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O que é mineração virtual e como ela usa computadores em segredo

Site de downloads The Pirate Bay usou capacidade de processamento de seus visitantes, sem avisar, para ganhar dinheiro virtual, levantando o debate sobre a ética e a segurança da prática

     

    Um dos sites de compartilhamento de arquivos mais famosos da internet, o The Pirate Bay, usou o computador de seus visitantes sem consentimento para “minerar” uma moeda virtual chamada Monero — semelhante ao BitCoin.

    Depois de ser descoberto, o site justificou a prática dizendo que se tratava apenas de um teste, para eventualmente não depender mais de anúncios para custear a existência da página e sua operacionalidade.

    O caso fez emergir um debate sobre a nova possibilidade de projetos on-line financiarem seus custos sem precisar se voltar à publicidade, que muitas vezes desagrada tanto visitantes quanto administradores — mesmo o The Pirate Bay já abordou a questão algumas vezes em seu blog. A mineração seria uma alternativa. Mas também levantou questões éticas da prática escondida.

    Mas, antes de mais nada, surge a dúvida sobre o que exatamente é a mineração, uma vez que está inserida em um campo ainda pouco conhecido como o das moedas virtuais, e como é possível fazer dinheiro com ela.

    O que é a mineração on-line

     

    Moedas virtuais — como a pioneira BitCoin e outras mais recentes como Monero e Ethereum, por exemplo — não possuem um banco central e são trocadas livremente entre seus donos, sem a intermediação de um cartão de crédito que cobra taxas por isso.

    Essa transação é feita por meio de “blockchains”, ou seja, uma rede de usuários adeptos da moeda que adotam um procedimento em comum para garantir a segurança das movimentações financeiras entre eles.

    Quando um usuário quer transferir moedas virtuais para outro, todos os membros da rede registram a transação. Depois, essa informação é selada com uma espécie de chave virtual — praticamente impossível de ser violada — e guardada. Grandes bancos já começam a confiar na tecnologia para baratear seus custos de transação.

    A energia e o tempo gastos pelos usuários da rede para fazer esse procedimento de segurança para cada grupo de transações é recompensado com pequenos valores da moeda virtual em questão. Muitas vezes, esse pequeno valor pode equivaler a muitos dólares.

    US$ 3.895,51

    era a cotação de uma BitCoin em 26 de setembro de 2017

    Essa recompensa é chamada mineração. Em geral, os membros de uma blockchain constroem sistemas de processamento próprios — ou seja, megacomputadores montados em casa — para manter uma atividade de geração de códigos de segurança constante. Isso aumenta o valor de recompensa recebido.

    Este dicionário on-line (em inglês) é uma boa forma de entender termos complexos da tecnologia, caso queira se aprofundar no assunto.

    A mineração com o computador alheio

    Partindo desse princípio, usuários da internet desenvolveram formas de utilizar o sistema de processamento de computadores de terceiros para minerar moedas virtuais. E essa atividade acontece desde 2013, pelo menos.

    Quando seu computador trava e você abre o gerenciador de tarefas para resolver o problema (o famoso ctrl+alt+del), é possível visualizar o uso da CPU — ou seja, quanto da capacidade de processamento da máquina está sendo usada pelos aplicativos abertos, que podem ser as páginas da internet ou qualquer outro programa rodando em paralelo.

    É a essa capacidade de processamento que outras pessoas ou sites conseguem ter acesso. Por meio de malwares, ou seja, links infectados ou propagandas maliciosas, é possível inserir essas ferramentas de mineração em computadores alheios, utilizando o uso de CPU disponível de outra pessoa.

    Mas é possível fazer isso também simplesmente adicionando uma linha de códigos na programação de um site.

    O lucro com essa mineração, em vez de ir pro dono do computador, vai para quem inseriu a ferramenta. Em vez de gastar dinheiro construindo um sistema potente de processamento para minerar moedas, usuários e sites aproveitam a capacidade ociosa de outras pessoas para fazer o procedimento. É isso que o The Pirate Bay fez, sem avisar quem visitava o site, o que gerou desconforto em muitos usuários.

    “Nós realmente queremos nos livrar dos anúncios. Mas também precisamos de dinheiro para manter o site. Nos avisem o que acham nos comentários. Vocês querem anúncios ou nos emprestar um pouco do processamento da sua CPU toda vez que visitar o site? É claro que a mineração pode ser bloqueada com um ad-blocker comum”

    The Pirate Bay

    Em post no seu blog

    O Pirate Bay ainda disse que a mineração usaria apenas de 20% a 30% da capacidade de processamento dos visitantes, minimizando os riscos de travar o computador. Uma das formas mais fáceis de saber se seu computador está sendo usado para mineração é observar se o uso da CPU aumenta bruscamente ao acessar uma página.

