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Qual a agenda da extrema-direita alemã. E qual seu real poder no parlamento

Vitória inédita da AfD impulsiona retórica xenófoba, mas divisões internas e baixo poder de composição minam expressão política de seus líderes

     

    Pela primeira vez na história da Alemanha do pós-guerra, um partido de extrema-direita conseguiu, no domingo (24), os votos necessários para entrar no Bundestag, o parlamento alemão.

    A AfD (Alternativa para a Alemanha) se tornou a terceira maior força do legislativo ao receber o equivalente a 12,6% do total dos votos válidos, o que se traduz em 94 dos 631 assentos da casa.

    O crescimento inédito ofuscou a vitória da atual chanceler, Angela Merkel, cujo partido, CDU (União Democrata-Cristã), conquistou a maioria dos votos (33%) pela quarta vez consecutiva e se manteve como principal força política do país – embora tenha encolhido e precise refazer alianças que tornem possível governar.

    Com a conquista inédita para a extrema-direita, a AfD também ganha verba federal, o que deve alimentar ainda mais o crescimento da legenda de agora em diante. Além disso, o partido terá palanque destacado e permanente para amplificar o alcance de suas ideias nos níveis nacional e internacional.

    Eleição alemã

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    O crescimento inédito da AfD também impulsiona uma agenda nacionalista e xenófoba no momento em que a Europa vê crescer entre suas principais potências a opção dos eleitores por plataformas ultraconservadoras.

    Apenas quatro meses antes, a extrema-direita francesa havia conquistado 34,5% dos votos nas eleições presidenciais, com a candidata Marine Le Pen, mostrando força para ocupar o segundo lugar na preferência do eleitorado.

    Desunião na vitória limita poder da AfD

     

    O crescimento da AfD na Alemanha era previsto. Ele só não ocorreu antes porque a história da sigla é marcada por divisões internas. Mesmo após a conquista histórica de domingo (24), houve racha.

    Um dos principais nomes do partido, Frauke Petry, abandonou sem qualquer aviso prévio a entrevista à imprensa, na segunda-feira (25), depois de ter anunciado que não se sentará com os demais correligionários no plenário do parlamento.

    Petry lidera a ala moderada da AfD. Ela defende uma aproximação pragmática do governo, mas é rechaçada por líderes radicais como Jorg Meuthen, Alexander Gauland e Alice Weidel, que defendem que a sigla faça uma oposição sem trégua a Merkel.

    Uma das principais bandeiras dos radicais é abrir uma investigação parlamentar sobre a política migratória do governo Merkel, especialmente a respeito da entrada de 1 milhão de imigrantes em 2015.

    Esse fato é fundamental na história do partido, pois marcou uma mudança radical no discurso da AfD, que passou da defesa de uma plataforma econômica liberal para a defesa do que seria um identidade alemã a ser preservada a todo custo diante da entrada de imigrantes.

    “Esse governo que se proteja, porque iremos atrás dele. Recuperaremos o nosso país e o nosso povo. Mudaremos esse país”, disse Gauland, um dos radicais da sigla.

    A AfD usa linguagem racista e defende uma “Alemanha para os alemães”. Sua principal bandeira tem sido a de rechaço às levas de imigrantes do Oriente Médio e do norte da África. A sigla também defende uma diminuição da participação da Alemanha na Otan (Aliança do Tratado do Atlântico Norte) e a saída da União Europeia.

    Na área econômica, a plataforma do partido já foi chamada de “uma sacola de misturas”, pois nela convivem tanto a defesa de programas de bem estar social do governo quanto o rechaço ao aumento de impostos.

    Poder de influência parlamentar é limitado

    A conquista dos 94 assentos pela AfD é um feito histórico e simbolicamente forte num país em que a extrema-direita é associada à herança do nazismo.

    Porém, para que essa expressão se traduza numa agenda parlamentar, seria necessário que a extrema-direita formasse um bloco com outros partidos, de maneira a conseguir a maioria necessária para aprovar projetos e bloquear ações na casa.

    Isso é improvável de acontecer, não apenas pelas graves divisões existentes no interior do próprio partido, mas também pela ausência de um bloco que defenda ideias semelhantes no parlamento.

    “Os partidos que são capazes de formar coalizões uns com os outros buscarão soluções que são, evidentemente, diferentes, mas a AfD não terá influência”, disse Merkel após a vitória.

    A Alemanha é uma república federativa, com sistema parlamentarista. O Poder Legislativo tem duas casas, a Bundestag (câmara baixa) e o Bundesrat (câmara alta), como a Câmara dos Deputados e o Senado, no Brasil.

    O partido que obtém a maioria dos votos na Bundestag indica quem ocupará o cargo de chanceler federal. Cabe à chanceler, no caso, Merkel, governar o país e também representá-lo internacionalmente. Para que suas pautas avancem, é preciso ter maioria absoluta no parlamento, ou ser capaz de formar uma coalizão que lhe confira essa maioria.

    O país tem ainda um presidente, eleito pelo colégio eleitoral de um terceiro órgão, chamado Bundesversammlung (Assembleia Nacional), que se reúne apenas para esse fim. A presidência é, no entanto, um cargo simbólico e figurativo na Alemanha.

    Merkel terá de compor novo bloco

    Com a vitória de domingo (24), Merkel tem assegurada a permanência no cargo até 2021, quando então terá completado 16 anos ininterruptos no poder.

    A chanceler faz parte de um partido que normalmente poderia ser considerado de direita ou centro-direita, mas esses limites têm sido classificados como “borrados” ou “fora de foco” na Alemanha atualmente, sobretudo por ela ter assumido posições relativamente mais flexíveis em temas como migração, de uma forma que setores da direita mais tradicional reprovam.

    Mesmo com a marca positiva, esse foi o pior resultado obtido pelos democratas-cristãos desde 1949, quando a sigla obteve então 31% dos votos. A queda, em relação à eleição anterior, foi de 8 pontos.

    Além disso, o partido da chanceler perdeu o apoio de seu principal parceiro de coalizão. Martin Schulz, líder do SPD (Partido Social-Democrata), de centro-esquerda, que obteve 20,5% dos votos e se manteve como segunda principal força do Bundestag, já avisou que não pretende participar mais da coalizão governista.

    A hipótese mais provável agora é a de que o partido de Merkel proponha a formação de um novo governo, com os Liberais e os Verdes, que obtiveram, respectivamente, 10,7% e 8,9%.

    O partido Die Linke, de extrema-esquerda, conseguiu 9,2% dos votos. Mas, assim como a AfD, deve se manter como uma força menor, incapaz de formar blocos expressivos.

    “Temos a tarefa de formar um governo e contra nós nenhum governo pode ser formado”, disse Merkel, chamando atenção para o fato de que seu partido terá trabalho para arquitetar novas parcerias, mas ele não tem razão para temer que qualquer outra força política consiga construir um bloco de oposição majoritário.

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