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Como a União Soviética mapeou detalhadamente o mundo, segundo este livro

Livro 'The Red Atlas', lançado em outubro nos EUA, reúne exemplos e relata histórico de programa de mapeamento pelos soviéticos

    Durante boa parte do século 20, a extinta União Soviética e os Estados Unidos lideraram dois grandes blocos que dividiram com uma simbólica “cortina de ferro” o mundo entre comunistas e capitalistas. A “guerra” assumiu diversas facetas, sendo a mais óbvia a política, mas também econômica, tecnológica e informacional. Essa última, que tinha como resultado a busca incessante pelo maior número possível de informações sobre o outro, é retratada em parte pelo livro chamado “The Red Atlas: How the Soviet Union secretly mapped the world” (O Atlas Vermelho: como a União Soviética secretamente mapeou o mundo, inédito no Brasil).  

    Lançado em outubro pela editora da Universidade de Chicago, o livro é assinado pelos ingleses John Davies, um cientista da computação aposentado e entusiasta da cartografia que passou mais de uma década dedicado ao estudo de mapas soviéticos, e Alexander Kent, geográfo, presidente da sociedade britânica de cartográfos e pesquisador na Universidade Canterbury Christ Church.

    O livro é resultado de uma extensa pesquisa que inclui o trabalho paciente de reunião de mapas produzidos pelos militares soviéticos no contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Antes de imagens de satélite se tornarem algo tão banal como demonstra o acesso ao serviço de mapas do Google hoje em dia, a produção de mapas de extensas regiões do globo com alto nível de detalhes foi algo muito trabalhoso.

    Como diz o livro, entre 1950 e 1990, os soviéticos conduziram um programa de mapeamento topográfico global que resultou em milhares de mapas em diferentes escalas. Alguns, focados em cidades-chave para o gigante comunista como Nova York, Paris e Londres, continham um nível de especificação impressionante, com notas que incluíam larguras das ruas, profundidades de rios, fábricas por setor industrial e contornos de prédios relevantes, como aeroportos. Detalhes, anotam os autores, que só seriam possíveis com a presença de espiões nas ruas. Davies e Kent especulam que o trabalho tenha envolvido “milhares” de topógrafos, cartógrafos e agentes de inteligência.

    Foto: Reprodução/The Red Atlas
    Mapa soviético de Washington, capital americana, com detalhe do Pentágono no canto inferior esquerdo
    Mapa soviético de Washington, capital americana, com detalhe do Pentágono no canto inferior esquerdo
     

    Tais mapas acumulados ao longo de décadas foram mantidos em segredo pelos militares soviéticos. Com o declínio da União Soviética, a contar do fim da década de 1980, esses preciosos documentos passaram a sumir dos departamentos públicos. Muitos foram contrabandeados para colecionadores, cientistas, bem como empresas de telecomunicações e de petróleo ao redor do mundo.

    Como explicou à revista Wired o empresário Russell Guy, que em 1989 chegou a gastar US$ 250 mil com mapas soviéticos para sua empresa Omnimap, o comércio desses mapas na década de 1990 estava “bombando”. Companhias de telecomunicações que buscavam expandir para países na Ásia e África, por exemplo, adquiriam os mapas soviéticos por serem os mais precisos quanto a informações sobre o terreno nesses locais.

    Por serem secretos e nunca terem perdido a classificação pelo governo soviético ou russo, quem fosse pego fazendo o contrabando desses mapas poderia ser preso. Foi o caso do coronel aposentado Vladimir Lazar, antigo oficial do departamento técnico das Forças Armadas americanas, foi condenado em 2012 por espionagem a uma dúzia de anos na cadeia pelo comércio ilegal de 7.000 mapas do país. A coleção contrabandeado por Lazar chegou às mãos de um colecionador, que por sua vez a vendeu ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

    Foto: Reprodução/The Red Atlas
    Detalhe de Londres e o rio Tâmisa em mapa soviético de 1986
    Detalhe de Londres e o rio Tâmisa em mapa soviético de 1986
     

    Ainda segundo a Wired, em texto de 2015, muitos desses mapas soviéticos foram muito utilizados pelo governo americano. Ray Milefsky, antigo geógrafo e analista na agência de informação geoespacial americana, disse que mapas soviéticos sobre o Afeganistão foram usados durante a invasão do país do Oriente Médio pelos EUA, em 2001. Segundo Milefsky, os mapas soviéticos foram e continuam a ser uma das melhores fontes para profissionais da área. “Quando eu os peguei pela primeira vez, era uma mina de ouro, especialmente para o delineamento das fronteiras das antigas repúblicas soviéticas”, disse.

    Invasão ou Wikipédia soviética

    Não é certo, no entanto, exatamente para que esses mapas foram usados enquanto eram produzidos e estavam sob a guarda soviética. Os autores de “The Red Atlas” possuem opiniões diferentes. John Davies acredita que havia na obsessão pelos detalhes uma certeza de que aqueles territórios mapeados poderiam, um dia, fazer parte das repúblicas soviéticas. “Existe uma suposição de que o comunismo prevaleceria, e naturalmente a União Soviética estaria no comando”, disse.

    Já o geógrafo e coautor Alexander Kent acredita que os mapas formavam uma espécie de Google Maps misturado com Wikipédia em papel. Ou seja, as informações cartográficas somadas às notas sobre os locais – que incluíam coisas como velocidade e direção de vento em certas cidades, meses do ano em que uma montanha fica coberta por neve etc – formavam apenas um agregado de informações que poderiam, ou não, ser utilizadas pelas autoridades soviéticas.

    “É quase um repositório de inteligência, uma base de dados onde você pode colocar tudo o que você conhece sobre um lugar na época anterior aos computadores”, afirma.

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