    A ética do procedimento

    O The Pirate Bay é conhecido por ser um dos maiores núcleos ativistas a favor da pirataria e contra a indústria de direitos autorais – a qual seus fundadores acreditam ser excludente, uma vez que elitiza o acesso à informação, ao conhecimento e à produção cultural eclética.

    Seus fundadores e administradores são constantemente alvos da Justiça e alguns foram presos. O site é acusado de permitir e contribuir com a pirataria na internet.

    Uma vez que a existência do Pirate Bay também é uma forma de resistência política, os administradores costumam ser transparentes com os usuários que acessam a página sobre as constantes tentativas de sobrevivência da plataforma. Por isso, a mineração escondida foi recebida com certa surpresa pelos visitantes da página.

    O Nexo conversou com Yasodara Córdova, pesquisadora na Harvard Kennedy School afiliada ao Berkman Klein Center for Internet & Society.

    Essa atividade de mineração com o computador alheio é legal? E ética?

    Yasodara Córdova Não tem legislação ainda dizendo, especificamente, que não pode usar o browser de outra pessoa para minerar. Como não tem regulamentação dizendo que isso é um crime, desconfio que eles não fizeram nada exatamente errado. Até porque o que eles fizeram foi adicionar um pedacinho de um script, em JavaScript, de um serviço que chama CoinHive. A CoinHive é uma empresa que faz isso. Trabalha ajudando websites a tirar dinheiro e minerar usando o poder de processamento dos computadores dos usuários. Isso é uma coisa comum de acontecer, não necessariamente sem avisar.

    "Geralmente [o Pirate Bay] tem uma postura transparente [com seus usuários]. E tem, também, adesão"

    O que foi antiético no caso do Pirate Bay foi que eles não avisaram antes. Sabe quando você acessa um site que tem cookies e aparece aquele bilhetinho dizendo “este site usa cookies, fazemos isso porque não temos como tirar dinheiro de outro lugar então usamos cookies para oferecer anúncios, se quiser continuar navegando, acesse aqui”? Eles poderiam ter utilizado a mesma técnica. Foi uma falha do Pirate Bay não ter feito isso, e dá uma má impressão de que os caras estavam fazendo no modo “se colar, colou” até descobrirem. Seria melhor se tivessem sido transparentes.

    Essa prática pode causar algum dano ao computador do visitante?

    Yasodara Córdova Pode deixar mais lento. Se está usando recursos que não seriam utilizados se o script não estivesse rodando, ele pode deixar sua navegação na web mais lenta, e isso é chato. Esse não é um tipo de serviço utilizado só pelo Pirate Bay, e não é só o CoinHive que faz isso. Tem mais empresas que fazem esse tipo de coisa, e não só para minerar. Eles usam recursos extra de CPUs para fazer pesquisa e várias outras atividades que não necessariamente têm a ver com mineração de moeda virtual. E é uma prática que geralmente as pessoas não gostam. Você pode concordar com ela, mas desde que você receba uma vantagem por isso.

    As moedas virtuais podem ser uma possibilidade real de financiamento de projetos on-line para o futuro?

    Yasodara Córdova Não acho arriscado dizer isso. Um grande exemplo disso é a própria tentativa do Pirate Bay de substituir o modelo deles de negócio por uma alternativa. Ainda que ela tenha sido feita desse jeito obscuro, sem avisar os usuários, é uma alternativa. É claro que sempre vai ter moedas que não são legítimas, que são scams [golpe]. Sempre vai existir. Então tem que tomar cuidado, se informar antes de comprar esse tipo de moeda, mas acho uma possibilidade, sim.

    "[...] Há modelos de negócios que podem existir com moedas virtuais, é uma maneira de gerar mais negócio"

    Inclusive existe um browser [navegador] chamado Brave que já se utiliza desse modelo — quando você faz o download do browser e o utiliza, você não vê anúncios, ele roda mais rápido, e o modelo de negócios é: se os publicadores quiserem te mostrar anúncios, você será pago por isso. Justamente envolvendo moedas virtuais. Isso seria impossível de acontecer se não existisse esse tipo de moeda que utiliza criptografia para registrar transação. O Brave mostra que há modelos de negócios que podem existir com moedas virtuais, é uma maneira de gerar mais negócio.

    Já existem, inclusive, modelos de fazendas de mineradores, que você pode alugar um pedaço — com bastante cuidado porque às vezes são esquemas de pirâmide — e entrar para um “clube de mineradores”. Em São Francisco [cidade nos EUA] elas são muito famosas. Eles compraram hardware de última geração, com muita capacidade de mineração, e levantaram dinheiro com um monte de gente.

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