Ir direto ao conteúdo

A carta contra o assédio e o machismo no mundo das artes

Signatários de todo o mundo, incluindo 13 brasileiros, endossaram documento preparado depois de caso envolvendo publisher de revista de arte nova-iorquina

    Artistas, galeristas, curadores, entre outros profissionais do mundo das artes, publicaram uma carta que denuncia o assédio no mundo das artes. A iniciativa da carta é internacional: entre os mais de 150 signatários do documento de vários países constam 13 brasileiros, sendo 12 mulheres.

    O texto abre com a frase “não estou surpresa”, que faz referência a uma frase-obra da americana Jenny Holzer: “Abuse of power comes as no surprise” (Abuso de poder não é nenhuma surpresa, em tradução livre). Uma imagem da obra aparece logo que se entra no site da carta.

    A carta surgiu na esteira de acusações contra Knight Landesman, um dos publishers da proeminente revista de artes Artforum. O executivo, uma figura de relevo no meio das artes de Nova York, foi acusado de ter assediado uma subordinada por anos, enviando e-mails com insinuações de caráter sexual. Landesman renunciou ao cargo.

    O documento, que inclui entre as signatárias as curadoras do MoMA (Museu de Arte Moderna), de Nova York, e da Tate Modern, de Londres, explica que a motivação inicial abriu o leque para tratar de outras questões enfrentadas por minorias no meio. “Trabalho mais duro para o avanço da igualdade é comumente esperado e executado por mulheres não-brancas, trans e pessoas de gênero não-binário”, declara o texto da carta. Para além do assédio, que é vivido “regular, ampla e agudamente”, o documento pede que as pessoas compartilhem casos de sexismo e tratamento desigual e inadequado.

    “Não somos vítimas, somos mulheres com voz pública, e temos a responsabilidade ética de tomar posição frente à comportamentos abusivos”

    Ana Paula Cohen

    Curadora e editora

    “Um local de trabalho mais justo empodera pessoas de todos os gêneros e orientações sexuais para um maior entendimento mútuo, melhores oportunidades e crescimento individual e coletivo mais forte”, disse ao Nexo a curadora mexicana Sofía Hernández Chong Cuy, que participou desde o início da mobilização que criou a carta. Segunda ela, o documento ajuda a criar um ambiente que facilitará a prestação de apoio emocional e profissional a quem passar por experiências problemáticas.

    A carta também aponta o discurso duplo de instituições e indivíduos influentes no meio das artes que dizem apoiar a causa feminista e da diversidade, “enquanto preservam normas sexistas danosas na prática”. O texto diz que a renúncia do publisher Landesman não resolve o maior “e mais insidioso” problema: “um mundo das artes que mantém estruturas de poder herdadas em detrimento do comportamento ético”.

    “Não ficaremos mais em silêncio”, conclui o texto, que foi produzido em uma articulação internacional que durou 36 horas, iniciada em discussões nas redes sociais sobre o caso Artforum-Landesman. “Foram três dias intensos, mas também um exercício encorajador”, explicou Sarah McCrory, diretora do Centro de Arte Contemporânea da Universidade de Londres ao jornal britânico The Guardian.

    Segundo os organizadores, a carta está aberta a sugestões. “Os retornos variam de ideias relacionadas à terminologia que usamos a questões de como e onde procurar aconselhamentos em casos de assédio sexual”, explicou Chong Cuy, que é uma das responsáveis pelo canal de retorno que o movimento criou na plataforma de comunicação Slack.

    Quem são as signatárias brasileiras

    Entre as que endossaram o documento estão nomes como Ana Paula Cohen, cocuradora da 28ª Bienal de São Paulo, Julia Rebouças, cocuradora da 32ª Bienal, Luiza Proença, curadora associada da 31ª Bienal, Martha Mestre, ex-curadora do Instituto Inhotim, e Fernanda Pitta, da Pinacoteca de São Paulo.

    Para Ana Paula Cohen, foi importante endossar a carta por ser um ato contra abuso e assédio de mulheres e minorias. Ela faz, entretanto, uma ressalva com relação à frase “temos segurado nossas línguas” porque acredita que mulheres com “voz pública” há tempos vêm repudiando e se manifestando sobre a questão do assédio.

    “Não somos vítimas, somos mulheres com voz pública, e temos a responsabilidade ética de tomar posição frente à comportamentos abusivos”, afirmou Cohen ao Nexo. “Eu nunca me calei em situações de abuso, e sempre enfrentei as consequências disso, assim como muitas das profissionais que me contataram para assinar a carta".

    Para ela, o problema no país é bem mais amplo. “No Brasil, o assédio acontece em todos os lugares. No transporte público, na aula, no trabalho, na rua, lidamos o tempo todo com situações de assédio sexual, físico ou verbal, não apenas por parte de homens, e nem por todos os homens, mas é fato que há uma cultura machista que normaliza o assédio às mulheres e temos que aprender a lidar com isso desde cedo", declarou.

    Todos os conteúdos publicados no Nexo têm assinatura de seus autores. Para saber mais sobre eles e o processo de edição dos conteúdos do jornal, consulte as páginas Nossa equipe e Padrões editoriais. Percebeu um erro no conteúdo? Entre em contato. O Nexo faz parte do Trust Project.