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Qual o cenário político para Doria e seus planos de disputar a Presidência

No momento em que o prefeito de São Paulo busca mais visibilidade nacional, índice de avaliação positiva de sua gestão recuou. Dois cientistas políticos avaliam o atual momento do tucano

     

    João Doria (PSDB) completou nove meses à frente da prefeitura de São Paulo. O empresário está em sua primeira experiência em um cargo eletivo e, enquanto comanda a principal capital do país, articula seus planos de se candidatar à Presidência em 2018.

    Para a eleição municipal, a candidatura do tucano foi construída com apoio do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), que apostou na estratégia de apresentar um rosto novo ao eleitor, num momento em que a classe política tradicional passa por forte desgaste em razão das investigações contra corrupção.

    Doria apostou na imagem de “não político”, acrescentando ao discurso eleitoral críticas ao PT, partido do antecessor Fernando Haddad. A soma desses e outros fatores deu ao tucano a vitória já no primeiro turno. Na sequência, a boa avaliação recebida da maioria dos paulistanos no início da administração contribuiu para fazer de Doria um nome competitivo para 2018.

    Nove meses depois, a avaliação da gestão de Doria mudou, segundo pesquisa Datafolha divulgada domingo (8). Entre o primeiro levantamento, em fevereiro, e o mais recente o índice de “ótimo/bom” caiu de 44% para 32%; e o de “ruim/péssimo” passou de 13% para 26%.

    Entre as quatro sondagens já feitas (em fevereiro, abril, junho e outubro), esta é a primeira em que o “regular” supera a avaliação positiva. A nova pesquisa foi realizada entre 4 e 5 de outubro e entrevistou 1.092 moradores paulistanos.

    A popularidade do prefeito

     

    O desejo do eleitorado paulistano

    Na pesquisa recente do Datafolha, o instituto perguntou aos eleitores sobre os planos presidenciais de Doria e 58% afirmaram preferir que ele permaneça na prefeitura. Para 77% dos entrevistados, as viagens de Doria trazem benefício pessoal a ele. Sobre os benefícios à capital, 35% acham os deslocamentos positivos e 49% os desaprovam.

    Ao comentar a pesquisa, Doria atribuiu o recuo na avaliação positiva à “herança do PT”, em referência à gestão de Haddad. Segundo o prefeito, falta dinheiro. “É duro fazer gestão pública sem recursos, depender de apoio do setor privado, da cooperação e solidariedade de muitas pessoas”, afirmou, no domingo.

    No sábado (7), ele participou dos festejos do Círio de Nazaré, no Pará. Sobre as viagens, em outras ocasiões, Doria afirmou que, com a tecnologia, é possível acompanhar a administração à distância e que ele é um “prefeito global”.

    Resistência e embates no PSDB

    Doria disputa a vaga de candidato do PSDB à Presidência com Alckmin, seu padrinho político. Oficialmente o prefeito não se apresenta como pré-candidato à Presidência. Mas as dezenas de viagens do prefeito pelo país e o assédio de partidos interessados em alguém com o perfil dele para disputar o Planalto indicam o contrário.

    Em parte, o interesse de outras legendas decorre das resistências que a candidatura de Doria enfrenta dentro do próprio PSDB, em especial de integrantes do partido em São Paulo. Doria já sugeriu que não descarta mudar de partido.

    Às vésperas da divulgação da pesquisa Datafolha, Doria protagonizou bate-boca com o vice-presidente nacional da legenda, o ex-governador Alberto Goldman, desafeto antigo do prefeito e que defende um nome mais experiente para o Planalto. Na sexta-feira (6), Goldman afirmou que Doria “esqueceu” a prefeitura para se dedicar à campanha pela Presidência. “[Doria] é político sim, mas dos piores políticos que nós já tivemos em São Paulo”, disse.

    O prefeito reagiu e classificou o correligionário de “improdutivo”, “fracassado” e que “vive de pijamas”. Antes, Doria e Alckmin também trocaram indiretas. Em junho, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que, até aquele momento, não tinha visto ações concretas do prefeito na cidade. Mais recentemente, o ex-presidente evitou alimentar o embate e pediu união entre os tucanos.

    O cenário de Doria de 2016 para cá

    Por ora, Doria e Alckmin apresentam desempenhos parecidos nas pesquisas de intenção de voto – ambos têm 8%, de acordo com a medição do Datafolha feita no fim de setembro. Eles ficam em quarto lugar, atrás do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), do deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e da ex-ministra Marina Silva (Rede).

