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Por que jogadoras estão deixando a seleção brasileira de futebol

Após demissão de treinadora que contava com o apoio do elenco, quatro atletas medalhistas olímpicas se aposentaram da equipe nacional

     

    A atacante Cristiane, a meia Francielle, a lateral Rosana e a zagueira Andreia têm muito em comum. Todas são jogadoras de futebol profissional, em um país conhecido tanto pelo talento quanto pela falta de estrutura para a modalidade feminina do esporte. Todas elas têm um histórico de mais de 10 anos na seleção brasileira e são medalhistas olímpicas. E agora, em um intervalo de dois dias, todas decidiram se aposentar da equipe nacional.

    Diferentemente de ídolos do futebol masculino, contudo, a aposentadoria para as quatro não veio com uma partida festiva e ingressos caros. Foi acompanhada de declarações que mesclam cansaço e decepção com a situação atual da seleção. Na sexta-feira (22), a treinadora Emily Lima foi demitida pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol, que coordena a seleção).

    A primeira a anunciar a aposentadoria foi Cristiane, de 32 anos, na quarta-feira (27) em vídeo postado na sua conta pessoal do Instagram. “A decisão mais difícil da minha vida”, disse. Depois, as outras três atletas seguiram o mesmo caminho.

    A movimentação das atletas está repleta de simbolismo. A primeira vez que a seleção de futebol feminina foi convocada pela CBF aconteceu em 1988. A disparidade salarial e a decepção com o modo como a equipe é dirigida é uma pauta recorrente das jogadoras.

    Ao Nexo, Francielle, de 27 anos, e Rosana, de 35, disseram que a decisão foi pessoal e espontânea. Segundo elas, não se trata de um “boicote” e nem de uma articulação em grupo.

    “É uma manifestação para que olhem com mais carinho para o futebol feminino e a modalidade no geral. É para as pessoas ouvirem as atletas. Precisamos ter voz”

    Rosana

    Jogadora aposentada da seleção, ao Nexo

    O desligamento das jogadoras levantou dúvidas sobre as intenções da CBF em demitir a primeira treinadora mulher da seleção feminina, com 10 meses no cargo — tempo considerado curto pelas jogadoras, pela treinadora e por outras ex-atletas.

    O contexto da demissão

    Foram 13 jogos com Emily à frente da seleção feminina. Nos primeiros sete, sete vitórias. Nas seis partidas seguintes, um empate e cinco derrotas — todas contra seleções melhores colocadas que a brasileira no ranking mundial.

    A treinadora se defende dizendo que as derrotas foram naturais, e que a meta era fazer a preparação para a Copa América de 2018 contra bons adversários.

    “Se fosse para ter resultado imediato, enfrentaria seleções mais frágeis. Nosso foco era a Copa América-2018 [classificatória para o Mundial e Olimpíada] e fui atrás das melhores seleções. Enfrentamos apenas seleções com ranking superior ao nosso”

    Emily Lima

    Em entrevista à Folha de S.Paulo

    Após as derrotas, uma série de acontecimentos culminaram na demissão da treinadora, que deixou o cargo com 56,4% de aproveitamento.

    Caminho para a demissão

    Derrota e reunião

    Em 19 de setembro, o Brasil perdeu de 3 a 2 para a Austrália, jogando no país adversário. No mesmo dia, as atletas se reuniram com Marco Aurélio Cunha para pedir que Emily não fosse demitida.

    Carta ao presidente

    Na reunião, o elenco entregou uma carta ao coordenador, endereçada ao presidente da CBF Marco Polo Del Nero, reforçando o pedido e elencando uma série de razões para que Emily fosse mantida no cargo.

    Volta ao Brasil e demissão

    Três dias depois, Emily se reuniu com Del Nero na sede da CBF, no Rio de Janeiro, e foi informada de sua demissão. Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, a treinadora disse que a justificativa dada pelo presidente foram os maus resultados.

