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Como a aliança Doria-MBL dá impulso ao projeto presidencial do prefeito

Ideias do tucano e do movimento político convergem em vários aspectos. Parceria se dá na internet e fora dela também

     

    João Doria e MBL (Movimento Brasil Livre) têm muitos pontos em comum: são uma novidade na política brasileira, atacam o PT e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de forma sistemática, defendem uma economia aberta ao mercado, de cunho liberalizante, com pouca presença do Estado, e têm milhões de seguidores nas redes sociais.

    Mas não são apenas semelhanças que unem o prefeito de São Paulo e esse movimento político. Eles se tornaram aliados. Nessa parceria, o tucano dá suporte político aos líderes do grupo e recebe o apoio público, tanto no que se refere à sua administração em São Paulo quanto às suas pretensões presidenciais. 

    A aliança já foi testada nas eleições de 2016, vencida pelo tucano ainda no primeiro turno. Agora, pode ser repetida em 2018. Doria luta internamente no PSDB com seu padrinho político, o governador Geraldo Alckmin, pela vaga de candidato do partido ao Palácio do Planalto. Enquanto isso, os líderes do MBL elaboram sua lista de candidatos ao Legislativo. O coordenador Kim Kataguiri, por exemplo, quer ser deputado federal.

    Empresário, Doria assumiu seu primeiro cargo público como secretário municipal do Turismo em São Paulo em 1983. Foi presidente da estatal de turismo Embratur entre 1986 e 1988, no governo do ex-presidente José Sarney. O prefeito também é empresário e fundador do Grupo Lide, que reúne empresas em debates e seminários com outros empresários influentes e autoridades.

    Filiado ao PSDB desde 2001, Doria despontou como candidato à prefeitura de São Paulo com o apoio do governador paulista Geraldo Alckmin. Desbancou o então colega tucano Andrea Matarazzo nas prévias do partido e se apresentou como não político para o eleitorado. Foi eleito prefeito em 2016 com 3 milhões de votos.

    O MBL é um movimento que surgiu a partir das jornadas de junho de 2013, ganhou força ao convocar protestos contra o governo Dilma Rousseff a partir de 2015 e veio a se tornar um dos protagonistas na série de grandes manifestações contra a então presidente no ano seguinte, durante o processo de impeachment que acabou na deposição da petista.

    Politicamente afinados

    Privatizações, apoio ao projeto Escola sem Partido, críticas ao PT e à “polícia do politicamente correto”. Doria e MBL são afinados nas ideias. Defendem o que chamam de gestões eficientes e que o Estado interfira menos no mercado. O caminho, para eles, incluiria repassar a administração de parte dos serviços públicos e empresas estatais para a iniciativa privada – seja via concessões, seja com privatizações.

    Também são contrários a cotas raciais por acreditarem que elas representam uma forma de tratar a população negra como menos capaz de chegar ao ensino superior por conta própria.

    Enquanto Doria venceu no primeiro turno em São Paulo, o MBL fez 7 de seus afiliados vereadores em todo o Brasil, um deles na capital paulista, Fernando Holiday (DEM), que integra a base aliada do tucano.

    O ‘futuro presidente’

    Kim Kataguiri, de 21 anos, lançou no domingo (24) o livro “Quem é esse moleque para estar na Folha?”. O título do livro faz referência ao fato de ele ter sido colunista do site do jornal Folha de S.Paulo entre janeiro de 2016 e março de 2017.

    Doria compareceu ao lançamento do livro e falou sobre sua possível candidatura à Presidência da República. Líderes do MBL demonstraram entusiasmo com a possibilidade. Kataguiri fez uma dedicatória especial no exemplar do livro que ficou com o prefeito:

    “Para o futuro presidente da República”

    Kim Kataguiri

    Coordenador nacional do MBL, em dedicatória feita ao prefeito de São Paulo João Doria em 24 de setembro de 2017

    Fernando Holiday, de 21 anos, também apoiou a candidatura de Doria ao Planalto, defendendo que ela ocorra independentemente do partido ao qual o prefeito vai estar filiado.

    O muro pichado

    A casa do prefeito foi pichada em 15 de julho de 2017. Na época, a Câmara Municipal discutia o plano de privatizações do prefeito, proposta que passa a administração de parques, praças e outros serviços públicos para a iniciativa privada. Manifestantes contrários ao programa picharam o muro da casa de Doria, na zona oeste da capital, com os dizeres: “SP não está à venda”.

    O desenrolar do caso envolveu diretamente o MBL. Ainda no dia 15, membros do movimento responderam à pichação pintando o muro da casa do prefeito de branco. Entre eles havia uma funcionária da prefeitura regional de Pinheiros, Paloma Oliva.

    Ao mesmo tempo, o prefeito regional de Pinheiros, Paulo Mathias (PSDB), aplicou uma multa de R$ 5.000 em um dos manifestantes que fizeram a pichação, por crime ambiental. Um mês depois, Mathias se filiou ao MBL.

