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Por que obras e exposições de arte estão protagonizando o debate político

O 'Nexo' conversou com Renato Janine, filósofo e ex-ministro, sobre as investidas recentes contra a expressão artística

 

A performance “La bête” (A fera, em tradução livre), apresentada na terça (26) pelo artista Wagner Schwartz na abertura do 35º Panorama de Arte Brasileira, no Museu de Arte Moderna (o MAM) de São Paulo, tem sido alvo de protestos que culminaram, no domingo, em agressões físicas a funcionários do museu e ameaças anônimas, feitas por telefone, de dano ao acervo da instituição.

A controvérsia está ligada à circulação de um vídeo, no qual uma criança, de cerca de 4 anos, é mostrada tocando a perna do artista durante a performance. Ele se encontrava nu, deitado no chão. O trabalho é inspirado em “Bichos”, série de esculturas da artista Lygia Clark cuja concepção pressupunha a interação e manipulação dos objetos pelo público.

Grupos e representantes de direita, como o MBL (Movimento Brasil Livre), se manifestaram apontando a manifestação artística como revoltante, criminosa e inaceitável. Em resposta às acusações, o Ministério Público de São Paulo abriu, no dia 29 de setembro, uma investigação para averiguar se houve crime ou violações ao ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) por parte da instituição, do artista ou da mãe da criança.

Em nota, o MAM afirmou que a performance “se deu com a sala sinalizada, incluindo a informação de nudez artística, seguindo o procedimento regularmente adotado pela instituição de informar os visitantes quanto a temas sensíveis” e reiterou que a criança “estava acompanhada e supervisionada por sua mãe e que as referências à inadequação da situação são resultado de desinformação, deturpação do contexto e do significado da obra”.

O episódio se insere em uma sequência de investidas contra obras de arte que resultaram no fechamento da exposição “Queermuseu - Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, no dia 10 de setembro, pelo patrocinador, o banco Santander; na apreensão de um quadro do Museu de Arte Contemporânea de Campo Grande pela Polícia Civil, no dia 14 de setembro, e na proibição da peça "O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" pela Justiça de Jundiaí, município do estado de São Paulo, no dia 15. No espetáculo, o papel de Jesus Cristo é representado por uma mulher transgênero.

Em julho, um artista que se apresentava nu, em frente ao Museu da República de Brasília, também foi preso pela Polícia Militar do Distrito Federal sob a justificativa de praticar “ato obsceno”. A performance era parte da programação do evento Palco Giratório, mostra teatral promovida pelo Sesc, o Serviço Social do Comércio.

O Nexo conversou com Renato Janine Ribeiro, professor de Ética do Departamento de Filosofia da USP e ex-ministro da Educação, sobre as relações entre o clima político do Brasil e os acontecimentos recentes, incluindo os protestos contra o MAM.

O MAM de São Paulo tem sido alvo de protestos provocados pelo contato de uma criança com um artista que estava nu. O que está em jogo nessa situação?

Renato Janine Está em jogo a ignorância. As pessoas nem procuram se informar do que se trata e já reagem. As que invadiram o MAM provavelmente defendem a autoridade dos pais sobre os filhos. No caso, a criança estava acompanhada da mãe, havia avisos [do museu sobre o conteúdo], a mãe autorizou que a criança tocasse na perna do artista. Toda a argumentação que defende a autoridade dos pais foi respeitada. Não teve nada de sexual, mas o clima de ódio ficou tão grande e a ignorância tão gigantesca que as pessoas já partem para a ideia de que o museu está promovendo alguma coisa obscena, pedófila.

Elas simplesmente têm uma reação ideológica, de ódio. Isso é muito preocupante porque estão fazendo a ignorância e intransigência delas prevalecer sobre a complexidade das coisas. A arte tem um elemento fortemente transgressor, sobretudo desde a metade do século 19, que é quando surgiu [o romance realista] “Madame Bovary”, do Flaubert, que foi processado na Justiça, quando Baudelaire escreveu “As Flores do Mal” e também foi processado, assim como Manet, pelo quadro “Olympia”. Seja na forma artística usada, seja nos temas, você tem um monte de elementos transgressivos. A arte tem essa característica. Não é pornografia. Não é a mera exposição de atos de violência ou de sexo, é uma busca de meditar sobre isso.

Uma coisa que algumas pessoas comentaram é que protestam contra os quadros da Criança Viada, na [exposição] Queermuseu, de Porto Alegre, mas a sociedade tolera muito bem crianças de 6 anos fazendo a dança da garrafa. A [obra] Criança Viada é uma elaboração a partir de adultos sobre essas crianças. Ao passo que a sexualização na vida cotidiana, que é gigantesca no Brasil, é tolerada.

