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Por que a rivalidade entre Barcelona e Real Madrid também é política

Dois dos maiores clubes do mundo representam historicamente lados opostos na disputa pela soberania catalã

     

    Enquanto a polícia reprimia violentamente os votantes do plebiscito pela independência da Catalunha, na Espanha, o campeonato espanhol de futebol seguia normalmente seu cronograma de jogos marcados para o domingo (1º).

    O Barcelona entrou em campo no meio da tarde para tentar manter a liderança do torneio jogando em seu estádio, o Camp Nou. Venceu o Las Palmas por 3 a 0, mas o destaque da partida foram as arquibancadas completamente vazias. O clube fechou os portões em protesto à violência e à impossibilidade de mudar a data do jogo para outro dia que não o do plebiscito.

    Horas depois, o Real Madrid, arquirrival do clube catalão, também jogou em seu próprio estádio, o Santiago Bernabéu. Ao contrário do que se viu em Barcelona, as arquibancadas em Madri estavam lotadas — de pessoas e de bandeiras espanholas.

    O contraste no público e as bandeiras em Madri não aconteceram por acaso. Os dois clubes, além de protagonizarem uma das maiores rivalidades do futebol dentro de campo, carregam simbolismos políticos que os opõem de forma ainda mais forte.

    Ascensão madrilenha na ditadura

     

    Antes do general Francisco Franco tomar o poder e construir um regime autoritário na Espanha, que perdurou entre 1939 e 1975, o Real Madrid estava longe de ter a força que tem hoje. Antes dos torneios esportivos serem suspensos no país durante a guerra civil (1937-1939), o clube tinha apenas dois títulos nacionais. Hoje é o maior campeão espanhol.

    Crescimento nos anos 1950 e 1960

    Uma das grandes questões da historiografia futebolística espanhola é definir a relação entre o clube madrilenho e o ditador espanhol. É perceptível o salto de qualidade que o clube viveu durante as décadas de governo fascista — o que muitos atribuem a um esforço pessoal de Franco para transformar o Real Madrid em uma potência mundial.

    O objetivo seria tirar o protagonismo de duas das maiores equipes de futebol do país à época, o Barcelona e o Atlético de Bilbao. Ambos sempre foram símbolos de suas regiões — Catalunha e País Basco, respectivamente, ambas separatistas.

    No documentário “A Lenda Negra da Glória Branca”, o jornalista Carles Torras conversou com personagens da época, incluindo jogadores e dirigentes, para remontar a relação. São três argumentos principais que o diretor usa para explicitar o que seria um favorecimento estatal ao Real Madrid.

    Ajuda de Franco ao Real Madrid

    Contratação de Di Stéfano

    Um dos maiores jogadores da história, o argentino foi contratado, ao mesmo tempo, pelo Barcelona e pelo Real Madrid. Não era claro que clube sul-americano era o dono dos direitos do atleta. A justiça espanhola definiu que, durante quatro anos, Di Stéfano jogaria uma temporada em cada clube. O Barcelona recusou, considerando a decisão absurda, e o argentino virou ídolo madrilenho.

    Construção do estádio

    Santiago Bernabéu, soldado franquista, era o presidente do clube à época da construção do estádio monumental na capital espanhola, em 1947. O país vivia um período pós-guerra e o Real Madrid estava sem dinheiro. Mesmo assim, a obra terminou em menos de três anos, possivelmente com a ajuda do governo central, feita de forma escondida.

    Relação promíscua com árbitros

    Por fim, o documentário ainda expõe o que seria uma relação bastante suspeita entre o clube e os árbitros de futebol. As esposas dos juízes chegavam a receber presentes do Real Madrid.

    O crescimento do clube madrilenho seria um projeto de Franco para virar um agente de propaganda do regime no resto do mundo.

    “Vocês fizeram muito mais que muitas embaixadas espalhadas por esses povos de Deus. Gente que nos odiava agora nos entende”

    José Solís

    Ministro-secretário do “El Movimiento”, partido franquista, em discurso aos atletas do Real Madrid em 1959

    Surgimento da rivalidade

     

    Embora existam evidências do projeto franquista com relação ao Real Madrid, a relação entre o crescimento do clube e o regime ditatorial é uma tese controversa. Há quem defenda que o time de Madri cresceu por conta própria, e nem foi tão ajudado assim.

    Ainda assim, o Real Madrid passou a ser identificado, especialmente pelos rivais, como um clube aliado ao governo central espanhol, mesmo após a queda de Franco, e tem seu sucesso atual conectado regularmente à uma atuação direta do general.

    O Barcelona, por sua vez, sempre foi uma espécie de símbolo catalão — ainda que grande parte de seus ídolos históricos sejam de fora da região. O Camp Nou, estádio barcelonista, se transformou também em uma arena de atuação política pró-Catalunha.

    A população catalã, assim como todas as que vivem em regiões da Espanha e se consideram um povo à parte, foi duramente reprimida pela ditadura franquista, o que aumenta ainda mais o asco pelo período e pelos seus símbolos.

    A briga política invadiu os campos. Hoje, os dois clubes estão entre as três marcas esportivas mais valiosas do mundo (só perdem para a equipe de futebol americano Dallas Cowboys), e são os dois maiores vencedores do campeonato espanhol.

    US$ 40 milhões

    é quanto uma única partida entre Barcelona x Real Madrid movimenta para os patrocinadores das equipes

    O simbolismo das arquibancadas

     

    Outros clubes se posicionaram contra o plebiscito pelo referendo catalão, e não apenas a torcida madridista. Neste caso, ligar o posicionamento político da torcida do Real Madrid à possível relação do clube com Franco tem o risco de ser uma abordagem reducionista.

    O clube do Barcelona, oficialmente, nunca se posicionou à favor da independência catalã. Apesar disso, defende abertamente o que acredita ser o direito de autodeterminação da região. O fechamento do estádio para o público, nesse sentido, teve a intenção de chamar a atenção de todo o mundo para a repressão ao plebiscito.

    “Quisemos que o mundo inteiro visse como estamos sofrendo e qual é a situação da Catalunha [...] Condenamos energicamente [a violência policial]. O Barça sempre esteve com a liberdade de expressão, a democracia e o direito de decidir. São valores que o Barça defende historicamente e nós vamos agir. O Barça há de estar com o povo”

    Josep Maria Bartomeu

    Presidente do Barcelona FC

    Ao mesmo tempo, diversos rivais se posicionaram, simbólica e textualmente, à favor da “união da Espanha”. Um deles foi o time Las Palmas, que enfrentou o Barcelona no Camp Nou fechado e trazia costurada na sua camisa de jogo uma bandeira espanhola que normalmente não está presente no fardamento esportivo.

    “Hoje, o que fazemos é muito simples. Com a bandeira espanhola bordada em nossa camisa, queremos votar de forma inequívoca em um plebiscito imaginário ao qual ninguém nos convocou: acreditamos na unidade da Espanha”

    Unión Deportiva Las Palmas

    Em comunicado oficial

    Mas o ato mais chamativo foram as milhares de bandeiras espanholas no estádio Santiago Bernabéu. Uma clara mensagem política somada à rivalidade histórica de dentro e de fora das quatro linhas.

    Caso a Catalunha realmente venha a se separar da Espanha, a presença das equipes da região no campeonato espanhol teria de ser objeto de negociações. O torneio sem o Barcelona perderia prestígio no mercado, o que seria ruim para todos os seus adversários na hora de negociar valores de venda de direitos para TV e patrocinadores, por exemplo.

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