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O aplicativo que ajuda muçulmanos a encontrarem maridos e esposas

Busca por parceiro ideal pode ser difícil se você faz parte de uma minoria religiosa e conta apenas com apps genéricos de encontro

     

    Alguns dos aplicativos de relacionamento mais disseminados no mundo, como o Tinder, por exemplo, nunca chegaram a suprir todas as demandas dos cerca de 1,8 bilhões de muçulmanos espalhados pelo mundo.

    “Para um muçulmano na casa dos 20 anos, sua criação [em casa] foi muito centrada na busca por um marido ou uma esposa. E isso vale para a maioria”, disse Shahzad Younas, um cientista da computação muçulmano que vive em Londres, ao site Techcrunch.

    Percebendo os novos costumes — como uma maior independência dos jovens muçulmanos com relação à família na busca por seu par — e aspectos culturais ignorados pelos grandes aplicativos — como a eventual presença de um “guardião” que acompanha a interação entre um possível casal —, Younas criou o seu próprio aplicativo, o Muzmatch.

    As especificidades do aplicativo

    Em alguns pontos o app é parecido com outros mais conhecidos. A partir de um localização geográfica, a ferramenta apresenta pretendentes que podem ser curtidos ou descartados. Quando duas pessoas se curtem mutuamente, podem conversar e se conhecer melhor.

    Mas há também algumas diferenças marcantes que, para seu criador, justificam sua disseminação entre a comunidade muçulmana. O app é feito especificamente para muçulmanos que querem casar, e utiliza em várias de suas propagandas o termo “Halal” (ou seja, que segue os costumes estabelecidos pela fé islâmica).

    Segundo Younas, os aplicativos mais conhecidos de relacionamento sempre tiveram uma “má reputação” nas comunidades muçulmanas. Muitos perfis falsos, mensagens de assédio e fotos íntimas não solicitadas, por exemplo, ajudam a criar um ambiente pouco amigável às pessoas que buscam um relacionamento sério — caso de boa parte dos jovens muçulmanos entre a metade e o fim dos 20 anos.

    Para isso, o Muzmatch disponibiliza opções como manter as fotos pessoais escondidas até que ambos os perfis “se curtam”, e caso decidam por não continuar mantendo contato, os usuários podem avaliar como foi a interação com o outro — positiva ou negativa. Essa avaliação é levada em conta pelos algoritmos do aplicativo quando o usuário voltar a utilizá-lo.

    “Nós temos tolerância zero. Se alguém está sendo sujo ou obsceno e claramente não está atrás de nada sério, nós simplesmente o excluímos”

    Shahzad Younas

    Criador do Muzmatch, à App Store

    Além disso, o app busca entender melhor o pano de fundo cultural de cada usuário, incentivando-os a preencher com riqueza de detalhes informações sobre suas famílias, tradições, nível de religiosidade, entre outros fatores, disse Younas ao Techcrunch.

    Um desses casos é o “guardião” — ou “Wali”, em árabe. Para algumas correntes do islamismo, um casamento só é válido quando tem a concordância da noiva, do noivo e do guardião da noiva, ou seja, um homem que é seu guardião legal — muitas vezes o pai.

    O aplicativo disponibiliza a opção de que a conversa entre os pretendentes seja enviada integralmente por e-mail ao Wali, para que membros de comunidades mais conservadoras também possam utilizá-lo.

    Investir no encontro de pessoas que compartilham costumes dentro da mesma tradição religiosa facilita o processo de conhecimento mútuo entre os usuários do app e de aceitação de suas respectivas famílias, aumentando as chances de casamento. Segundo Younas, uma média de 30 pessoas por dia deixam o app porque encontraram o cônjuge ideal.

    Mercado ainda concentrado

     

    O aplicativo vem fazendo sucesso. Na App Store, loja de aplicativos da Apple, a versão atual do Muzmatch tem quatro estrelas e meia de cinco possíveis — nota dada pelos próprios usuários. No domingo (5), a ferramenta apareceu entre os destaques da App Store e ganhou um texto publicado sobre sua história.

    Segundo a descrição na plataforma, são mais de 250 mil pessoas utilizando o app. De acordo com Younas, cerca de metade delas está na Inglaterra. Um terço dos usuários estão na América do Norte, sobretudo entre EUA e Canadá. Trata-se de alguns dos lugares com menos muçulmanos no mundo, mas ainda assim com um grande mercado a ser explorado, segundo Younas.

    O criador da ferramenta explica que, nesses países em que há menor densidade de muçulmanos, é ainda mais difícil encontrar alguém da mesma religião, com os mesmos costumes e tradições.

    Até por isso, o Muzmatch tem uma área geográfica de alcance bem maior do que a dos aplicativos normais, por pedido dos usuários: eles solicitaram que fosse dos 250 quilômetros originais para 2.000, demonstrando a disponibilidade em viajar para encontrar o cônjuge perfeito, e um engajamento incomum para aplicativos de relacionamento em geral.

    Segundo o criador, a ideia é no futuro expandir o aplicativo para todo o mundo. Por enquanto, ele continuará mais concentrado em países que não têm maioria muçulmana.

    Jovens muçulmanos são mercado atraente

    O islamismo é a segunda religião mais disseminada do planeta, atrás apenas do cristianismo. É também a que mais cresce em termos populacionais, segundo dados da Pew Research. Ou seja, os muçulmanos formam a religião com, proporcionalmente, mais jovens do mundo.

    Os quase 47 milhões de muçulmanos que vivem em países da Europa ou da América do Norte, e onde o Muzmatch está mais concentrado, não chegam nem perto de responder por todos os adeptos da religião no planeta.

    Distribuição geográfica

    O Muzmatch, que começou como um site e depois virou aplicativo, foi selecionado recentemente pela Y Combinator, empresa aceleradora dos EUA que investe dinheiro em start-ups inovadoras com potencial de crescimento.

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