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Por que o novo limite de caracteres do Twitter não vale para japonês

O plano é implementar a mudança de forma generalizada para todas as línguas, exceto japonês, coreano e chinês

    Fundada em 2006, a rede social Twitter nunca se tornou tão popular quanto o rival Facebook, fundado dois anos antes. Mas algumas características especiais garantiram à plataforma um lugar e um público próprios. Uma delas é o limite de 140 caracteres.

    Isso inviabiliza os “textões”, que marcam a concorrente, e exige que os usuários se expressem a partir de uma métrica fechada. A imposição se tornou um de seus principais atrativos. A cultura em torno dos 140 caracteres é marcada por tiradas sagazes, notícias sucintas e avaliações condensadas em uma ou duas frases.

    Mesmo antes de ser eleito presidente dos Estados Unidos, o presidente Donald Trump ficou conhecido pelo uso da plataforma para propagar suas avaliações curtas, taxativas, chocantes e, segundo críticos, pouco elaboradas.

    Em um passo drástico, a empresa decidiu que vai deixar de estabelecer esse limite para uma parte considerável dos usuários e ampliá-lo para 280 caracteres.

    Em uma nota do dia 26 de setembro, uma gerente de produtos da empresa, Aliza Rosen, afirmou que a mudança busca se adequar a diferenças entre as línguas utilizadas na plataforma.

    A alteração ainda está em fase de testes e vale apenas para alguns dos usuários — a empresa afirma que está observando seus efeitos e as reações. O plano é implementar a mudança de forma generalizada para todas as línguas, exceto japonês, coreano e chinês.

    Por que algumas línguas ficam de fora

    Em sua nota, Rosen afirma que línguas baseadas em ideogramas, como japonês, coreano e chinês são capazes de expressar mais pensamentos com um número menor de caracteres do que línguas como português, inglês e francês. Isso ocorre porque o traçado dos ideogramas pode evocar ideias, e não apenas fonemas.

    Como argumento, a empresa publicou um gráfico comparando o número médio de caracteres utilizado por quem escreve em japonês e quem escreve em inglês.

    A maioria dos tuítes em japonês tem 15 caracteres, enquanto a maioria dos em inglês tem 34. Apenas 0,4% dos textos em japonês atingem o limite de caracteres, contra 9% dos textos em inglês.

    A gerente de produtos afirma que a empresa identificou que nos mercados em que o público é capaz de se expressar mais usando menos caracteres, ou seja, naqueles que falam coreano, japonês e chinês, mais pessoas estão tuitando. O que indica que o limite de 140 caracteres é pequeno demais.

    A empresa planeja aumentar o limite para as outras línguas para “compensar” o fato de que elas precisam de mais caracteres para se expressar.

    A nota termina com a gerente de produtos prevendo as reações de insatisfação após a mudança. “Nós entendemos que, como muitos de vocês vêm tuitando há anos, pode haver um apego emocional aos 140 caracteres”. Reações irônicas e raivosas de fato ocorreram:

    A outra grande mudança do Twitter

    Esta é a segunda mudança essencial do Twitter em pouco mais de um ano. Originalmente, o feed era organizado de forma que os textos mais novos apareciam no topo da página do usuário, seguidos pelos mais antigos.

    Essa característica era vista como positiva por ser uma regra clara, que permitia ao internauta um controle objetivo sobre o que aparece em sua tela.

    Ela foi, no entanto, abandonada pela empresa em março de 2016, e substituída por um algoritmo que se molda ao comportamento, e não a decisões objetivas. O feed passou então a responder às contas e tuítes com as quais há mais interações na prática.

    Isso nem sempre é uma decisão objetiva. Por exemplo: usuários que gostariam de escolher que sua timeline tivesse informações políticas podem, na prática, clicar em sites de fofocas e em fotos de pessoas que considera bonitas. Esse tipo de conteúdo, e não o político, tenderia a ser reforçado pelo algoritmo.

    A mudança trouxe também o temor de que o algoritmo contribua para transformar as timelines em “bolhas”, ou seja, espaços marcados por conteúdo pouco diverso e excessivamente moldado aos usuários. Ela pode ser desativada alterando as configurações da conta.

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