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Por que mulheres do bloco soviético tinham mais orgasmos, segundo este estudo

Habitantes do sexo feminino da Alemanha oriental e de outras nações socialistas tinham maior liberdade sexual e igualdade de gênero

     

    Mulheres que habitaram a Alemanha oriental, sob influência política e cultural do regime soviético até 1990, gostavam mais de fazer sexo e tinham mais orgasmos do que as que estavam do outro lado do Muro de Berlim, vivendo sob os valores capitalistas.

    É o que concluiu um estudo sociológico realizado em 1988. A pesquisa, citada pelo livro “Sex after Fascism: Memory and Morality in Twentieth-Century Germany” (Sexo depois do fascismo: memória e moralidade na Alemanha do século 20, em tradução livre), da historiadora Dagmar Herzog, comparou as experiências sexuais de estudantes mulheres heterossexuais da Alemanha ocidental e oriental.

    Partindo das mesmas estatísticas, um documentário de 2006 investiga se, e por que, “comunistas transavam melhor”.

    Os direitos e garantias que cada regime oferecia às mulheres contribuíram com a diferença na taxa de orgasmos de cada lado do muro, como aponta um artigo de opinião publicado pelo jornal New York Times em agosto.

    Investigando o prazer feminino

    Ainda nos anos 1950, na Tchecoslováquia, uma das nações que fizeram parte do bloco soviético, sexólogos se dedicavam a estudar o orgasmo feminino. Uma conferência inteiramente dedicada ao tópico foi realizada em 1961, segundo a professora da Universidade de Masaryk, na República Tcheca, Katerina Liskova.

    O foco dos pesquisadores na época era demonstrar a importância da igualdade entre homens e mulheres, que seria componente central do prazer feminino. Alguns deles argumentavam que, se não houvesse divisão das tarefas domésticas e do cuidado com as crianças, o sexo não seria bom. 

    Essa hipótese foi reiterada pela pesquisa “Marital and Relationship Study” da Universidade Estadual da Geórgia, nos EUA, realizada em 2006. 

    Sexólogos atuantes em alguns dos países do leste europeu chegaram à conclusão de que nem o melhor dos estímulos era capaz de fazer com que as mulheres sentissem prazer caso estivessem sobrecarregadas, sentindo-se preocupadas com o futuro ou com sua estabilidade financeira.

    Eles enfatizavam o contexto social e cultural do prazer sexual. A ideia era que a igualdade entre os gêneros, incentivada no trabalho e em casa, também invadisse a intimidade das mulheres.

    Políticas de igualdade de gênero

    A influência das transformações sociais sobre a saúde e o comportamento sexual das mulheres na Alemanha Oriental foram analisadas por um outro estudo de 1990, realizado no Instituto Central de Pesquisa para a Juventude, em Leipzig, com o título “Sexuality, sexual behaviour and contraception in East Germany” (Sexualidade, comportamento sexual e contracepção na Alemanha Oriental).

    A pesquisa mostrou que, de uma amostra de alguns milhares de mulheres do lado oriental, 91% havia tido um orgasmo recente. “As mudanças políticas na Alemanha oriental revelaram uma atitude positiva com relação à sexualidade e ao uso de métodos contraceptivos”, diz o artigo.

    Embora a desigualdade salarial e profissional entre homens e mulheres não tenha sido plenamente resolvida no período, as habitantes da URSS e do leste europeu experimentavam direitos ainda ausentes nas democracias liberais, segundo o artigo do New York Times. As russas conquistaram o sufrágio em 1917, a partir da Revolução Russa, três anos antes das americanas.

    É que, se por um um lado a força de trabalho das mulheres era necessária para concretizar uma rápida industrialização no pós-guerra, por outro, havia também um componente ideológico que buscava promover a igualdade entre “camaradas” homens e mulheres, associando o machismo a um passado pré-socialista. A emancipação feminina era vista como central para que o socialismo científico, o qual buscavam seguir, desse certo.

     

    Programas governamentais soviéticos investiam na emancipação das mulheres: em sua capacitação para garantir o acesso ao emprego, em estudos sobre a sexualidade feminina subsidiados pelo Estado. Havia o direito à licença maternidade e creches públicas para deixarem os filhos.

    Essas políticas se faziam valer em todos os signatários do Pacto de Varsóvia, a URSS e os países do leste europeu que compunham o bloco socialista.

    Ao mesmo tempo, os Estados do bloco socialista baniram a pornografia, censuravam representações consideradas muito explícitas do sexo no cinema e combatiam ferrenhamente a prostituição, por serem elementos associados às práticas sexuais do mundo capitalista. E alguns dos avanços conquistados com a  revolução sexual ocorrida nos primeiros anos após a Revolução Russa retrocederam com o domínio de Josef Stálin, a partir de 1922. Nos anos 1930, por exemplo, ele tornou a proibir o aborto e passou a promover a família nuclear na URSS.

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