    Volta de Vadão

    Na segunda-feira (25), Vadão foi contratado como o novo treinador da seleção feminina. Era Vadão quem estava no cargo até 2016, antes de ser demitido para dar lugar a Emily. Na Olimpíada do Rio de Janeiro, ficou em quarto lugar.

    Divergências entre treinadora e diretor

     

    Um ponto ressaltado pela treinadora em diferentes entrevistas após sua demissão foi a discordância com Marco Aurélio Cunha em relação ao seu método de trabalho. Segundo Emily, ele achava que ela “trabalhava demais” e não apoiava a sua comissão técnica.

    Para a treinadora, setores do futebol feminino são “esquecidos” dentro da CBF, o que não acontece com o masculino.

    Entre as críticas à confederação estão a falta de incentivo aos campeonatos de base e a falta de fiscalização às equipes para o cumprimento de requisitos necessários à profissionalização da categoria.

    “A coordenação da nossa seleção e da modalidade no país está nas mãos de uma pessoa que não sabe uma vírgula do futebol feminino”

    Emily Lima

    Em entrevista à Folha de S.Paulo

    Ao Nexo, Cunha negou reclamar que Emily trabalhava muito. Segundo ele, a treinadora se envolvia em assuntos que não eram diretamente associados ao seu cargo: “O que eu disse é o seguinte: pra ela focar no assunto da seleção feminina [...] e que ela deixasse de buscar outras coisas que são do futebol feminino em termos de administração, gerenciamento”.

    O apoio das atletas a Emily

     

    24 das 26 atletas que já haviam declarado apoio em carta, mantiveram o posicionamento. Para Francielle,“demitiram a Emily por ela ser mulher e trabalhar demais, por ela brigar pela seleção brasileira, pela modalidade, e a CBF não gosta de quem faz isso”.

    “As atletas concordam que essa comissão seja a mais bem preparada para a continuação desse novo ciclo. Sabemos que os últimos resultados não foram os esperados, mas devemos levar em consideração o tempo hábil para se trabalhar, as seleções que foram enfrentadas e, principalmente, a mudança de conceito em relação a treinamentos e jogos para resgatar novamente o futebol brasileiro que se foi perdendo ao longo dos anos.”

    Trecho da carta enviada pelas jogadoras para Marco Aurélio Cunha e Marco Polo Del Nero

    Um discurso comum entre as atletas é de que não existe apoio da CBF de longo prazo à equipe, embora todas admitam que a estrutura para treinamentos é muito boa.

    Rosana elogiou o trabalho da treinadora, dentro e fora de campo, como um avanço para a modalidade. Desde que Emily chegou à seleção, as categorias de base ganharam mais atenção e foram feitas convocações regionais. Para a atleta, “foi algo visionário, já que movimentou o futebol no Nordeste e no Norte, além da região Sudeste”.

    “Somos pouco valorizadas. Essa é a verdade. Não atendem nossas necessidades desde um pedido simples de uniforme feminino ou de um aumento de diária, que seja”

    Francielle

    Jogadora aposentada da seleção

    Francielle disse que a contratação de Vadão ressalta a vontade de Cunha em voltar “a ter uma voz” dentro da comissão técnica. Para ela, se a questão fosse o desempenho em campo, faria mais sentido contratar o treinador Renê Simões, “que em seis meses conseguiu fazer um trabalho brilhante e conquistou a medalha de prata em 2004”.

    Cunha disse ao Nexo que a contratação de Vadão foi uma decisão tomada pelo presidente da CBF, sozinho. Para o coordenador da CBF, casos como a demissão de Emily são comuns no futebol. “O que é importante é que, quando você sair, não feche portas”, completou.

    Formiga, a jogadora que mais vezes vestiu a camisa da seleção brasileira e que se aposentou da equipe no fim de 2016, também criticou a demissão da técnica Emily.

    “Foi uma decisão precipitada. Realmente não deu tempo para ela trabalhar as meninas. Se falava tanto de renovação, de evolução do futebol feminino no país, e com essa atitude a gente vê que realmente não é a intenção fazer o futebol feminino evoluir”

    Formiga

    Ex-jogadora da seleção, ao Sportv

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