Como redes de paquera viabilizam mais casais inter-raciais, segundo esta pesquisa

Proporção de casamentos do tipo aumenta desde 1967, mas há indícios de que ela foi impulsionada por redes sociais, diz pesquisa

     

    Redes sociais de paquera como Match.com (criado em 1995), OKCupid (2004) e Tinder (2012) podem ter um papel central na vida amorosa de seus usuários ao viabilizar encontros que de outras maneiras não ocorreriam. Agora, alguns trabalhos acadêmicos têm buscado entender como esses canais de cortejo têm alterado a composição racial dos casamentos na sociedade americana, um dos aspectos da integração social no país.

    Segundo uma pesquisa publicada em 2013 na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, baseada nas respostas de 19.131 americanos que se casaram entre 2005 e 2012, um terço desses relacionamentos havia começado on-line, e não em  circunstâncias tradicionais, como em bares, no trabalho, em instituições de ensino, ou via interações promovidas por amigos em comum.

    Em um trabalho publicado em outubro de 2017 na plataforma acadêmica ArXiV, os pesquisadores Josué Ortega, da universidade britânica de Essex, e Philipp Hergovich, da universidade de Viena, investigaram se era possível enxergar um aumento nos relacionamentos inter-raciais nos Estados Unidos. O trabalho se chama “A força de laços ausentes: integração social via encontros on-line”.

    “Nós descobrimos que quando uma sociedade se beneficia de laços que anteriormente eram inexistentes, a integração social ocorre rapidamente, mesmo se o número de parceiros que se conheceram on-line for pequeno. Nossas descobertas são consistentes com o aumento agudo em casamentos inter-raciais nos Estados Unidos nas últimas duas décadas”

    “A força de laços ausentes: integração social via encontros on-line”

    Internet viabiliza contatos que não ocorreriam sem ela

    Os pesquisadores escrevem que levantaram a hipótese de que haveria mais relações inter-raciais pela internet porque essa ferramenta permite que “perfeitos estranhos”, ou seja, indivíduos sem nenhum tipo de contato social prévio, se conectem entre si.

    Os pesquisadores ilustram esse ponto com o gráfico abaixo, que mapeia a rede de relações do Facebook de um dos autores do estudo –não é especificado qual dos dois. Os triângulos amarelos representam parceiros amorosos que ele conheceu em sua vida offline.

    Esses triângulos estão em geral imersos nas redes de relacionamentos do pesquisador, ou seja, fazem parte de uma “cena” específica à qual ele já tem acesso, com ou sem redes sociais de paquera.

    Foto: Reprodução
    Mapeamento das relações sociais e parceiros amorosos de pesquisador
    Mapeamento das relações sociais e parceiros amorosos de pesquisador
     

    As estrelas vermelhas, por outro lado, representam parceiros amorosos conhecidos via internet. Elas estão afastadas das redes sociais habituais do pesquisador, o que indica que é improvável que ocorressem se não fosse pelas redes sociais.

    Hipoteticamente, as novas possibilidades criadas pelas redes sociais de paquera poderiam levar, nos Estados Unidos, à quebra de barreiras que remontam ao período da segregação racial oficializada, que é, por sua vez, um desdobramento da escravidão. O casamento entre pessoas de grupos raciais distintos só foi assegurado pela Suprema Corte do país em 1967.

    Assim como ocorre no Brasil, ainda hoje é comum que pessoas de diferentes grupos raciais vivam em bairros e frequentem instituições que são, na prática, consideravelmente segregadas racialmente, o que diminui as possibilidades de interações inter-raciais mais profundas.

    Simulando computacionalmente a formação de casais

    Os pesquisadores utilizaram simulações computacionais para verificar o impulso dado pelas redes sociais às relações inter-raciais.

    Eles criaram um modelo computacional formado por mulheres e homens de raças diferentes distribuídos aleatoriamente. Nesse modelo, os indivíduos são heterossexuais e preferem casar com alguém do sexo oposto em vez de ficar sozinhos, mas isso só é possível quando há uma conexão entre eles, que pode ser direta ou intermediada por um outro indivíduo da rede social da simulação.

    Como as ligações já estabelecidas tendem a ser entre pessoas dos mesmos grupos raciais, isso levou inicialmente a uma quantidade baixa de casamentos inter-raciais.

    Os pesquisadores adicionaram, então, ligações aleatórias entre os participantes, que antes eram inexistentes, simulando a influência exercida pelas redes sociais.

    Em seguida, compararam quantos relacionamentos inter-raciais a mais são formados nessa sociedade expandida, e concluíram que “nosso modelo prevê uma integração racial quase que completa a partir da emergência da paquera on-line, mesmo quando o número de parceiros que os indivíduos encontram a partir de laços recém-formados é pequeno”.

    A pesquisa realizou simulações em que os indivíduos não têm preferências raciais e simulações em que há uma preferência por pessoas da mesma raça, algo que, segundo os pesquisadores, “é frequentemente observado na realidade”.

    Em ambos os casos o modelo mostrou que redes sociais levaram a aumento na diversidade das sociedades.

    O que os dados demográficos dizem

    Em seguida, o trabalho analisou dados demográficos americanos em busca de indícios de que a internet está impulsionando casamentos inter-raciais, e concluiu que as previsões das simulações “são consistentes com tendências demográficas observadas”.

    O número de casamentos miscigenados cresceu com consistência entre 1967 e 2015 nos Estados Unidos, mas houve uma aceleração nas relações do tipo a partir de 1995, quando os primeiros sites de relacionamento, como Match.com surgiram. Esse ritmo voltou a se acelerar em 2004, quando serviços mais populares, como OKCupid, vieram à tona.

    “Durante os anos 2000, o percentual de novos casamentos que são inter-raciais subiu de 10,68% para 15,54%, um enorme aumento de quase cinco pontos percentuais, ou de 50%”, diz o trabalho. 

    Em 2014 há um novo salto, para 17,24%, um patamar que se manteve no ano seguinte. “Novamente, é interessante notar que esse aumento ocorre pouco depois da criação do Tinder, considerado o aplicativo de paquera on-line mais popular”.

    Os pesquisadores destacam que há outros fatores que podem contribuir para esse aumento dos relacionamentos inter-raciais. Entre eles está o fato de que a proporção de brancos na população dos Estados Unidos caiu de 83,1% para 72,4% entre 1980 e 2010. Com uma hegemonia menor, é de se esperar que mais brancos se casem com pessoas de outros grupos raciais.

    Isso não pode, no entanto, explicar todo o fenômeno, afirma a pesquisa. A população negra foi a que mais teve aumento de relacionamentos inter-raciais no período, de 5% em 1980 para 18% em 2015, e isso ocorreu apesar de sua proporção da população americana ter se mantido constante, em 12%. Ou seja, a mudança da composição populacional pode não ter sido um fator tão forte no sentido de impulsionar negros a procurarem parceiros de outros grupos.

    O trabalho conclui que, apesar das limitações do modelo empregado, os resultados sugerem que “a diversidade das sociedades, [quando] medida pelo número de casamentos inter-raciais, deve aumentar drasticamente após a introdução da paquera on-line”.

     

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