Como o modelo educacional prejudica as notas de alunos negros, segundo este estudo

Sistema de progressão continuada contribui para que estudantes negros recebam dos professores avaliações piores

    Alunos negros possuem desempenho escolar inferior ao de alunos brancos, mesmo quando estudam na mesma escola e são submetidos à mesma grade curricular ao longo do tempo. O resultado, que foi descrito por economistas em estudo publicado pela FEA (Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade) da USP, aponta a discriminação racial no ambiente escolar e a alta rotatividade de professores como fatores explicativos para a diferença de desempenho entre negros e brancos.

    Autores do estudo, Fernando Botelho, Ricardo Madeira e Marcos Rangel argumentam que mesmo quando possuem igual desempenho escolar e disciplinar ao de alunos brancos, estudantes negros possuem maior probabilidade de receberem notas baixas. Segundo o estudo, em termos práticos, isso significa que negros possuem uma chance 4,5% maior de repetirem a oitava série do antigo ginásio (atual nono ano do ensino fundamental).

    Para os autores, a discriminação na atribuição de notas decorre de fatores relacionados à estrutura educacional em um país marcado pela desigualdade racial, como o Brasil.

    Entre os pontos que contribuem para esse fenômeno está a alta rotatividade de professores – que dificulta o estabelecimento de vínculos com os alunos e estimula avaliações subjetivas baseadas em estereótipos estéticos – e o baixo investimento do governo na capacitação de professores para lidarem com a questão racial.

    Associado a esses dois pontos está o regime de progressão continuada, sistema que passa o aluno automaticamente de ano adotado no ensino público do país. À época em que o estudo foi feito, por conta da progressão continuada, o aluno só podia repetir no quinto ano, nono ano e ao longo do ensino médio (em 2014, a reprovação passou a ocorrer no terceiro, sexto e nono anos).

    Diante de um sistema leniente com alunos que aprendem pouco em séries de formação básica, os pesquisadores argumentam que professores têm a expectativa de receberem estudantes pouco preparados no nono ano.

    Dadas as piores condições socioeconômicas, em média, da população negra e a reprodução da discriminação racial dentro do ambiente escolar, professores com pouco conhecimento sobre a trajetória escolar dos alunos tendem a assumir que o sistema de progressão continuada foi desproporcionalmente mais leniente com alunos negros do que com alunos brancos.

    Uma vez que se chega ao nono ano e as avaliações passam a contar para uma possível reprovação, se professores e alunos não possuem histórico de contato prévio, os professores tendem a ser mais rígidos nas notas com alunos negros.

    A pesquisa apresenta resultados probabilísticos. Em outras palavras, os autores não concluem que professores atribuem notas distintas a brancos e negros de forma deliberadamente discriminatória, mas que falhas no desenho do sistema educacional, diante do contexto social brasileiro, facilitam a reprodução da desigualdade racial no ambiente escolar e aumentam a probabilidade de alunos negros receberem notas inferiores.

    Como o estudo foi feito

    O estudo comparou o desempenho de alunos de escolas públicas em São Paulo na disciplina de matemática. De acordo com os pesquisadores, o governo estadual apresenta sugestões de questões e métodos de avaliação, mas não exige que eles sejam adotados pelos professores em sala. Assim, há margem para que o professor escolha a forma que acredita ser mais adequada para medir a proficiência do aluno em determinado tema.

    Mas o resultado da avaliação não permite saber se o desempenho avaliado pelo professor está enviesado ou se outros fatores sociais atrapalham o desempenho de alunos negros.

    Assim, a pesquisa se baseou na comparação de indicadores de desempenho escolar de duas fontes. Por um lado, foram utilizadas as notas atribuídas pelos professores aos alunos em sala de aula. Por outro, foram utilizados dados do Saresp (Sistema de avaliação de rendimento do estado de São Paulo), exame anual aplicado pelo governo estadual. Os dados abarcam o período de 2007 a 2010.

    Comparando as duas fontes de dados e aplicando técnicas econométricas, os pesquisadores obtiverem indicadores que sugerem que as notas de alunos negros na avaliação subjetiva – professor em sala – são sensivelmente menores do que as notas na avaliação “cega” – caso do Saresp.

    Outra descoberta importante do estudo é que quando o professor e os alunos possuem mais tempo de contato e, portanto, se conhecem mais, a diferença de desempenho entre alunos brancos e negros cai de 4 pontos, em média, para 0,1 ponto. Ou seja, a convivência com os alunos ajuda a eliminar estereótipos na hora da avaliação.

    Outros estudos

    O resultado dos autores está alinhado com a perspectiva de que a desigualdade racial prejudica o desempenho escolar de alunos negros, como demonstram os livros “Os mecanismos de discriminação racial nas escolas brasileiras” e “As políticas públicas e a desigualdade racial no Brasil”, ambos do Ipea, e os estudos “Quem é negro, quem é branco: desempenho escolar e classificação racial dos alunos” e “Preconceito racial e desempenho escolar: estudo com negros e brancos em escolas de Salvador (BA)”.

    Isso ocorre por dois mecanismos.

    Primeiramente, por viverem, em média, em famílias com pior condição socioeconômica, alunos negros teriam menos oportunidades de desenvolverem o conteúdo passado pelos professores em escolas. Nessa linha, a dificuldade de acesso a materiais didáticos por limitação de renda, por exemplo, podem atrapalhar o aprendizado de alunos negros.

    Em segundo lugar, o desempenho de alunos negros também é prejudicado em decorrência de práticas discriminatórias ocorridas dentro das escolas. De acordo com essa perspectiva, atitudes preconceituosas desmotivam alunos negros no ambiente escolar e, por vezes, fazem com que eles abandonem os estudos.

    A presença da discriminação no sistema educacional, central para o desenvolvimento intelectual e social dos jovens, colocaria a escola como um dos ambientes centrais na reprodução das desigualdades raciais.

    Não se trata, de acordo com a linha de pensamento, de classificar a escola como um ambiente de reprodução da desigualdade racial, mas de entender em quais pontos a estrutura educacional ainda deixa margem para que práticas discriminatórias prejudiquem o desempenho escolar de alunos negros.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto continha a informação de que alunos da rede pública só poderiam ser reprovados no quinto e nono anos. Na realidade, essa era a regra na época em que os dados sobre desempenho escolar foram coletados. Desde 2014, os alunos podem ser reprovados no terceiro, sexto e nono anos. A informação foi corrigida às 19h26m de 23 de novembro de 2017.

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