    De acordo com a agenda oficial do PSDB, o partido vai decidir quem será o candidato ao Planalto no começo de 2018. Sem confirmar, mas também sem negar suas pretensões eleitorais, Doria costuma dizer que o “amanhã cabe ao amanhã”. Ao Nexo, dois cientistas políticos avaliam o que a recente pesquisa de avaliação e os embates no PSDB sinalizam para o prefeito no presente momento. São eles:

    • Vitor Marchetti, professor da UFABC (Universidade Federal do ABC)
    • Adrian Gurza Lavalle, professor da USP (Universidade de São Paulo)

    A que atribui a queda na avaliação positiva da gestão de Doria?

    Vitor Marchetti  O fato de Doria não ter resolvido os problemas com a velocidade que ele prometeu, como a zeladoria da cidade. A administração dele não é perceptível e isso combinado ao fato de ele ter viajado (ainda que ele diga que não é candidato). O cidadão médio tem percebido que ele sequer chegou à prefeitura e já pensa em abandoná-la.

    Ao mesmo tempo, tem um eleitorado em São Paulo que tem um forte sentimento antipetista e dá suporte a Doria pela imagem que ele representa. Há um nível de tolerância dentro desse eleitorado e que sugere que a gestão do prefeito funciona na medida em que ele se coloca como o anti-Lula. O que sustenta a popularidade de Doria não é o que ele está efetivamente entregando do ponto de vista de política pública, mas sim do ponto de vista de figura pública.

    Adrian Gurza Lavalle Doria está sendo vítima do perfil que ele construiu. Para se eleger prefeito ele prometeu um perfil de gestor, de alguém que tinha como única motivação fazer o bem, se dedicar ao cuidado da cidade e fazer tudo aquilo que os políticos tradicionais não fazem. Obviamente um discurso eleitoral, mas Doria tem sido tão político quanto qualquer outro.

    Ele está em campanha pelo país, procurando apoio e a população percebe que o Doria que prometeu cuidar da cidade está em busca de sua candidatura à Presidência. O que não condiz com a imagem que ele construiu. Mesmo entre aqueles que votaram no Doria, a preferência é que ele fique na cidade.

    A segunda questão, que é mais difícil de aferir, é que o prefeito continua governando como se estivesse em campanha. Isto é, fazendo ações muito espetaculares, do ponto de vista da repercussão, de atrair atenção da mídia. Porém, uma prefeitura demanda ações de médio e longo prazo. E provavelmente a população não está vendo os efeitos da gestão. Um caso típico foi a ação na cracolândia. Doria fez uma intervenção que chamou a atenção, depois declarou que aquele problema havia acabado, o que não ocorreu.

    Considerando os planos presidenciais de Doria, algo mudou no cenário político para ele?

    Vitor Marchetti  Sabendo que Doria é um sujeito que se armou muito bem para acompanhar a repercussão da imagem dele, eu imagino que ele tenha precificado (usando um jargão da economia) a queda da avaliação positiva. Era meio esperado que, a partir do momento em que ele se dedicasse a uma campanha presidencial, ele fosse cobrado por sua gestão, que ainda nem completou o primeiro ano.

    Acho que Doria está apostando em ser o anti-Lula, ainda que o ex-presidente não seja candidato [caso ele seja proibido de disputar em razão da condenação na Lava Jato]. Ainda tem muita água para rolar. Doria ainda está apostando nos efeitos desse embate com o PT e mesmo dentro do PSDB. Ele tem apostado numa postura mais incisiva, dialogando com essa sensação geral do eleitorado de que precisa fazer algo, de ir para cima e combater a corrupção.

    Adrian Gurza Lavalle Os resultados das pesquisas trazem indícios e tendências que ainda não configuram algo que poderíamos chamar de um cenário claro. O que me parece estar mais clara é a avaliação do prefeito diante da população de São Paulo. Isso não significa que o cenário presencial para Doria esteja prejudicado por ora.

    Ele continua procurando apoio externo e depende muito de como vai se configurar a situação interna no PSDB. Ele ainda é um político essencialmente paulistano e o salto é grande para construir uma visibilidade nacional. Se Doria quiser aumentar seu recall (ou seja, sua capacidade de ser lembrado pelo eleitor espontaneamente), ele vai ter que acelerar sua agenda de visibilidade nacional. Quanto mais ele fizer isso, mais ele tende a perder votos em São Paulo. É uma escolha que ele terá de equacionar.

     

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