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Chiquinha Gonzaga: pioneira da música popular, contra todas as convenções

Nascimento da compositora, maestrina e pioneira marca o Dia da Música Popular Brasileira; ouça playlist com 10 músicas para conhecer sua obra

Temas

No calendário oficial de efemérides do Brasil, há (desde 2012) uma data dedicada especialmente à música popular brasileira. O dia, 17 de outubro, marca o aniversário daquela que é tida como a primeira compositora brasileira que se tem registro, bem como a primeira maestrina.

A homenagem a Chiquinha Gonzaga, nascida há 170 anos, e seu pioneirismo se justifica pelo papel que teve na construção da noção do popular na música – produzida por e para brasileiros em uma época, entre o Império e a República Velha, que a cultura enaltecida era a que vinha de fora. É ela a autora de “Ó abre alas”, um clássico carnavalesco de 1899 tocado repetidas vezes em fevereiros desde então.

Filha do militar José Basileu Neves Gonzaga e de Rosa de Lima Maria – filha alforriada de escravos –, Chiquinha teve uma formação tradicional de uma jovem dama do meio urbano daqueles tempos. Educada em casa, no Rio de Janeiro, teve aulas de piano ainda muito nova.

Aprendeu a compor e a reger e, assim, transitou do erudito para as produções populares. Fez polcas, maxixes, tangos, valsas e choros – como “Atraente”, sua composição de estreia tocada por diversos chorões depois dela – para bailes de salão, carnaval, musicais e peças de teatro.

Casou-se, mas também se divorciou quando achou que devia, teve filhos, viveu a boêmia carioca, causou polêmicas, contrariou os bons costumes e morreu numa quinta-feira de pré-Carnaval, em 1935, aos 87 anos.

As desobediências de Chiquinha

A biógrafa Edinha Diniz, autora de “Chiquinha Gonzaga: uma história de vida”, chama a artista de “libertária da música popular”, que usou a desobediência para “contestar um poder que a esmagava”. “Não era muito diferente desobedecer um pai, um marido ou uma norma imposta. Ao mesmo tempo que se libertava, ela libertava a música”, escreveu Diniz.

“Contrariamente a muitos compositores da época, ela foge à alienação dominante. A sua obra distingue-se pela observância do que a rodeia, da captação do que é próximo e desta forma produz com originalidade, dando à música um toque brasileiro.”

Edinha Diniz

Autora de ‘Chiquinha Gonzaga: uma história de vida’

Abaixo, quatro momentos que ilustram a personalidade combativa da compositora. No final deste texto, o Nexo preparou uma playlist com o essencial da produção de Chiquinha Gonzaga – que passa de 2.000 composições próprias.

Casamento e separação

Aos 16 anos de Chiquinha Gonzaga, o pai militar decidiu que a filha deveria se casar e, fato não raro, escolheu seu futuro marido, o rico dono de terras Jacinto Ribeiro do Amaral. A jovem, no entanto, não abandonou sua rotina de aprendizado com o piano, o que irritava o cônjuge, ao que ela teria lhe dito: “Pois, senhor meu marido, eu não entendo a vida sem harmonia”.

Chiquinha, então, se envolveu com um engenheiro chamado João Batista de Carvalho, com quem teve uma filha. Jacinto Amaral descobriu e moveu uma ação judicial contra a pianista alegando abandono do lar e adultério. Chiquinha chegou a se defender acusando o ex-marido de maus tratos e dizendo que se abandonou seu lar foi para “procurar onde vivesse em paz”.  

Em 1875, Chiquinha foi condenada, o caso virou escândalo, a compositora perdeu a guarda de dois dos três filhos que teve com Jacinto e virou motivo de vergonha para os pais. Sozinha, passou a dar aulas de piano e com o dinheiro criou seu filho mais velho, João Gualberto.

