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Como a agropecuária elevou a emissão de gases estufa no Brasil em 2016

Atividade é a maior responsável pelas emissões no país, segundo dados da ONG Observatório do Clima

 

A ONG Observatório do Clima anunciou na quarta-feira (25) que as emissões de gases causadores do efeito estufa, como metano (CH4) e gás carbônico (CO²), aumentaram 8,9% no Brasil em 2016, em comparação com o ano anterior, atingindo o nível mais alto desde 2008. Essas moléculas tendem a reter calor e contribuem dessa forma com o aquecimento da atmosfera.

Os dados fazem parte do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa).

2,278 bilhões

de toneladas de CO²e (CO² equivalente) foram emitidas em 2016. Essa medida toma a molécula de CO² como a referência para determinar a captura de calor por outras moléculas. Por exemplo: o metano captura 21 vezes mais calor do que o CO², e por isso o CO²e do metano é 21

Anualmente, o Observatório do Clima obtém dados sobre emissões junto ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, relatórios de instituições ligadas a outras pastas, centros de pesquisa, entidades setoriais e organizações governamentais e os sistematiza de acordo com diretrizes do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, uma entidade científica ligada à ONU.

A medição divide as emissões em cinco rubricas:  agropecuária, energia, mudanças de uso da terra, processos industriais e resíduos.

O aumento na produção brasileira de gases estufa ocorre apesar do recuo em 2016 de 3,6% no PIB (produto interno bruto), a soma de todas as riquezas produzidas no país.

Esse não é um fenômeno comum nos países industrializados. Geralmente, as emissões aumentam junto ao crescimento da economia, já que esta leva, por sua vez, a mais queima de combustíveis, seja no transporte, seja na produção industrial.

A maior parte da emissão de gases estufa do Brasil tem relação com a agropecuária e ocorre principalmente devido:

  • À devastação de florestas para dar espaço à atividade;
  • Aos gases emitidos pelo rebanho bovino durante os processos de digestão e de decomposição de suas fezes.

Isso posiciona o país no sétimo lugar do ranking mundial das emissões.

Mudanças de uso da terra

Essa rubrica diz respeito à forma como o solo está sendo aproveitado, com florestas, pastagens, áreas de mineração ou cidades, por exemplo.

Uma grande mudança na forma como o solo é aproveitado é a retirada de florestas para abrir espaço para plantações ou pastos. Quando as árvores são queimadas ou derrubadas e apodrecem, elas liberam, principalmente na forma de gases estufa, os átomos de carbono que estavam capturados em sua estrutura.

Em 2016, as emissões por mudança de uso da terra tiveram um aumento de 23% em relação a 2015. O Observatório do Clima destaca que isso ocorreu, em geral, pela retirada de florestas para dar espaço à agropecuária.

O maior impacto foi devido ao desmatamento da Amazônia, que, em 2015, atingiu 7.989 km². Assim como a emissão de gases estufa, esse é o maior índice desde 2008, o que é um indício de como os dois fenômenos — desmatamento da Amazônia e emissão de gases estufa pelo Brasil — estão interligados.

Nos gráficos abaixo, é possível ver como os padrões de crescimento e queda do desmatamento da Amazônia têm uma curva parecida com os da emissão de gases estufa.

O desmatamento da Amazônia e as emissões

 
 

51%

Das emissões brasileiras de 2016 vieram de mudanças no uso da terra

Atividade agropecuária

Essa rubrica teve aumento de 1,2% em emissões em 2016, quando descontado o impacto causado com as mudanças de uso da terra em prol da atividade.

Ironicamente, isso ocorreu, em grande parte, devido à desaceleração desse setor, que teve queda de 6,6% em seu PIB em 2016. Segundo o Observatório do Clima, com a crise econômica os abates bovinos tiveram um forte recuo pelo segundo ano consecutivo. Como mais vacas e bois sobreviveram, sua população chegou a 198 milhões naquele ano, um patamar inédito.

Assim como a população de cerca de 208 milhões de pessoas no Brasil, esses animais emitem gases estufa em seus processos digestivos, que são liberados pela flatulência e pelos arrotos. Além disso, a decomposição das fezes do rebanho também libera gases estufa.

O Observatório do Clima destaca que outra contribuição importante do setor agropecuário foi o aumento de 23% no consumo de fertilizantes nitrogenados, um tipo de fertilizante químico que emite óxido nitroso (N2O). Esse gás é muito mais capaz de capturar calor do que o CO².

22%

das emissões brasileiras de 2016 vieram da agropecuária, quando descontado o impacto do desmatamento para abrir espaço para a atividade

 

Energia

Foi o setor que teve a maior queda nas emissões em 2016, de 7,3% no total. Isso ocorreu principalmente devido à diminuição do consumo de combustíveis fósseis, como petróleo ou carvão natural, que havia crescido em 2015.

Naquele ano, a falta de chuvas diminuiu o nível de reservatórios de água principalmente no Sudeste, no que foi classificado como uma crise hídrica. Eles eram utilizados para gerar energia hidrelétrica, que é renovável. Para atender à demanda, o governo teve que substituir essa geração pela de termelétricas, que queimam combustíveis fósseis e emitem gases estufa que entram na conta do Observatório do Clima.

Com o aumento do nível de reservatórios, a geração de energia pelas termelétricas foi menos necessária e caiu 28%. Ela também foi acompanhada pelo crescimento da geração de energia eólica e da obtida via biomassa, que são renováveis.

19%

Da emissão de gases estufa brasileira vem da produção de energia

Resíduos

Essa rubrica mede as emissões geradas pela decomposição do lixo e pelo esgoto e teve uma redução de 0,7% em 2016.

Isso se deve à produção menor de lixo, que pode ser um resultado da desaceleração econômica — com consumo menor, menos lixo é produzido. O Observatório do Clima também aponta que a crise fiscal (queda de arrecadação devido à desaceleração econômica) fez com que prefeituras desacelerassem a substituição de lixões a céu aberto por aterros sanitários.

Esta destinação do lixo cobre os resíduos e cria as condições para que ele seja decomposto de forma mais eficiente, o que faz com que o carbono presente na estrutura dos resíduos seja liberado mais rapidamente, principalmente na forma de metano.

Ironicamente, a desaceleração de uma política que traz diversos benefícios ambientais e sociais no que diz respeito à destinação do lixo também desacelera a decomposição deste e, consequentemente, a produção de gases estufa.

4%

Das emissões brasileiras de 2016 vieram de resíduos

 

Processos industriais

Em 2016, o setor industrial teve uma queda de 3,8% em seu PIB. A redução da atividade industrial, por sua vez, levou à queda de 5,9% nas emissões de gases estufa. Esses gases não são apenas CO² e CO, mas também SF6 (hexafluoreto de enxofre, usado na produção industrial), HFCs (hidrofluorocarbonos, usados na refrigeração) e PFCs (perfluorcarbonos, usados em processos industriais)

4%

das emissões de gases estufa vieram em 2016 dos processos industriais

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