    Outro membro do MBL que participou da pintura ao muro de Doria, Cauê Del Valle, foi contratado duas semanas depois por Mathias para a prefeitura regional de Pinheiros.

    Questionado sobre a nomeação, Mathias afirmou que não há problema em ter pessoas do MBL na sua prefeitura regional e que é necessário observar "capacidade e consonância de ideias" com o funcionário.

    Do lado de Holiday

    O MBL é entusiasta do projeto Escola Sem Partido, segundo o qual professores utilizam o espaço da sala de aula para promover “a doutrinação política e ideológica” entre os alunos. O discurso de seus apoiadores é sobretudo voltado a criticar “doutrinações” de esquerda.

    Holiday resolveu visitar algumas escolas paulistanas de surpresa, em abril de 2017, para avaliar se professores da rede pública estavam fazendo “doutrinação ideológica” dos alunos.

    “Eu estou vendo se tem professor entrando lá com camisa do PT, do MST, jogando tudo pro alto e fazendo aquela doutrinação porca que a gente já conhece”

    Fernando Holiday

    Vereador de São Paulo pelo Democratas, em vídeo publicado em abril de 2017

    A notícia não foi bem recebida pelo secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, que acusou publicamente Holiday de intimidar os professores. Kim Kataguiri defendeu o colega de MBL e atacou Schneider em seu perfil do Facebook, associando-o ao PSOL e colocando Doria na conversa.

    “Devo lembrar o senhor secretário que o prefeito João Doria, líder da administração municipal e responsável pela sua nomeação, é a favor do projeto Escola sem Partido. O prefeito defendeu publicamente o projeto em sua pré-campanha, em sua campanha e continuou defendendo depois de eleito. Como secretário, é sua obrigação seguir as diretrizes definidas por Doria”

    Kim Kataguiri

    Coordenador Nacional do Movimento Brasil Livre, postagem em sua página de facebook no dia 6 de abril de 2017

    Doria tentou contemporizar, mas defendeu o direito de Holiday, como vereador, de fiscalizar os serviços prestados à população. Schneider se sentiu exposto no conflito com o MBL e chegou a pedir demissão da Secretaria de Educação, mas foi convencido pelo prefeito a continuar no cargo.

    Uma análise da relação

    O Nexo ouviu um especialista em movimentos sociais para entender o que torna essa aliança tão interessante para os dois lados e o que a torna tão particular. Trata-se de Pablo Ortellado, professor de gestão de políticas públicas da USP e coordenador do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas para o Acesso à Informação.

    Qual a importância da aliança entre Doria e MBL? O que Doria ganha eleitoralmente?

    Pablo Ortellado Hoje o MBL é uma potência comunicacional. Em estudos que eu participo de monitoramento de redes [sociais] eles estão sempre entre as 5 ou 10 páginas mais influentes do Facebook, que entre as redes sociais é a mais importante para informação política.

    Acredito que o principal ativo que o MBL tem a oferecer para o Doria é a comunicação. A capacidade de mobilização de rua, por exemplo, acabou já faz algum tempo, mas eles se comunicam com muita gente.

    É mais importante, hoje, estar ao lado de grupos como o MBL do que ter o domínio da máquina partidária?

    Pablo Ortellado O Doria está atuando nas duas frentes. Porque ele usa o MBL para parte de mídias sociais, para dominar as redes e fazer um trabalho de comunicação muito forte. Mas o próprio Doria também faz uma projeção da sua imagem na mídia tradicional, por meio de uma assessoria muito profissional. Do meu ponto de vista é a combinação dessas duas coisas que cacifa ele para se promover dentro do PSDB.

    Essa associação é um fenômeno novo na política ou é algo já conhecido, como as alianças do PT com movimentos à esquerda?

    Pablo Ortellado Não. Acho que já há algo parecido, por exemplo, na aliança entre o PT e o Fora do Eixo, que também é um grupo de juventude e com um papel de comunicação muito forte por meio do Mídia Ninja. A diferença é que o PT tem uma estrutura própria, ele começa de um patamar muito mais elevado do que o Doria.

    O que muda com o fato do MBL atuar mais na internet do que na base, como faziam os movimentos tradicionais? É isso que torna a aliança particular?

    Pablo Ortellado A questão é que o MBL nunca teve uma vocação de mobilização de rua, a vocação deles sempre foi eleitoral, o projeto político deles é muito mais ambicioso do que fazer protesto de rua. Eu acho que quando a capacidade de mobilização deles diminuiu, o MBL percebeu que poderia trocar o poder comunicacional deles por alianças eleitorais. É isso que eles estão fazendo aqui em São Paulo com o Doria e, em Porto Alegre, com o prefeito [Nelson Marchezan Junior].

     

    ESTAVA ERRADO: A primeira versão deste texto trazia um trecho que dava a entender que Doria e MBL são críticos do projeto Escola Sem Partido, quando na verdade são favoráveis a ele. A informação foi corrigida às 14h05 de 29 de setembro de 2017.

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