Foto: Juliana Domingos de Lima

Duas das três Guerrilla Girls que passaram por São Paulo no fim de setembro, em coletiva de impresa no museu

Em atividade desde a década de 1980, o coletivo americano de artistas e ativistas Guerrilla Girls vem produzindo cartazes que citam nominalmente quais galerias, museus e eventos não expõem um número significativo de obras feitas por artistas não brancos e mulheres. 

Elas partem de uma pesquisa extensiva das coleções e exposições e usam a apresentação de muitos dados, além do humor e da ironia, como estratégias. 

Quando começaram, esses pôsteres, destinados a constranger e apelar para o senso de responsabilidade de instituições e artistas coniventes com a manutenção da falta de diversidade no meio da arte, eram colados pelas ruas de Nova York. Atualmente, seu trabalho migrou em grande parte para a internet, onde exercem presença ativa pelas redes sociais.   

O ativismo do coletivo não se restringe a uma crítica do domínio dos homens brancos nas artes visuais: passa também por questões de diversidade, misoginia e objetificação feminina no cinema, no teatro, nos videoclipes, aponta o dedo para figuras de Hollywood e da política americana.

Foto: Guerrilla Girls/Reprodução

Foto: Guerrilla Girls /Reprodução

Foto: Gerrilla Girls /Reprodução

Foto: Guerrilla Girls /Reprodução

Foto: Guerrilla Girls /Reprodução

 

Vestindo suas indefectíveis máscaras de gorila, que confirmam na aparência a ferocidade de seus cartazes e as mantêm anônimas, as artistas estiveram em São Paulo no final de setembro para a abertura da exposição “Guerrilla Girls - Gráfica (1985-2017)”, uma retrospectiva completa de seu trabalho no Masp, o Museu de arte de São Paulo. As identidades das artistas não são conhecidas: elas usam, como pseudônimos, nomes de grandes artistas mulheres da história da arte.

No museu de São Paulo, elas receberam carta branca para fazer um levantamento da coleção, como já fizeram em várias outras instituições pelo mundo. A partir dos dados que reuniram, reeditaram, em português, uns de seus cartazes mais famosos, que falava, originalmente, do Museu Metropolitan, de Nova York.

Foto: Guerrilla Girls /Reprodução

Cartaz de 2017 feito especialmente para a exposição no Masp
 

As Guerrilla Girls responderam a quatro perguntas do Nexo sobre sua trajetória e como a diversidade na arte avançou (e não avançou) desde que iniciaram seu trabalho. A exposição fica no Masp até 14 de fevereiro de 2018.

O que estava acontecendo no mundo da arte em 1985 que fez com que vocês entrassem em ação?

Guerrilla Girls Em resumo, o Museu de Arte Moderna [de Nova York] abriu uma exposição chamada “An International Survey of Painting and Sculpture” (Um panorama internacional da pintura e escultura, em tradução livre) na qual havia menos de 17 mulheres entre quase 200 artistas, e um número ainda menor de artistas não brancos. Sabíamos que não poderia ser um panorama completo da arte mundial com tantos homens brancos e tão poucas mulheres e artistas não brancos. Então nos comprometemos a encontrar novas maneiras de fazer as pessoas pensarem sobre o racismo e o sexismo no mundo da arte. 

De lá para cá, o que mudou?

Guerrilla Girls A consciência de artistas críticos e acadêmicos mudou e ninguém defenderia abertamente hoje a discriminação. No entanto, se você olhar para as estatísticas de quem é exibido em galerias e colecionado por grandes museus, a maioria esmagadora ainda são homens brancos. O mercado de arte está muito atrasado. Há também o tokenismo [um termo da militância que significa incluir falsamente uma minoria historicamente discriminada para usá-la como troféu].

As instituições acham que se colecionarem ou exporem uma mulher ou um artista não branco, resolveram o problema. Uma não é suficiente! E há um teto de vidro esmagador para além do qual mulheres e artistas não brancos raramente têm permissão de ir. E há a desigualdade de renda. Trabalhos das artistas mulheres que mais vendem custam em torno de 17% dos preços pagos pelos artistas homens mais vendidos.

Vocês tradicionalmente usam muitos dados no seu trabalho. Qual a razão disso? Como era obter esse tipo de informação dos museus e galerias quando vocês começaram?

Guerrilla Girls Se você diz algo escandaloso para chamar a atenção das pessoas e sustenta isso com informação, é difícil ignorar. Costumava levar muito tempo para fazer um levantamento das coleções e obter informações sobre as vendas de leilões [de arte]. Mas hoje com a internet, é muito mais fácil. O que levava dias agora leva apenas algumas horas. O grande segredo agora ainda são os preços pagos por obras de arte em galerias. Nos EUA, não há regulamentação das vendas de obras de arte e não há registros públicos oficiais de vendas multimilionárias. Como é que o público pode realmente saber quanto vale o trabalho quando tudo é um mistério?

Em mais de um dos seus pôsteres, vocês também criticam a resposta dada pelas instituições às suas críticas, transformando mulheres, pessoas negras e outras minorias em tokens de diversidade. Vocês veem isso acontecer hoje? Como lidar com isso?

Guerrilla Girls Não é fácil. Quando realizamos um projeto em um museu, normalmente pedimos para examinar sua coleção e exigimos a liberdade de fazer o que quisermos com essa informação. Temos que tomar cuidado para não sermos usadas por uma instituição para praticar “whitewashing” [embranquecimento] em suas coleções e exposições.