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Qual a mensagem da eleição argentina para Macri e Cristina Kirchner

Escolha de senadores e de deputados é vista como termômetro para disputa presidencial de 2019. Enquanto governismo celebra, oposição sai dividida

     

    As eleições legislativas na Argentina são tomadas como um termômetro da preferência do eleitorado para a eleição presidencial subsequente. Desde a redemocratização do país, em 1983, seis das sete eleições legislativas realizadas acabaram por antecipar o resultado da eleição presidencial imediatamente seguinte.

    Se a regra se mantiver assim, o atual presidente, Mauricio Macri – eleito pela primeira vez em dezembro de 2015 e provável candidato à reeleição em 2019 – parte para a disputa como o grande favorito, pois sua coligação governista, chamada Mudemos, recebeu a maioria dos votos nas legislativas realizadas neste domingo (22).

    Por outro lado, o resultado não é tão animador para a maior antagonista política de Macri, a ex-presidente Cristina Kirchner. Ela – que governou o país de 2007 a 2015, e sonha com voltar à Casa Rosada, sede do Poder Executivo argentino, em 2019 – conseguiu ser eleita para uma das três vagas abertas para o Senado pela província de Buenos Aires, mas, ao contrário do que esperava, terminou em segundo lugar.

    A eleição do domingo serviu para renovar um terço do Senado (24 dos 72 assentos) e metade da Câmara de Deputados (127 dos 257 assentos).

    78%

    Foi o percentual de comparecimento entre os 33 milhões de eleitores da Argentina

    Maioria governista não é absoluta

    Embora a coligação Mudemos, de Macri, tenha conquistado a maioria dos votos, tanto no Senado quanto na Câmara dos Deputados, essa maioria não é absoluta.

    Na Câmara, os 86 assentos governistas passaram agora para 107, o que corresponde a 41% do total de deputados. Os aliados de Cristina ficaram com 22% dos assentos. E os peronistas, que também fazem oposição ao presidente, ficaram com 15% do total. No Senado, o salto governista foi maior: de 9 assentos para 24, num total de 72.

    O peso da província de Buenos Aires

     

    A regra segundo a qual as eleições legislativas indicam os rumos da eleição presidencial seguinte se justifica por uma questão matemática. A província de Buenos Aires, a maior do país, concentra 40% do eleitorado nacional. Portanto, para onde ela pende, pende junto quase metade dos votos em disputa.

    Havia três vagas no Senado reservadas para candidatos da província de Buenos Aires. O candidato governista, Esteban Bullrich, foi o campeão de votos. Cristina ficou em segundo. Gladys González, do governista Mudemos, ficou com a terceira vaga.

    Bullrich teve 41% dos votos, contra 37% de Cristina. A diferença – de quatro pontos percentuais – foi celebrada na ala governista como um sinal de que o eleitorado da região da capital do país está do lado de Macri.

    Outro ex-presidente derrotado foi Carlos Menem. Ele disputava um novo mandato no Senado pela província de La Rioja. Menem presidiu a Argentina de 1989 a 1999, e, desde 2005, era senador por essa província do noroeste da Argentina.

    Reflexos imediatos na economia

    Divulgados os resultados, o risco país, que mede a confiança de investidores no ambiente econômico, chegou ao nível mais baixo dos últimos dez anos na Argentina. Desde 2016, primeiro ano do governo Macri, esse índice caiu 26,6%.

    No primeiro dia de funcionamento da Bolsa após a eleição, o dólar registrou queda de 0,18 centavos de peso. A variação positiva do peso argentino é interpretada como um sinal de confiança das pessoas no caminho econômico representado por Macri.

    O que Cristina e Macri representam

    O atual presidente, Maurício Macri, e sua antecessora Cristina Kirchner ocupam polos diametralmente opostos do espectro político-ideológico argentino.

    Cristina tem vida política própria. Além de presidente da Argentina, ela também foi senadora por três mandatos, deputada nacional uma vez e deputada provincial uma vez também. Entretanto, ganhou densidade nacional como herdeira política e sucessora na presidência de seu próprio marido, Néstor Kirchner, que governou a Argentina de 2003 até 2007 (ele viria a morrer em 2010).

    O “kirchnerismo” se converteu numa expressão argentina de outros movimentos de esquerda que se desenvolviam paralelamente na América do Sul no mesmo período – sobretudo na primeira década dos anos 2000 –, em países como Venezuela, Bolívia e Equador, principalmente, mas também no Chile, no Uruguai e no Brasil.

    Macri é o exato oposto do “kirchnerismo”. Ele defende um modelo liberal da gestão da economia, com o enxugamento do papel do Estado na sociedade.

    Desde que foi eleito, Macri passou a liderar publicamente os esforços para penalizar o governo venezuelano nos órgãos regionais, por acusação de que o presidente Nicolás Maduro havia convertido o próprio país numa ditadura. Ele também faz do enfrentamento à esquerda argentina um discurso de limpeza ética, contra a corrupção.

    Antes da presidência, Macri ocupou os cargos de deputado e de prefeito da cidade de Buenos Aires, além de presidente do Boca Juniors, uma das equipes de futebol mais populares do país.

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que Néstor Kirchner morreu em 2007, quando na verdade foi em 2010. A informação foi corrigida às 12h32 de 27 de setembro de 2018.

     

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