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Como Toronto planeja construir uma cidade-modelo ‘a partir da internet’

Google e governos fecham acordo para desenvolver novo bairro ‘do zero’ focado em sustentabilidade e uso da tecnologia para resolver problemas presentes em grandes metrópoles

    Uma cidade modelo, que usa a internet e a tecnologia para resolver todos os grandes problemas que afligem as grandes metrópoles ao redor do mundo, irá surgir “do zero” em uma área pouco desenvolvida de Toronto, no Canadá.

    Ela será fruto de uma parceria entre o governo local, o governo nacional canadense e a empresa Sidewalk Lab — braço de inovação urbanística da Alphabet, dona do Google.

    O grupo pretende utilizar a zona leste da orla do lago Ontário para construir Quayside, uma comunidade de aproximadamente 3 km² para “criar um novo tipo de comunidade urbana” que “será um exemplo para o resto do mundo em como construir cidades que terão impacto no nosso futuro”, disse Meg Davies, chefe de desenvolvimento do projeto.

    O anúncio da parceria foi feito na terça-feira (17) pelos principais políticos e empresários envolvidos. Entre eles, o primeiro-ministro canadense Justin Trudeau e o CEO da Sidewalk Labs, Dan Doctoroff.

    O empresário era o secretário de desenvolvimento econômico de Nova York quando a cidade desenvolveu projetos importantes como o parque High Line e a reconstrução do World Trade Center, entre 2001 e 2008.

    A ideia de espaço urbano ideal

    Governantes e empresários pretendem fazer de Quayside um espaço urbano que combine “o melhor do design urbano com o que há de mais avançado em tecnologia digital” para resolver problemas presentes em grandes cidades. Doctoroff citou a urbanista Jane Jacobs como principal inspiração para o projeto.

     

    Entre tais questões, o projeto destaca o uso sustentável da energia, o preço das moradias e a mobilidade. Para resolvê-las, a ideia é usar a internet e a conectividade como ponto basilar do funcionamento da comunidade. Com todos os serviços conectados à rede, o governo local terá, em teoria, capacidade de melhorar constantemente os serviços.

    Daí vem a frase que é uma espécie de lema do grupo: “reimagining cities from the internet up”, ou reimaginando cidades a partir da internet.

    Para resolver o problema dos altos preços de aluguel, o projeto propõe “construções adaptáveis e novos métodos de construção” mais baratos, dando a entender que deve priorizar os prédios de uso misto, comercial e domiciliar.

    As questões de mobilidade e segurança devem ser trabalhadas com um espaço público “acolhedor” para “receber famílias de dia e de noite”, criando uma “comunidade com laços fortes”, sendo que o desenho das ruas deve ser “centrado nas pessoas” com uma ampla gama de opções de mobilidade que coloca o carro como meio de transporte menos conveniente.

    US$ 1 bilhão

    é o custo total estimado para o projeto e que será dividido entre empresa e governo, segundo o The Wall Street Journal

    Além disso, ao se colocar como um polo de inovação para soluções urbanísticas, Quayside pretende atrair investidores, startups e centros de pesquisa acadêmica, além de incentivar a criação de organizações comunitárias, para permitir o surgimento de propostas “de baixo para cima” para resolver as grandes questões da comunidade.

    Tudo isso pautado no uso extensivo de dados e tecnologia digital. Os envolvidos no projeto garantem, contudo, que a proteção da privacidade dos futuros moradores da área será um aspecto central no modelo.

    Como o projeto vai sair do papel

     

    A parceria entre Sidewalk Lab e governo do Canadá surgiu a partir de um edital lançado em conjunto pelos governos nacional e local, convocando empresas interessadas em desenvolver um bairro tecnológico e atraente para empresas focadas em inovação urbana.

    O primeiro passo será a transferência da sede canadense do Google para a região de Quayside. Toronto já é conhecida como uma das cidades mais inovadoras no mercado de tecnologia, ao lado do Vale do Silício, na Califórnia, EUA.

    A atual área de Quayside tem apenas 48,5 mil m², e ela será o primeiro espaço de desenvolvimento da nova comunidade. A ideia é, aos poucos, expandir a renovação para toda a região portuária de Toronto. Abaixo, uma reprodução do mapa do projeto que destaca a área inicial (Quayside) e a total (Port Lands).

    Mapa do projeto

     

    Uma reunião na prefeitura local foi marcada para o dia 1º de novembro. Ela faz parte de uma série de encontros planejados para criar uma relação entre comunidade e líderes governamentais e empresariais do projeto, seguindo a linha de construir um bairro “de baixo para cima”.

    Não está claro, contudo alguns detalhes como quantas pessoas devem morar no bairro, qual o valor médio pretendido para as moradias e quando o projeto completo estará pronto.

    As críticas ao modelo de cidades inteligentes

     

    Dados pessoais que circulam pela internet são tratados como “a principal commodity do mundo” por publicações como a revista inglesa The Economist, em razão de seu valor de mercado e o poder que a análise dessa big data fornece a quem as controla.

    Alphabet, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft têm na coleta de dados pessoais a chave de seus negócios, de acordo com a revista. Nesse contexto, o surgimento de planos de cidades controladas por grandes empresas de tecnologia é visto com desconfiança por muitos especialistas envolvidos com o debate do desenvolvimento de cidades inteligentes.

    Um deles é o urbanista e escritor americano Adam Greenfield, que escreveu em 2013 uma espécie de manifesto chamado “Contra a Cidade Inteligente”.

    Segundo Greenfield, o uso de big data para o desenvolvimento de políticas públicas parte do princípio que o mundo é uma realidade dada e não interpretável. Nesse sentido, a ciência fria dos números seria a ideal para guiar o processo decisório governamental. Para ele, este argumento é uma falácia: “observar o comportamento de um sistema é intervir” neste sistema, escreveu.

    “A entrega da administração municipal para uma ferramenta algorítmica [...] parece depositar uma quantidade indevida de confiança no partido responsável pela criação do algoritmo”

    Adam Greenfield

    Urbanista e escritor

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