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O que o hip hop tem a ensinar ao urbanismo, segundo este arquiteto

O intercâmbio entre o movimento cultural dos guetos e o planejamento das cidades é o foco do trabalho do americano Michael Ford

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    “Em 1953, o futuro do Bronx podia ser visto ao longo da trincheira de 11 quilômetros que o cortou de ponta a ponta. Antes um contínuo ininterrupto de comunidades coesas e diversas, a trincheira era agora a clareira aberta para a Via Expressa Cross-Bronx, uma catástrofe modernista de enormes proporções”.

    Este trecho aparece logo no início não de um livro sobre urbanismo, mas de “Can’t Stop Won’t Stop”, obra de Jeff Chang que é considerada uma das melhores biografias do hip hop. O texto faz referência a uma das 13 super-avenidas construídas pelo engenheiro Robert Moses, que reconfigurou Nova York nas décadas de 1940 e 50.

    Uma das acusações mais comuns a Moses era de que seu urbanismo era focado no automóvel e indiferente às comunidades que viviam no caminho de seus projetos. Foi o caso do sul do Bronx, que se deteriorou a partir da obra, se tornando uma área cada vez mais violenta e desassistida. Quem podia, se mudou; quem ficou, teve que sobreviver nas ruínas.

    Na década de 70, entretanto, algo interessante aconteceu. As gangues juvenis se transformaram em equipes de som, os quarteirões dilapidados viraram locais de festa e as paredes feias se converteram em telas para artistas do spray. Nascia um movimento chamado hip hop. Graças a ele, pessoas de fora começaram a prestar atenção no Bronx.

     

    É possível interpretar muitas letras de hip hop como uma crítica aos fracassos do planejamento urbano e da falência da cidade como lugar habitável. Um dos primeiros raps de protesto, “The Message”, de Grandmaster Flash & The Furious Five, descreve o cenário como “vidro quebrado por toda parte/pessoas mijando nas escadas/você sabe que ninguém se importa”.

    A contribuição das comunidades

    O intercâmbio entre o hip hop e o planejamento urbano é o foco do trabalho do americano Michael Ford, que se intitula “o arquiteto hip hop”. Se inicialmente foram os planos urbanos que influenciaram na criação do hip hop, Ford espera inverter a relação.

    “Tem gente que pensa que ‘arquitetura hip hop’ é uma invencionice, mas é uma conversa séria em que uso o hip hop para descrever os fracassos da arquitetura no planejamento urbano em comunidades negras e pardas”, afirmou em entrevista ao site The Undefeated.

    “Um dos maiores desafios para cidades, estados e governos é evitar reuniões tradicionais que não atraem nenhum tipo de diversidade ou interesse da comunidade”

    Michael Ford

    Arquiteto e urbanista

    Para Ford, a resiliência e o poder de invenção do movimento, que criou uma cultura global a partir de muito pouco, pode trazer inspiração e ideias que se refletirão em cidades mais igualitárias e dinâmicas.

    Entretanto, ele pontua que isso só acontecerá se houver maior diversidade no meio da arquitetura. “Costumo dizer que pessoas de comunidades marginalizadas ou desassistidas vivem em edifícios ‘verdes’ antes de isso virar moda, tornando as estruturas e lugares em que vivemos sustentáveis financeiramente e em outros níveis”, disse Ford ao site Green Biz.

    De acordo com a entidade que representa arquitetos nos Estados Unidos (a AIA), apenas 18% dos profissionais no país não são brancos, e só 4% são negros.

    “Um dos maiores desafios para cidades, estados e governos é evitar reuniões tradicionais que não atraem nenhum tipo de diversidade ou interesse da comunidade”, afirmou Ford, que já palestrou sobre seus projetos em locais como os festivais South by Southwest e TEDx e a conferência anual da AIA.

     

    Atualmente, Ford está envolvido na criação de projetos e instalações para o Museu Universal do Hip Hop, no Bronx, e o Museu da Motown, em Detroit, ambos em construção, além de coordenar uma iniciativa de participação comunitária junto ao departamento de parques na cidade de Madison, Wisconsin.

    Para crianças e adolescentes

    Entre as iniciativas de Ford, está o Campo de Arquitetura Hip Hop, voltado a crianças e adolescentes e que busca despertar o interesse na arquitetura e no urbanismo. De acordo com ele, o projeto tem como objetivo atrair mais jovens negros para essas profissões.

    Durante uma semana, os participantes aprendem noções básicas de arquitetura, como leitura de medidas, técnicas de desenho e modelagem tridimensional. Como atividade final, um vídeo de música é produzido.

    “Cada atividade é baseada em letras de hip hop”, explicou o arquiteto ao site Green Biz. Segundo ele, as crianças e jovens são encorajadas a escrever versos baseados nas experiências que tiveram a cada dia.

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