Como o senhor vê a sequência de investidas contra obras consideradas imorais, como o fechamento da Queermuseu e a tentativa de encerrar a peça em que Jesus é interpretado por um artista trans?

Renato Janine  É a extrema direita. Quando o Eduardo Cunha (PMDB) foi eleito presidente da Câmara, eu procurei distinguir a direita democrática e a direita comportamental. Há uma direita que não quer o controle do Estado sobre a economia, quer menos direitos sociais e trabalhistas. Essa é uma, você pode não gostar, mas ela não é comportamental. Quer dizer, não vai necessariamente contra homossexuais, mulheres, etc. Ela separa as coisas.

Com a vitória do Cunha para a Câmara, pela primeira vez a direita comportamental [ficou] muito próxima da linha sucessória presidencial. Essa direita, que é a extrema direita, não se limita a ter uma pauta econômica conservadora. Também traz junto uma pauta moral, moralista, muito conservadora.

Acontece que, para promover o impeachment, a direita que eu chamava de democrática se alinhou e se subordinou ao Cunha e ao [Michel] Temer. Grupos que teriam um peso na política brasileira, como o PSDB, acabaram ficando subordinados a grupos extremamente retrógrados. O próprio PSDB absorveu pessoas que têm essa mentalidade contrária aos direitos humanos, direitos de gênero, [essa mentalidade] de Escola sem partido. Isso seria inconcebível em um tempo de Franco Montoro, Mário Covas e Ruth Cardoso. É até difícil de entender o que o Fernando Henrique [Cardoso] está fazendo lá, porque certamente ele não concorda com isso. E no entanto, nesse momento, a liderança emergente [do partido] concorda, como o prefeito Doria.

Então você tem uma situação que, de certa forma, está desmantelando a direita civil democrática. Com o fracasso do governo Dilma e o impeachment, quem poderia colher o fruto nas mãos era o PSDB, e não foi. Porque, para antecipar a saída da Dilma, em vez de esperar as eleições, eles se aliaram, de forma subalterna, a esses grupos. E agora, com isso, o próprio PSDB está vivendo essa tentativa de tomada [do partido] pelo MBL. Se o MBL tomar conta do PSDB, ele perde o que lhe resta de identidade própria. O que é muito grave, porque a gente precisa ter um partido grande de direita no Brasil.

Existe relação entre esses episódios e o atual clima político do Brasil?

Renato Janine Parece que muita gente ficou revoltada com as políticas liberais relativas aos costumes nos governos anteriores e essas pessoas estão trazendo à tona todo o ódio delas. Possivelmente, esse ódio estava latente mas não se expressava por alguma razão. Agora, começou a ter espaço.

Um jornal que sempre foi liberal do ponto de vista dos costumes, a Folha de S.Paulo, publicou um artigo defendendo a exposição e um atacando, mas do MBL. É muito difícil de imaginar um jornal liberal publicando um artigo que incita o ódio. Não chega a ser nazismo, mas daqui a pouco então vamos publicar artigos nazistas, com preconceito racial? Não chegou a esse ponto, mas você não pode fingir-se de neutro quando as bases da liberdade estão em xeque.

E o senhor diria que estão?

Renato Janine Estão em xeque, porque o resultado disso é que qualquer exposição começa a correr riscos. É muito grave porque esse fanatismo da ignorância, essa liberdade dada à ignorância para ditar regras, acaba desembocando no totalitarismo. Não basta para chegar ao nazismo, mas é um espírito muito autoritário. O fascismo é contra a inteligência, considerava-a algo degenerado. Você tinha que ter a força bruta e a pureza alemã. Essa repulsa à inteligência, muitas vezes por um profundo ressentimento, é um problema grande nisso. Há pessoas de direita inteligentes, mas você tem um movimento que está se orientando com base na ignorância das pessoas contra a criação artística. Os riscos disso são grandes.

Historicamente, esse tipo de reação é mais comum em épocas nas quais o debate político está mais polarizado?

Renato Janine Eu diria que tem um outro fator nisso que é importante. Quando há uma recessão, uma redução do que pode ser distribuído, a briga pela propriedade, dinheiro, consumo, fica muito áspera. E nessa altura, a saída mais fácil é criar linhas de conflito em termos étnicos, raciais ou comportamentais. É muito mais fácil, em vez de dizer “foi uma política do governo tal [a responsável pela recessão]”, ou “foi a burguesia”, que é um conceito abstrato, dizer “é culpa dos negros que têm cotas”, “é culpa dos retirantes que estão ocupando nossos espaços”, “é culpa dos gays que destróem a família”. Isso funciona muito bem. Na verdade, o problema está antes do político, está no econômico. O MBL continua apoiando o governo, que está, aparentemente, piorando nossa situação econômica. E aí então é mais fácil criar inimigos fáceis de identificar e que apelam a uma tradição de preconceitos.

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