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O que há contra Harvey Weinstein, poderoso de Hollywood acusado de assédio

Denúncias de violência sexual contra atrizes e modelos remontam a quase três décadas

     

    Depois de ser demitido da empresa que ele próprio criou, o produtor de Hollywood Harvey Weinstein, fundador da Weinstein Company e da Miramax (empresas líderes de produção e distribuição cinematográfica nos EUA), também deixou de fazer parte, no sábado (14) da Academia americana de cinema, organização responsável pelo Oscar. As represálias são consequência de uma série de denúncias de assédio sexual e estupro contra Weinstein feitas por mulheres do meio cinematográfico e que vieram à tona a partir do dia 5 de outubro.

    Segundo a investigação feita pelo jornal The New York Times, os episódios de assédio vêm acontecendo há quase três décadas. Atrizes muito conhecidas, como Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow, se manifestaram publicamente dizendo terem sido assediadas por Weinstein no início da carreira.

    Funcionários e ex-funcionários da produtora de Weinstein, de assistentes a altos executivos, estavam cientes do comportamento do chefe, segundo o New York Times. Mas faziam vista grossa, pelo mesmo motivo que manteve as vítimas em silêncio até o presente: o medo da retaliação vinda de uma das figuras mais poderosas da indústria cinematográfica.

    “Nós mulheres falamos sobre Harvey entre nós há muito tempo, e já passou da hora de ter essa conversa publicamente”, disse a atriz Ashley Judd em entrevista ao jornal. Há 20 anos, o produtor convidou Judd a encontrá-lo num hotel.

    A expectativa da jovem atriz era um café da manhã profissional, mas, segundo Judd, ele solicitou que ela subisse até o quarto, onde foi recebida por Weinstein de roupão: ele propôs fazer uma massagem nela ou que a atriz o assistisse tomando banho. Dezenas de mulheres compartilham desse relato. Em troca, Weinstein frequentemente oferecia usar de sua influência para alavancar a carreira de jovens atrizes e modelos.

    Weinstein declarou ao New York Times na quinta-feira (5) que reconhece o dano causado a colegas por seu comportamento, pediu perdão e disse estar tentando melhorar. Lisa Bloom, uma das advogadas que o aconselham, entretanto, afirma que, segundo ele, muitas das acusações são falsas.

    Uma outra longa reportagem, resultante de uma investigação de dez meses feita pelo jornalista Ronan Farrow, foi publicada no dia 10 de outubro pela revista The New Yorker. O texto conta com relatos de 13 vítimas de Weinstein.

    Eu também

    Outro desdobramento do caso Weinstein é a onda de compartilhamentos, por meio da hashtag #MeToo (eu também), de relatos de assédio.

    A hashtag se espalhou pelas redes sociais entre os dias 14 e 15 de outubro e seu propósito é combater a culpabilização de mulheres vítimas de assédio, mostrando que qualquer mulher, independentemente de seu comportamento ou aparência, corre o risco de ser assediada sexualmente.  

    Dizendo-se inspirada pela hashtag, a cantora e compositora islandesa Björk se manifestou no dia 15 de outubro, em sua página no Facebook, sobre sua experiência com “um diretor dinamarquês”. Segundo ela, a indústria permite a um cineasta que toque e assedie as atrizes com quem trabalha – o diretor em questão a tocava e acariciava sem seu consentimento, além de fazer propostas sexuais durante as filmagens. A acusação era direcionada ao cineasta Lars Von Trier, que negou

    As provas

    A investigação conduzida pelo New York Times se funda em entrevistas com profissionais da indústria, funcionários e ex-funcionários das empresas controladas por Weinstein, e registros legais, e-mails e documentos internos da Miramax e Weinstein Company.

    Entre os documentos acessados pelo jornal americano está um memorando produzido em 2015 pela executiva Laura O’Connor a respeito dos episódios de assédio e outros comportamentos inadequados de Weinstein no âmbito profissional. O material fazia um levantamento da conduta de Weinstein ao longo de dois anos e foi endereçado a outros executivos da Weinstein Company.

    O’Connor afirmava que o ambiente da empresa era tóxico para as mulheres e que o desequilíbrio de poder entre Weinstein e suas vítimas era enorme. A partir dos anos 1990, o produtor fez acordos para silenciar as acusações.

    Também em 2015, a polícia de Nova York chegou a montar uma operação para pegar o produtor em flagrante após a modelo italiana Ambra Battilana tê-lo acusado de apalpá-la, segundo uma reportagem do site Daily Beast. Battilana, que foi ao encontro de Weinstein com um gravador escondido, se assustou e desistiu. Uma conversa em que ele tenta coagi-la a ir ao seu quarto de hotel, no entanto, foi gravada e divulgada em 2017. 

    Se fosse julgado, Weinstein poderia cumprir de cinco a 25 anos de prisão pelas acusações recentes de assédio sexual, segundo uma reportagem do jornal The Guardian. Mas, segundo juristas consultados pela publicação, o mais provável é que promotores relutem em levar o caso ao tribunal, uma vez que a condenação poderia se mostrar difícil de conseguir. 

    O caso Bill Cosby

    A escolha de mulheres jovens e vulneráveis, em início de carreira, o uso do poder e da influência, a onda de denúncias que se seguiu às primeiras acusações e as vítimas numerosas, caladas por décadas temendo retaliação, lembram o caso de Bill Cosby, comediante acusado de drogar e estuprar dezenas de mulheres desde a década de 1960.

    A primeira queixa formal contra ele foi prestada em 2000, e Cosby foi a julgamento em junho de 2017. Após mais de 50 horas de deliberação, o júri não conseguiu chegar a um veredicto e o processo foi anulado.

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