Qual o tamanho do lixo espacial. E como lidar com o problema

Milhares de destroços de veículos espaciais lançados ao longo de 60 anos de conquista do espaço estão pairando na órbita da Terra

    Na quarta-feira (4), o lançamento do satélite russo Sputnik completou 60 anos. Trata-se do primeiro objeto criado por seres humanos colocado com sucesso em órbita ao redor da Terra.

    Ao longo dessas seis décadas, milhares de outros satélites – e, mais recentemente, algumas estações espaciais – foram colocados no espaço. Ao serem desativados, muitos desses veículos espaciais não foram trazidos de volta: eles permanecem vagando na órbita da Terra. Há também os destroços, pedaços dessas naves que se desprendem.

    Todos esses corpos em órbita preocupam cientistas com relação a lançamentos de programas espaciais futuros. Os restos de experiências passadas ameaçam colidir com satélites ativos hoje, danificando-os.

    O principal risco que oferecem atualmente, porém, é de prejudicar a integridade da ISS, a Estação Espacial Internacional. Sobretudo porque, além de danificar a nave, a colisão colocaria em risco os seis astronautas que estão na estação no momento, em uma missão de longa duração.

    Qual a dimensão do lixo

    Segundo contagem mais recente do lixo espacial feita em 2016 pelo Comando Estratégico da Nasa, a agência espacial americana, há mais de 17 mil objetos em órbita acima da Terra. O levantamento leva em conta apenas objetos grandes o suficiente para serem rastreados.

    O número total de destroços em órbita pode ser apenas estimado. A ESA, agência espacial europeia, fez essa conta.

    29.000

    destroços (gerados por humanos) maiores que 10 centímetros

    670.000

    maiores que um centímetro

    170 milhões

    maiores que 1 milímetro

    Segundo a ESA, uma colisão com um objeto de 10 centímetros implicaria na “fragmentação catastrófica” de um satélite típico. Um objeto de um centímetro provavelmente seria capaz de desativar uma nave e de penetrar a ISS. Já o destroço de um milímetro poderia destruir subsistemas de espaçonaves.

    O peso total de todo detrito deixado pelos humanos no espaço é de 5.000 toneladassão cerca de mil quilos de lixo por cada lançamento desde o Sputnik.

    Como ele é manejado

    O primeiro passo é rastrear e monitorar os destroços. Na Nasa, há profissionais que passam por um treinamento especializado e são encarregados de tripular painéis responsáveis pelo controle de voo da Estação Espacial Internacional.

    O trabalho desse sistema, a Direção de Operações de Trajetória (TOPO, na sigla em inglês), é saber onde está a estação espacial, onde ela estará e a posição atual e futura de outros veículos em relação a ela, para garantir que não seja atingida, como explica uma reportagem do site Ars Technica.

    Poucos satélites estão a uma altitude comparável à da estação, a 400km em relação à Terra. Os destroços, por outro lado, estão frequentemente na rota de colisão: só em 2013, houve 67 notificações de potenciais choques.

    Quem rastreia esses corpos é o USSTRATCOM, o comando estratégico dos Estados Unidos, localizado em uma base da Força Aérea americana em Omaha, no estado de Nebraska. O comando cataloga todos os objetos no espaço e checa, três vezes ao dia, se a trajetória da ISS bate com as posições dos destroços. Se um deles se aproxima, a Nasa é notificada.

    Quando o alerta é vermelho, indicando que a colisão com a estação espacial é certa, o veículo de 450 toneladas inicia um desvio para evitá-la.

    Além de lidar com as partes soltas que estão lá, há propostas para “limpar” o espaço, embora nenhuma tenha, até o momento, resolvido a questão.

    “O melhor método que temos até o presente para manter o céu limpo é se certificar que, quando se coloca uma nave espacial lá, ela venha com uma forma de descer. Normalmente, isso significa que a nave deve ter uma maneira de desacelerar intencionalmente o suficiente para adentrar a atmosfera, o que fará com que a maioria das partes menores queimem devido ao calor da reentrada. Partes grandes podem chegar à superfície, e é por isso que desacelerar é importante. Em geral, gostamos de largar essas partes no Oceano Pacífico, por não haver nenhum centro densamente povoado no meio do oceano.”

    Jillian Scudder

    Professora assistente de Física e Astronomia da Oberlin College, nos EUA

    Mas, como lembra a professora assistente de Física e Astronomia da Oberlin College Jillian Scudder em um artigo de 2016 para a revista Forbes, essa alternativa só serve para naves ainda não lançadas. No caso dos satélites “mortos”, naves em desuso com as quais não é possível se comunicar, e de destroços, a única opção seria enviar um outro tipo de satélite de limpeza que ajudasse a desacelerar as partes em órbita. As propostas mais plausíveis nesse sentido, como a e.Deorbit, protótipo construído pela ESA com lançamento previsto para 2023, consistem em capturar as naves “mortas” e trazê-las de volta consigo. 

    A origem de muitos destroços

    Explodir os veículos espaciais em desuso não é uma opção para se livrar deles.

    Em 2007, a China testou um sistema de arma antissatélite, destruindo um de seus satélites meteorológicos inativos, o Fengyun IC. O teste provocou o maior evento da história em termos de produzir destroços espaciais de uma só vez. Criou mais de 2.300 pedaços soltos em órbita maiores que um centímetro e milhões de partes menores. Na época, isso aumentou a quantidade de detritos no espaço em 25%, segundo a professora Scudder.

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