diferentes e a distâncias diferentes?”, declarou Ricardo Paes de Barros, economista-chefe do Instituto Ayrton Senna e professor no Insper, em 2016.

    Em seu artigo de 2001, Young lembrou que a prática pode criar um sistema viciado: “É bom senso indicar pessoas individuais a trabalhos com base no seu mérito. É o oposto quando aqueles que são considerados possuidores de um certo tipo de mérito se engessam em uma nova classe social que não permite lugar para os outros”.

    Entre seus defensores, há quem ressalve que o conceito vale apenas para situações específicas, não para a sociedade como um todo. Por exemplo, como critério de seleção ou promoção dentro de uma empresa.

    Mesmo nesse tipo de situação, há espaço para desequilíbrio. Uma pesquisa de 2016 do MIT (Massachussets Institute of Technology) identificou que organizações que usam a meritocracia como base para políticas de recompensas têm mais chances de oferecer recompensas de maneira desigual a indivíduos com performance parecida, mas com gênero, etnia ou origem social diferentes.

    Em artigo de 2012 para o Financial Times, Daniel Bell, professor de teoria política na universidade chinesa de Tsinghua, e Eric Li, capitalista de risco em Shanghai, explicaram as vantagens do modelo meritocrático para o preenchimento de cargos no Partido Comunista Chinês. Neste sistema, aspirantes enfrentam alta competição em diversos níveis para ascender dentro da máquina partidária e na administração pública. Testes de personalidade e qualificação ocorrem em várias etapas.

    Só aqueles com um histórico de desempenho excelente alcançam os níveis mais altos. “Em vez de perder tempo e dinheiro tentando angariar votos, líderes podem buscar a melhoria de seu conhecimento e desempenho”, afirmaram os autores do artigo. Mas fazem a ressalva em seguida: “a meritocracia só pode funcionar em um sistema de partido único”. Na democracia, com a alternância de partidos, não há garantia de permanência em um cargo público por muito tempo.

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