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Em 2016, um outro vídeo da marca mostrou mulheres praticando esportes. A propaganda trazia a frase 'Nenhum sangue deve nos deter'

Em propagandas de marcas de absorvente, um fluido azul tradicionalmente representa quanto sangue menstrual o produto consegue absorver sem vazar.

A marca Bodyform, do Reino Unido, é a primeira naquele país a decidir usar um líquido vermelho, cor de sangue, para representar a capacidade de seus absorventes.

A justificativa é confrontar o tabu existente em torno da menstruação. Na terça-feira (17), a Bodyform lançou a campanha #bloodnormal (sangue normal, em tradução livre) em um vídeo, no qual, além do líquido vermelho no absorvente, filetes avermelhados aparecem escorrendo das pernas de uma mulher no banho. No final, sobre um fundo vermelho-sangue, aparece a frase “Menstruar é normal. Mostrar também deveria ser”.

 

De acordo com uma pesquisa on-line conduzida pela marca com a participação de cerca de 10.000 mulheres e homens entre 13 e 50 anos, residentes de 10 países diferentes, 74% das pessoas quer ver uma representação mais realista da menstruação na publicidade.

Em 2016, um outro vídeo publicitário da Bodyform mostrou mulheres praticando esportes como boxe, escalada e corrida, sujas de sangue, suor e lama. A propaganda trazia a frase “Nenhum sangue deve nos deter”.

Como o tabu prejudica as mulheres

No livro "Sangue, Fertilidade e Práticas Contraceptivas", da antropóloga Ondina Fachel Leal, pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a autora fala sobre a repulsa sentida por muitas mulheres em relação ao seu próprio sangue menstrual, enquanto o sangue de um ferimento não provoca a mesma repulsa ou nojo.

“Há um estranhamento em relação ao cheiro e ao estado desse sangue, que é identificado como ‘forte’, ‘nojento’, ‘grosso’, ‘pastoso’”, destaca Ondina. Para a autora, isso indica a não-identificação do sangue menstrual como uma substância própria da mulher, algo dissociado do próprio corpo.

O silêncio que cerca o sangue menstrual - e mesmo outros tipos de sangramento vaginal - prejudica a saúde das mulheres e pode afetar a forma como elas lidam com o ciclo no contexto de suas atividades cotidianas, como é o caso das alterações no desempenho de atletas mulheres durante a menstruação, por exemplo.

Para as atletas, o constante medo do vazamento atrapalha a concentração e ainda há o desconforto físico causado por sintomas como cólicas e inchaço dos seios. “É importante que o esporte entenda e seja sensível aos potenciais impactos do ciclo menstrual nas mulheres atletas. Esse não é um assunto que deveria ser tabu” disse Ruth Holdaway, diretora-executiva da organização Woman in Sport, ao jornal britânico The Guardian.

Com relação ao impacto do tabu sobre a saúde ginecológica das mulheres, falar sobre, ter acesso à informação e trocar experiências é fundamental para saber diferenciar sangramentos saudáveis de sangramentos anormais, causados por doenças como endometriose e câncer de colo de útero.

Em entrevista concedida em agosto ao Nexo, a pesquisadora americana Marni Sommer, professora assistente do departamento de “Sociomedical Sciences” (ciências sociomédicas, em uma tradução livre) da Universidade de Columbia, de Nova York, defende a importância de que a menstruação seja cada vez mais discutida e representada na mídia e nas redes sociais para quebrar o silêncio sobre o assunto.

Segundo um estudo conduzido por Sommer, meninas que vivem em países de renda média e baixa “frequentemente não são informadas sobre a menarca [primeira menstruação] antes do primeiro episódio de sangramento, e estudos destacaram as concepções erradas e a vergonha encobrindo a menstruação em muitas sociedades, o medo e ansiedade que as garotas experimentam na menarca e ao menstruar na escola. Mesmo quando a chegada da menstruação é celebrada, elas são ensinadas a esconder e lidar com a menstruação discretamente”.