Ir direto ao conteúdo

Por que a fotógrafa Alice Austen está sendo reconhecida como símbolo LGBT

Americana viveu durante o século 19 em Nova York e tem um acervo de mais de 8.000 fotografias

    Durante os séculos 19 e 20 registrar o cotidiano a partir de fotografias se popularizou no mundo. Uma das teorias é de que a primeira fotografia foi tirada em 1826 por Joseph Nicéphore Niepce. Desde então, fotógrafos homens vieram se consagrando. No mesmo período, muitas mulheres também fotografavam, mas seus nomes não foram reconhecidos.

    É o caso da fotógrafa Elizabeth Alice Austen, que viveu durante o século 19 e foi uma das primeiras mulheres a fotografar as ruas de Nova York. Austen nasceu em 17 de março de 1866 no estado de Nova York e cresceu com a presença de seis outros adultos. Em 1869, o pai de Austen abandonou a família e não retornou mais. Aos 10 anos, ela teve sua primeira experiência ao fotografar com uma câmera emprestada de seu tio.

    De acordo com o site Alice Austen House, que disponibiliza a história e a obra da fotógrafa americana, Austen demonstrou talento desde a primeira vez que fotografou. Aos 18 anos, sua família havia comprado outras câmeras e ela ganhou experiência fotografando.

    Foto: Richard O’Cannon/Reprodução
    Alice Austen pousa para fotografia ao lado de Gertrude Tate em 1944
     

    As fotografias de Austen focam no cotidiano, nos momentos que ela viveu com sua família e amigos na cidade de Nova York, cenas consideradas banais e, principalmente, autorretratos. 

    Muitos dos autorretratos de Austen são posados com a professora Gertrude Tate e com seus amigos que a visitavam em sua casa. A ousadia e a liberdade nas fotografias podem ser explicadas justamente porque Austen não considerava expor seu trabalho.

    No acervo on-line de mais de 8 mil fotografias de Austen há diversos momentos de sua vida registrados com Tate. Elas viveram mais de 50 anos juntas.

    A fotógrafa morreu aos 86 anos, em 1952. Tate morreu em 1962, aos 90 anos. Elas tinham planos de morrerem e serem cremadas juntas, mas a família das duas ignorou o pedido.

    Por que sua história voltou agora?

    Em junho de 2017, a casa de Austen, que se tornou um centro cultural após a morte da fotógrafa, foi reconhecida como um marco na história americana pelo projeto NYC LGBT Historic Sites Project, responsável por categorizar e mapear museus e casas culturais referências LGBT na cidade de Nova York.

    “Nós estamos trabalhando para garantir que essas narrativas tornem-se conhecidas como parte da história do movimento LGBT, que também é parte da história americana”, disse Andrew Dolkart, um dos organizadores do projeto. 

    Foi a primeira vez que o nome de Austen foi associado ao movimento LGBT abertamente. No site Alice Austen House, Tate é descrita apenas como uma companheira de longa data da fotógrafa.

    Em entrevista ao site Artsy, a diretora da casa de Austen, Janice Monger, explicou que categorizar o relacionamento de Austen e Tate é delicado: “Há opiniões diferentes sobre o caso. Eu não tenho medo de chamá-la de lésbica, mas usar esse termo significaria simplificar as coisas”.

     

    O receio em identificar Austen como lésbica se dá pelo período que ela viveu. A professora de inglês da Universidade Estadual da Califórnia Lillian Faderman, em entrevista ao Artsy, explica que o termo lésbica sugeria uma patologia no século 19. E, por isso, termos como “amizade romântica” e “Boston marriage” eram mais usados para os relacionamentos amorosos entre mulheres.

    O termo “Boston marriage” veio do livro do escritor Henry James de 1886 e conta a história de duas mulheres que moram juntas. Para a professora Faderman, esse termo provavelmente era usado por Austen e Tate para descrever o relacionamento que viviam.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.

    Já é assinante?

    Entre aqui

    Continue sua leitura

    Para acessar este conteúdo, inscreva-se abaixo no Boletim Coronavírus, uma newsletter diária do Nexo: