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Descumprir a meta de inflação para baixo é um problema?

País criou sistema para evitar que preços subissem demais, mas agora lida com outro cenário

     

    O Brasil é um país que tem um histórico de inflação alta, às vezes hiperinflação. O aumento excessivo de preços foi, nas décadas de 1980 e início de 1990, o principal problema econômico do país. Foi em nome do combate à inflação que o governo congelou preços, confiscou dinheiro na poupança e mudou de moeda algumas vezes.

    O Plano Real, de 1994, acabou com a hiperinflação pareando o valor da moeda nacional ao dólar, entre outras medidas. Em 1999, com a crise internacional e a disparada do dólar, o governo criou o tripé macroeconômico que tem como uma de suas bases o regime de metas de inflação - as outras são manter o câmbio flutuante e buscar superávit primário nas contas públicas.

    Pelo regime de metas, o Conselho Monetário Nacional - formado pelo presidente do Banco Central e os ministros da Fazenda e do Planejamento - decidem qual a inflação que admitem para determinado ano. Como é impossível controlar completamente os preços, uma vez que pode haver choques de preço por causa de fatores como clima e câmbio, há uma margem de tolerância para sua variação.

    Entre 2005 e 2016, a meta foi de 4,5%, com margem de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Em 2017, a tolerância diminuiu para 1,5 ponto percentual. Isso significa que o Banco central cumprirá a meta se o IPCA, índice oficial ao consumidor, ficar entre 3% e 6% ao ano.

    Historicamente o problema do Banco Central foi sempre cuidar para que a inflação não ultrapasse o teto da meta - o que aconteceu em 2015, por exemplo, quando o IPCA ficou em 10,67%. Mas em 2017, apenas dois anos depois, o problema se inverteu e pela primeira vez desde que o regime de metas foi criado o risco é que a inflação fique abaixo do piso.

    Inflação menor

    A queda recente da inflação no Brasil tem relação direta com a crise econômica que atinge o país desde 2014. Com o desemprego em alta e o consumo em baixa, a economia passou a ter menos demanda e os preços pararam de subir.

    Além disso, houve queda no preço dos alimentos, que historicamente puxam o IPCA para cima, e estão em deflação no acumulado dos últimos doze meses. Um terceiro ponto é o trabalho do Banco Central no controle das expectativas, com a promessa de aumentar juros caso os preços voltem a subir.

    Situação diferente

     

    A gestão do Banco Central sob Ilan Goldfajn controlou a inflação alta. Mas agora tem de lidar com o inverso. O índice acumulado em 12 meses fechou agosto em 2,46%.

    Apesar de haver uma previsão de aumento da inflação nos últimos meses do ano, analistas e economistas já não acreditam que o IPCA vai aumentar a ponto de superar o piso da meta.

    Nas duas últimas semanas de setembro, as projeções publicadas pelo Relatório Focus - pesquisa que o Banco Central faz semanalmente com o mercado - passaram a projetar uma inflação abaixo de 3% no final do ano.

    Caso as previsões se confirmem, o BC terá descumprido o compromisso de entregar a inflação dentro da meta. Quando isso acontece, o presidente do Banco Central tem de enviar uma carta aberta ao ministro da Fazenda com as razões do descumprimento e as providências que serão tomadas para que o índice retorne à meta.

    Até hoje, o Banco Central teve de se explicar quatro vezes, sempre por entregar uma inflação acima da meta: em 2001, 2002, 2003 e 2015.

    Sobre a possibilidade de a inflação ficar abaixo do piso da meta pela primeira vez na história, o Nexo fez três perguntas a Marcel Balassiano, pesquisador da área de Economia Aplicada do IBRE/FGV (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas).

    Ter inflação abaixo da meta é ruim? Por que há um piso para a meta?

    Marcel Balassiano Depende do contexto de cada país. Ter deflação seguidamente não é bom. O contexto do Brasil não é esse. A inflação é um problema, não tão sério quanto no passado, mas é um problema. Nossa meta, de 4,5%, é relativamente alta, mais alta que em outros países. Vai ter a burocracia, escrever a carta, mas não é nenhum problema de verdade. Eu vejo como positivo ter uma inflação baixa nesse contexto.

    O intervalo de tolerância foi criado para acomodar choques, mas o cenário de alimentos não é normal. O choque favorável de alimentos é fundamental para o IPCA ficar abaixo do piso, sem isso estaria acima de 3%.

    O que o Banco Central deve fazer quando a inflação está abaixo da meta?

    Marcel Balassiano Não acho que o Banco Central vai acelerar o corte de juros para atingir a meta. Acho que os próximos passos da política monetária estão bem sinalizados, provavelmente a Selic vai para 7,5% em outubro e 7% em dezembro. E assim ficaria por pelo menos parte de 2018. O governo poderia aumentar impostos e [consequentemente] elevar inflação. Preços administrados [que têm tarifas controladas pelo governo] poderiam ser ajustados. Mas não acho que esse é o objetivo.

    Os números de 2017 mostram que problemas do Brasil com inflação acabaram?

    Marcel Balassiano Acho que não se pode dizer que problemas com a inflação acabaram. Em 2008, com um cenário positivo, muito pouca gente acreditava que pouco tempo depois teria uma inflação de 11%. Atualmente, os números são muito baixos. Mas a gente pode voltar a ter um Banco Central que não cumpra o objetivo, como foi no passado recente. Tem sempre que monitorar, a sociedade tem que prestar atenção.

    Além disso, a inflação está abaixo da meta graças a um choque nos alimentos, não é um cenário normal. Ano que vem deve voltar à meta.

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