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Mães valorizam mais extroversão do que inteligência nos filhos, segundo este estudo

Pesquisadoras da Universidade de Londres avaliaram quais características e traços de personalidades mães consideram mais importantes para seus filhos

     

    Há diversas evidências empíricas na psicologia comportamental de que o QI (Quoeficiente de Inteligência) elevado e a conscienciosidade – em resumo, ser disciplinado e cauteloso – estão entre os traços de personalidade que trazem benefícios às pessoas. Quem é assim obtém melhores resultados acadêmicos e profissionais, é mais saudável e vive mais.  

    Apesar disso, mães de crianças entre zero e um ano consideram mais desejável que seus filhos sejam extrovertidos – a tendência a ser sociável, assertivo, gregário, ativo e alegre, na definição do estudo – do que tenham QI alto ou sejam consciensiosos.

    É essa a conclusão de um estudo de 2017 realizado por duas pesquisadoras, Rachel M. Latham e Sophie von Stumm, do Departamento de Psicologia da Universidade de Londres.

    As implicações positivas da extroversão na vida futura da criança são menos comprovadas. O estudo menciona, inclusive, que pessoas de personalidade mais extrovertida são mais associadas, em pesquisas acadêmicas, ao consumo de cigarro, álcool e drogas ilícitas do que aquelas em que a inteligência e a conscienciosidade são os traços preponderantes.

    Como a pesquisa foi realizada

    Os objetivos das pesquisadoras eram verificar quais traços as mães consideram mais importantes para seus filhos e as crenças delas quanto ao grau de influência que exercem sobre o desenvolvimento do caráter dos filhos.

    Para avaliar a preferência das mães por determinados traços de personalidade, o estudo lançou mão de uma teoria da psicologia chamada de “Big Five”, que delimita cinco grandes dimensões da personalidade humana:

    1. extroversão: amabilidade, gregarismo, assertividade, atividade, busca por emoções, alegria
    2. conscienciosidade: auto-eficácia, organização, obediência, esforço para realizar algo, disciplina, cautela
    3. neuroticismo: ansiedade, raiva, depressão, insegurança, desregramento, vulnerabilidade
    4. amabilidade: confiança, moralidade, altruísmo, prestatividade, modéstia, simpatia
    5. abertura para a experiência: imaginação, interesses artísticos, espírito aventureiro, emotividade, inteligência

    Um total de 142 mães do Reino Unido foram recrutadas pelas redes sociais e por anúncios na internet para relatar sua visão sobre a personalidade dos filhos para uma pesquisa. Para captar melhor os desejos das mães em relação aos filhos, em vez de relatos sobre o comportamento de crianças já desenvolvidas, responderam à pesquisa mães de crianças de até um ano de idade, dentre as quais 58 eram meninas e 84 meninos.

    Para cada uma das cinco grandes dimensões de personalidade, as mães tiveram que selecionar quais facetas elas mais gostariam que seus filhos tivessem. A seguir, ranquearam as características selecionadas, das que consideravam mais importantes para as menos importantes.

    As mães também tiveram que fazer uma classificação geral dos cinco traços de personalidade junto com a característica da inteligência. Na comparação geral desses seis pontos, menos de 10% das participantes classificaram inteligência e conscienciosidade como os traços mais importantes, enquanto 51% avaliaram extroversão como a característica mais importante e 20% escolheram que o mais importante era a amabilidade de seus filhos.

    Por que apenas mães foram ouvidas

    A escolha de abordar somente as mães é justificada, no artigo, pelo fato de que elas em geral passam mais tempo com os filhos do que os pais, embora o papel de pai esteja mudando nos últimos tempos.

    Segundo o artigo, trata-se do primeiro estudo a explorar a apreciação das mães da importância relativa do QI e das cinco dimensões de personalidade.

    As pesquisadoras ponderam que a preferência das mães pela extroversão, expressa nos resultados do estudo, pode ser um produto de um ambiente cultural que valoriza e encoraja esse tipo de comportamento, em vez de ser algo “inato”. Conforme os filhos cresçam e acumulem experiências, elas admitem a possibilidade de que essa preferência possa mudar.

    As autoras questionam, ainda, se os pais das crianças divergiriam sobre quais as características mais importantes para os filhos. “A perspectiva evolutiva sugere que mulheres dão importância a características – como extroversão e amabilidade – que facilitam as relações sociais; enquanto homens podem mostrar maior inclinação para traços que promovem realizações e a acumulação de recursos, como inteligência e conscienciosidade”, diz o artigo.  

    A influência dos pais sobre a personalidade

    O interesse em levantar as preferências das mães quanto à personalidade de seus filhos, segundo a pesquisa, está em compreender o contexto em que uma criança desenvolve sua personalidade. Nele, pai e mãe exercem grande influência.

    Segundo descreve a pesquisa, os modelos de comportamento estabelecidos pelos pais são internalizados pelas crianças e aplicados às situações enfrentadas por elas. Os valores das mães, isto é, quais traços de personalidade consideram positivos e desejáveis, dizem sobre seus objetivos no exercício da maternidade e sobre a  forma como socializam os filhos. As preferências delas teriam reflexo direto no desenvolvimento da personalidade da criança.

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