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Quem é o político que vai relatar a 2ª denúncia criminal contra Temer

Professor de Direito, Bonifácio de Andrada criticou delação da JBS. Deputado está na Câmara há dez mandatos e é descendente do patriarca da Independência

     

    O parlamentar mais velho do Congresso Nacional será o relator da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Bonifácio de Andrada (PSDB-MG), de 87 anos, foi escolhido pelo presidente da CCJ, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), na quinta-feira (28), dois dias depois de a denúncia contra o presidente ser lida em plenário.

    Durante a análise na CCJ, Bonifácio de Andrada será o responsável por elaborar um relatório recomendando ou não o prosseguimento da denúncia feita pela Procuradoria-Geral da República. Esse relatório será primeiro votado pelos 66 membros da comissão e posteriormente será levado ao plenário. O relatório é o guia da votação e a denúncia só poderá ser analisada pelo Supremo Tribunal Federal se 342 deputados (dois terços) decidirem pelo prosseguimento.

    A escolha do relator é uma decisão do presidente da comissão e, desta vez, Rodrigo Pacheco agiu diferentemente do que ocorreu na primeira denúncia e escolheu um parlamentar ligado ao governo.

    Em junho, a escolha de Sergio Zveiter (RJ) para relatar a primeira denúncia contra Temer causou uma crise na base do governo. Zveiter era do PMDB, correligionário do presidente, mas fez um relatório recomendando o prosseguimento da denúncia.

    Depois de uma manobra do governo para substituir deputados na CCJ, o relatório de Zveiter foi rejeitado e substituído por um favorável a Temer. Por causa da crise, o parlamentar deixou o PMDB em agosto e se filiou ao Podemos. A denúncia - que acusava Temer de corrupção no caso JBS - foi barrada pelos deputados no plenário.

    Desta vez, Temer é acusado de formação de quadrilha e obstrução de Justiça com base em depoimentos de delações dos executivos da JBS e do doleiro Lúcio Funaro. Na avaliação de Rodrigo Janot, ex-procurador-geral da República e responsável pela acusação, Temer agiu para evitar que o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha fizesse acordo de delação premiada. Além disso, o presidente seria o líder de uma organização criminosa que desviava dinheiro de contratos públicos.

    Pró-governo

    Bonifácio de Andrada está no PSDB há 20 anos e é um aliado próximo do senador afastado Aécio Neves, principal defensor da permanência dos tucanos no governo Temer e também denunciado criminalmente pelo escândalo da JBS. Como todo o PSDB, Andrada votou pelo impeachment de Dilma Rousseff e justificou sua decisão na busca de "melhores dias".

    Na votação da primeira denúncia, no início de agosto, ficou na ala do PSDB que apoiou o governo. Ele votou pelo não prosseguimento da denúncia contra o presidente aliado.

    “Sim. Em favor das instituições e do progresso do Brasil ”

    Bonifácio de Andrada

    deputado federal, endossando o relatório que pedia o arquivamento da denúncia contra Temer

    Na Comissão de Constituição e Justiça, Bonifácio de Andrada já criticou abertamente a postura dos executivos da JBS que, segundo sua avaliação, agiram de forma “imoral” ao gravar conversas com o presidente e com Aécio. O deputado chamou a delação que é a base da denúncia de “incorreta”, “cheia de dúvidas” e “falha”.

    A delação da JBS passa por uma série de questionamentos. Os donos do frigorífico, que chegaram a receber imunidade penal, perderam os benefícios do acordo por omitirem informações ao Ministério Público. Atualmente estão presos preventivamente.

    Na Câmara desde o regime militar

    Quando Bonifácio chegou à Câmara, em fevereiro de 1979, a população do Brasil era de 118 milhões, o presidente era o general Ernesto Geisel e a moeda era o cruzeiro. Desde então, são dez mandatos consecutivos, dois deles como suplente. Mas a carreira do parlamentar começou mais de 20 anos antes.

    Bonifácio de Andrada foi eleito vereador em Barbacena (MG) em 1954 pela UDN (União Democrática Nacional). Durante a carreira passou ainda por Arena (partido de sustentação da ditadura militar), PDS e PTB antes de se filiar ao PSDB em 1997.

    Além dos dez mandatos na Câmara, ele teve outros quatro como deputado estadual em Minas. Ou seja, a atual legislatura, 2015-2019, é a 15ª consecutiva de Bonifácio de Andrada no parlamento.

    O político é originalmente advogado e professor de direito constitucional.

    Política na família

    Os Andrada são uma tradicional família na política mineira. O pai de Bonifácio, José Bonifácio Lafayette de Andrada, foi deputado federal por oito mandatos até a década de 1970 e chegou a presidir a Câmara. O sobrinho do tucano é deputado estadual em Minas.

    Mas a tradição da família na política começou muito antes, nos tempos do Império. A semelhança entre os nomes não é uma mera coincidência. Bonifácio de Andrada é descendente de José Bonifácio de Andrada e Silva, um dos principais articuladores da Independência do Brasil.

    Segundo levantamento do site Congresso em Foco, desde a independência, 15 integrantes da família foram parlamentares no Brasil. Essa vertente da família Andrada têm como base eleitoral a cidade mineira de Barbacena.

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