A carta britânica de 100 anos atrás que prenunciava o conflito Israel-Palestina

Declaração Balfour, escrita durante a Primeira Guerra Mundial, representou um marco para o movimento sionista, que obteve apoio do Reino Unido

    Um dos conflitos diplomáticos mais duradouros e conhecidos do mundo está no Oriente Médio, mais especificamente na região conhecida historicamente como Palestina.

    Tanto israelenses quanto palestinos contestam o direito do outro de viver naquele território. Ao contrário de Israel, a Palestina não é um país reconhecido internacionalmente, e considera que é alvo de ocupação ilegal. Episódios periódicos de violência causam mortes dos dois lados, com diversas tentativas fracassadas de acordo de paz ao longo das décadas.

    Fronteiras atuais

    Apesar de Israel ter sido fundado oficialmente apenas em 1948, no contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, há um século, em 1917, um documento do governo britânico já indicava o que viria a ser, décadas mais tarde, o conflito cultural, religioso e territorial entre palestinos e israelenses.

    Nesta quinta-feira (2), a Declaração Balfour completa 100 anos. Foi uma carta do então ministro de Relações Exteriores do Reino Unido, Arthur James Balfour, endereçada a Lionel Walter Rothschild, um dos líderes do movimento sionista britânico.

    O sionismo é um movimento que defende a criação de um Estado nacional judaico, a fim de reunir judeus espalhados pelo mundo em um território sagrado para a religião, onde hoje fica Israel.

    A carta

    “Caro Lord Rothschild,

    Tenho o prazer de endereçar a Vossa Senhoria, em nome do governo de Sua Majestade, a seguinte declaração de simpatia quanto às aspirações sionistas, declaração submetida ao gabinete e por ele aprovada.

    ‘O governo de Sua Majestade encara favoravelmente o estabelecimento na Palestina de um lar nacional para o povo judeu e empregará todos os seus esforços no sentido de facilitar a realização desse objetivo, entendendo-se claramente que nada será feito que possa atentar contra os direitos civis e religiosos das coletividades não judaicas existentes na Palestina, nem contra os direitos e o estatuto político de que gozam os judeus em qualquer outro país.’

    Desde já, declaro-me extremamente grato a Vossa Senhoria pela gentileza de encaminhar esta declaração ao conhecimento da Federação Sionista”

    Nesta quinta-feira (2), no centenário da carta, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, tem um jantar em Londres com autoridades britânicas, incluindo a primeira-ministra Theresa May, ministros e descendentes de Balfour e Rothschild.

    Por que a carta é importante

    A Declaração Balfour foi uma vitória para o movimento sionista, afinal a partir de 2 de novembro de 1917 passou a ganhar o apoio oficial de uma país influente. Eles já tinham algum suporte internacional, inclusive dos governos da França e dos Estados Unidos informalmente, mas, na época, o Reino Unido era a principal potência do planeta, espaço que foi perdendo para os EUA depois da Primeira Guerra.

    Os sionistas foram acumulando força política a partir do fim do século 19, momento em que movimentos nacionalistas cresceram na Europa. Após a perseguição e assassinato em massa de judeus pelos nazistas  na Segunda Guerra, impulsionaram a criação do Estado de Israel.

    A promessa do governo britânico de “empregar todos os esforços” para criar um “lar nacional” judeu dependia da vitória na Primeira Guerra contra o Império Otomano, que na época controlava a região da Palestina. O Reino Unido de fato saiu vitorioso e passou a dominar, junto com a França, boa parte do Oriente Médio.

    Após a guerra, o controle britânico sobre a região da Palestina passou a facilitar a imigração de judeus para o local. E de fato muitos se mudaram para lá. Entre 1922 e 1935, os judeus passaram de 9% para 27% do total da população. Esse conjuntura tem como um dos marcos a Declaração Balfour.

    Qual a contestação à Declaração Balfour

    Do lado palestino, a carta é vista como a promessa de estrangeiros (britânicos) intervirem numa terra com que não tinham relação, a fim de dá-la a um povo (judeus) que não teria direito a ela. Na ocasião do centenário do documento, ativistas realizam protestos em diferentes países e também pleiteiam um pedido de desculpas oficial do governo britânico pela Declaração Balfour.

    O controle britânico sobre a Palestina durou de 1920 a 1948, e os palestinos eram, em sua maioria, contra o sionismo e a chegada de judeus no local. Sob o domínio militar britânico, muitos veículos de comunicação e grupos que se opunham à política sionista foram censurados.

    Com o início da imigração de judeus, uma das primeiras revoltas, ainda em 1920, resultou na morte de nove pessoas — cinco imigrantes judeus e quatro palestinos. Era o início das tensões religiosas na região, que seguem até hoje.

    Posteriormente, em 1948, quando Israel foi fundado, a divisão territorial proposta pelas Nações Unidas em 1947 foi rejeitada pelos palestinos e pelos países de maioria árabe da região. Isso levou a guerras entre os dois lados, ainda em 1948 e depois em 1967. Nas duas ocasiões, Israel venceu e estendeu os limites de sua fronteira.

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