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O projeto que incentiva meninas de escola pública a seguirem carreira nas exatas

‘Elas nas exatas’ estimula inserção feminina na área com propostas que ensinam técnica e as histórias de mulheres cientistas

    Um novo edital do projeto “Elas nas Exatas” está aberto até o dia 28 de novembro. Lançada em 2015, a iniciativa selecionará dez novos projetos destinados a incentivar meninas que cursam o ensino médio em escolas públicas de todo o país nas áreas de exatas e ciências tecnológicas. 

    Os vencedores receberão apoio técnico e financeiro (no valor de R$ 35 mil) das quatro instituições que estão por trás do edital — ELAS Fundo de Investimento Social, Instituto Unibanco, Fundação Carlos Chagas e ONU Mulheres — para colocar em prática estratégias que despertem o interesse das estudantes nessas áreas e ajudem a superar estereótipos.

    Os estereótipos são um dos fatores para que, no ensino superior, a participação de mulheres ainda seja minoritária em cursos das áreas de ciências exatas, tecnológicas e naturais. Ainda que, de acordo com o Censo da Educação Superior de 2016, elas sejam maioria entre os matriculados nessa etapa de ensino no país.

    O foco do projeto no ensino médio se deve ao dado de que a defasagem das meninas nessa área se aprofunda na fase final do ensino básico. Elas passam do nono ano do ensino fundamental para o primeiro ano do médio com notas de matemática melhores que a dos meninos, mas terminam o terceiro ano com notas abaixo das deles, segundo levantamentos feitos pelo Instituto Unibanco. Na avaliação mais recente (de 2015) feita no Brasil pelo Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, as meninas também apresentam hdesempenho pior do que o dos meninos em disciplinas como química, física e matemática.

    “Como diz a física Márcia Barbosa, ‘é como se houvesse um vazamento de mulheres pelo caminho’. Para além disso, o cotidiano das mulheres que ocupam o campo das ciências exatas e tecnologias confirma que o ele ainda é ocupado majoritariamente por homens, e muitas vezes as mulheres vivem situações de machismo e discriminação nesses ambientes”, disse a idealizadora e Coordenadora Geral do Elas - Fundo de Investimento Social, Amália Fischer Pfaeffle, ao Nexo.

    O que afasta as meninas das exatas na sala de aula 

    A razão para a baixa participação das alunas nas carreiras de exatas, mesmo quando têm bom desempenho escolar nas disciplinas correlatas, está nas interações, muitas vezes sutis, do cotidiano escolar que “reforçam estigmas e bloqueiam muitas aspirações de jovens meninas”, segundo Ricardo Henriques, superintendente executivo do Instituto Unibanco e professor da Universidade Federal Fluminense.

    Inconsciente, a discriminação passa por quem é chamado à lousa para resolver os exercícios de matemática e quem é interpelado por professores para responder perguntas em voz alta nas aulas de física e de química.

    “A desigualdade de gênero nas ciências exatas e tecnologias têm razões culturais: ela se deve à reprodução dos estereótipos de gênero no ambiente escolar”, diz Pfaeffle. “Uma pesquisa publicada em 2015 pelo National Bureau of Economic Research mostrou que professores de matemática dão notas maiores para meninas quando não sabem que estão corrigindo a prova de uma menina. Elas geralmente não são estimuladas a desenvolver seu interesse e suas competências nesse campo”.

    Henriques chama atenção para o fato de que o ambiente de formação é, em geral, “cindido em sua origem por uma visão machista da sociedade”: desde cedo, há brinquedos e cores para meninas e meninos e, mais tarde, com especial intensidade no ensino médio, passa a haver também habilidades e carreiras consideradas vocacionadas a cada um dos gêneros.

    “Há evidências sólidas de que isso acontece ao longo de todo o período escolar, desde a primeira infância: uma pedagogia da negação que vai excluindo as meninas do campo das exatas. Mas, especificamente no ensino médio, quando elas fazem escolhas de trajetória educacional futura, há um reforço desse estigma que distancia as jovens estudantes da pesquisa, em geral, e especificamente das ciências exatas e da natureza, com um pouco de exceção na área de medicina”

    Ricardo Henriques

    Em entrevista ao Nexo

    Alguns projetos já desenvolvidos

    Os projetos da primeira edição do “Elas nas Exatas”, escolhidos em 2015 e executados em 2016, atuam basicamente em dois eixos: há os que trabalham aspectos técnicos e os que buscam disseminar e valorizar a história das mulheres na ciência e tecnologia.

    Se a primeira tática desenvolve aptidões, a segunda “cria um campo empático, de criação de identidade das jovens, em que trajetórias como essas são possíveis”, disse Henriques. Ambas são vistas como igualmente necessárias.

    Em um projeto desenvolvido na cidade de São João Del Rey, em Minas Gerais, as estudantes aprenderam a desenvolver um veículo automotivo, do projeto ao produto final, em parceria com a Universidade Federal de São João Del Rey.

    Na Escola Estadual Professor Quintiliano José Sintrângulo, na Vila Carmosina, zona leste de São Paulo, o projeto “Empoderadas” desenvolveu com as alunas uma websérie de mesmo nome que narra as histórias de vida de mulheres negras na ciência. Houve exibição dos vídeos seguida de rodas de conversa sobre o tema, que também envolveu os meninos. Foi a única iniciativa a trabalhar com jovens do ensino médio noturno.

    Ambições do projeto

    Além de procurar, de imediato, incentivar a inserção das meninas nas áreas de ciências tecnológicas e exatas, o projeto “Elas nas Exatas” também serve de laboratório para experiências que poderiam ser aplicadas em maior escala na própria escola ou até levadas para outras escolas.

    Como todas as propostas aprovadas são conduzidas em parceria com a gestão da própria escola, “a maior expectativa é que a gente produza conhecimento empírico, evidência concreta de coisas que funcionam e até aprender com as coisas que não funcionam, para poder criar alguma escala”, tornando o experimento uma política, disse o superintendente do Instituto Unibanco. 

    “Não acredito que a gente consiga criar coisas que são universais, que caibam em qualquer contexto, mas para determinadas condições, num recorte que dialogue objetivamente com essa questão de gênero e abra espaço para oportunidades educacionais e profissionais para as mulheres no campo das exatas”, diz Henriques.

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