Popular na alta sociedade

A produção de Chiquinha Gonzaga para o teatro, “o mais importante meio de divulgação da produção popular” na época, segundo Edinha Diniz, foi vasta. Adentrar os espaços de espetáculos da capital na posição de autora, no entanto, não foi tarefa simples. Peças como “Viagem ao Parnaso” (1883) e “Festa de São João” (1884) chegaram a ser recusadas por empresários contrários à ideia de fomentar a produção teatral de uma mulher.

Gonzaga não desistiu e continuou compondo peças para teatro musicado. Em 1885, estreia a peça “A corte na roça”, com oito músicas de sua autoria. Três anos depois, para a peça “A Filha do Guedes”, faz a regência da orquestra, um feito inédito. Indo ainda mais longe, em espétaculo no histórico Teatro São Pedro (João Caetano, atualmente), no Rio de Janeiro, a (então) maestrina executa composição para violão contando com a participação de uma centena de tocadores. O instrumento, associado a malandros, não era bem visto pela alta sociedade da época.

Em relação ao instrumento, é também famoso o caso que envolveu a amiga de Chiquinha Gonzaga Nair de Teffé, esposa do Marechal Hermes da Fonseca e primeira-dama durante seu mandato, entre 1910 e 1914. Consta que em evento no Palácio do Catete, Nair tenha tocado o tango “Gaúcho” ou “Corta-Jaca”, uma composição da amiga pianista.

A execução de uma canção popular em plena sede do governo republicano provocou fúria no então senador Rui Barbosa. Na tribuna, o parlamentar atacou Fonseca e chamou a música de a “mais baixa, a mais chula, a mais grosseira de todas as danças selvagens, a irmã gêmea do batuque, do cateretê e do samba”.

Fim da escravidão

Chiquinha nasceu e viveu até seus 41 anos de idade no Brasil sob o regime da escravidão. No Brasil a abolição só veio em 1888 – foi o último país da América a decretá-la. A artista dedicou parte do seu trabalho ao tema. Associou-se a figuras importantes do movimento abolicionista como José do Patrocínio e participou de festivais artísticos que buscavam arrecadar fundos para o financiamento de alforrias.

De acordo com a sua biógrafa, como ativista, Gonzaga fez de tudo: varreu teatro, pregou cartazes, organizou leilões em quermesses, chegando a vender partituras em nome da causa. Ficou conhecido o episódio em que vendeu os direitos de uma de suas músicas e usou o dinheiro para comprar a alforria de um músico negro escravizado chamado Zé Flauta. O fato aconteceu em 1888, meses antes de a Lei Áurea receber a rúbrica imperial.

“Razão humanista à parte, a causa atraía a compositora que se servia dela para condenar o atraso social. Dessa forma ela podia assumir publicamente sua revolta contra uma ordem que a condenava.”

Edinha Diniz

Autora de ‘Chiquinha Gonzaga: uma história de vida’

Direitos de autora

Entre 1902 e 1909, Chiquinha Gonzaga fez diversas viagens à Europa, visitando países como Portugal, onde chegou a executar peças musicadas. De volta ao Brasil, passa a organizar um movimento com autores e produtores de teatro em prol da defesa de direitos sobre suas obras.

Assim, em 1917, foi fundada a SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais), sendo esta a entidade pioneira de defesa de direitos autorais no país. Chiquinha Gonzaga compôs para cerca de 77 peças de teatro, coisa que seguiu fazendo até o final de sua vida, em 1935, aos 87 anos, sendo a última uma seleção de músicas para a peça “Maria”, de Viriato Corrêa.

10 músicas para conhecer Chiquinha Gonzaga

Abaixo, uma lista de músicas populares da compositora e maestrina, que passam por valsas, choros e maxixes para carnaval.

 

ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto dizia que a abolição da escravatura no Brasil ocorreu em 1988, quando na verdade foi em 1888. A informação foi corrigida às 10h10 de 18 de outubro de 2017.

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