Por que a China está restringindo a comunicação via WhatsApp

País com maior aparato de censura online do mundo bloqueou fotos, vídeos e mensagens de texto do aplicativo

     

    O governo chinês vem impossibilitando usuários do WhatsApp de se comunicarem por meio do aplicativo. Depois de começar a restringir o envio de fotos, vídeos e áudios em julho de 2017, as autoridades também começaram a dificultar a troca de mensagens de texto em setembro.

    De acordo com relatos de usuários chineses nas redes sociais, nenhum tipo de mensagem consegue ser enviada. Um representante da empresa de criptografia Symbolic Software ouvido pelo jornal The New York Times confirmou que problemas no WhatsApp chinês foram detectados pelo monitoramento da empresa, que é independente. Para ele, os censores chineses podem ter desenvolvido um software que consegue interferir nas mensagens de texto do aplicativo.

    Falando ao site The Verge, o mesmo especialista contou que a China pode ter atualizado seus sistemas de controle de tráfego on-line, o chamado “firewall”, para detectar e bloquear o envio de texto pelo WhatsApp. Os mesmos sistemas de controle já faziam o mesmo com fotos, vídeos e áudios, que usam programação diferente do texto.

    A ação pode estar relacionada com a aproximação do congresso do Partido Comunista, que começa em 18 de outubro. A reunião definirá o nome do novo líder do partido e, por consequência, do país. Realizado a cada cinco anos, palco de muita disputa interna, o evento deve consolidar o poder do atual presidente Xi Jinping.

    “Ao bloquear o WhatsApp, as autoridades fecharam um dos poucos aplicativos de mensagens encriptadas remanescentes. Mais importante, porém, é que eles também limitaram a habilidade dos chineses terem conversas privadas com seus pares”, disse um pesquisador de censura chinês ao jornal britânico The Guardian.

    As autoridades chinesas rotineiramente bloqueiam sites e aplicativos ou os inutilizam ao reduzir muito sua velocidade

    O WhatsApp não é o aplicativo de mensagens mais popular do país. Esta posição cabe ao WeChat, que conta com cerca de 900 milhões de usuários. Entretanto, o WhatsApp se utiliza de tecnologia de encriptação, que, por segurança, “embaralha” o conteúdo das mensagens no percurso entre um celular e outro. A encriptação torna quase impossível o monitoramento das conversas por um terceiro.

    Como o WeChat não se vale da criptografia para proteger suas mensagens, não sofre interferências das autoridades. O mesmo acontece com o serviço de chamadas Skype.

    A grande ciber-muralha da China

    As autoridades chinesas rotineiramente bloqueiam sites e aplicativos ou os inutilizam ao reduzir muito sua velocidade. As interferências não são permanentes, ficando muitas vezes sujeitas à necessidade de controlar o tráfego de comunicação e informações devido a um tema ou evento.

    Em termos de alcance, o controle exercido na internet por Pequim não tem paralelo em outros países. A qualquer momento, milhares de endereços e aplicativos se encontram restritos. Atualmente, por exemplo, quase todos os serviços do Google (Search, Maps, Docs), Facebook, YouTube, Instagram e Twitter, além de sites estrangeiros de notícias, sofrem restrições. O aparato é apelidado de “grande Firewall da China”, em referência à Grande Muralha da China (Great Wall of China, em inglês).

    O site Greatfire.org monitora o controle chinês, produzindo índices de censura em endereços e palavras específicos baseados nos últimos 90 dias. Por exemplo, a palavra “wikipedia” tem um índice de 33%, ou seja, esta é a média de vezes em que a palavra foi bloqueada ou censurada em sites de busca das empresas Google e Baidu e na popular rede social chinesa Sina Weibo.

    O serviço de e-mail do Google, o Gmail, registrou um índice de censura de 91% nos últimos 90 dias. Páginas da Wikipédia para assuntos como o livro “The Tiananmen Papers”, que contém documentos oficiais vazados referentes ao massacre da Praça da Paz Celestial ocorrido em 1989, mostram 100% de bloqueio nos últimos 90 dias.

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